O rastreamento do câncer colorretal vive um momento de transição. Na sessão Colorectal Cancer Screening, apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, o foco não esteve apenas nos novos testes, mas em um ponto ainda mais decisivo: ampliar a adesão populacional. A principal mensagem foi direta: o melhor exame continua sendo aquele que o paciente realmente realiza.
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Adesão ainda é o principal desafio do rastreamento
Apesar da disponibilidade de métodos eficazes, uma parcela importante da população elegível permanece sem rastreamento adequado. Dados apresentados mostraram que apenas cerca de 59% dos adultos elegíveis estão efetivamente rastreados, com taxas ainda mais baixas em populações vulneráveis.
Esse cenário limita diretamente o impacto sobre incidência e mortalidade por câncer colorretal. A evidência mais consistente apresentada reforça que programas organizados de rastreamento podem mudar esse panorama de forma expressiva. Em um grande programa populacional, a adesão aumentou de 38% para 82%, com redução de 52% na mortalidade por câncer colorretal.
Quando iniciar e como escolher o método
As principais diretrizes convergem para o início do rastreamento aos 45 anos em indivíduos de risco médio. A escolha do método deve considerar preferências do paciente, acesso e perfil de risco.
A colonoscopia permanece como padrão de referência, com sensibilidade próxima de 96% para câncer colorretal. Ainda assim, os testes não invasivos vêm ganhando espaço, sobretudo por seu potencial de ampliar a cobertura populacional.
Entre as opções disponíveis, a colonoscopia oferece maior sensibilidade para lesões avançadas e permite intervenção imediata. O teste imunológico fecal (FIT) apresenta boa especificidade, embora tenha menor sensibilidade para adenomas. Já os testes de DNA fecal multialvo ampliam a sensibilidade para câncer, com desempenho intermediário na detecção de lesões precursoras. Um ponto prático reforçado durante a sessão foi que qualquer teste fecal positivo deve ser seguido obrigatoriamente por colonoscopia.
Novos testes: avanço real ou mudança incremental?
Os dados mais recentes mostram evolução relevante dos testes não invasivos, especialmente com a incorporação de biomarcadores moleculares.
No estudo Blue-C, testes fecais de nova geração atingiram sensibilidade de 93,9% para câncer colorretal e cerca de 43% para adenomas avançados, mantendo alta especificidade. Já os testes sanguíneos baseados em DNA tumoral circulante representam uma das apostas mais promissoras para o futuro do rastreamento, com sensibilidade entre 79% e 83% para câncer e especificidade acima de 89%.
Ainda assim, a principal limitação permanece: a detecção de lesões precursoras continua baixa, em torno de 12% a 13%, o que reduz o impacto desses testes na prevenção primária da doença.
O que muda na prática
A principal mudança não está exatamente na escolha de um novo exame, mas na forma de abordar o paciente. Na prática, o clínico deve priorizar a adesão, oferecendo opções e compartilhando decisões. Programas organizados, rastreamento ativo e uso de testes menos invasivos podem ampliar de forma importante a cobertura populacional.
Mais do que escolher o melhor teste em termos absolutos, o objetivo passa a ser garantir que o paciente efetivamente seja rastreado.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
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