O impacto do vírus Oropouche na América Latina pode ser muito maior do que sugerem os dados oficiais. Dois estudos publicados nas revistas Nature Medicine e Nature Health estimam que cerca de 9,4 milhões de pessoas foram infectadas na região desde a década de 1960, sendo aproximadamente 5,5 milhões apenas no Brasil.
O número contrasta com os registros recentes (cerca de 30 mil casos confirmados no país em 2023) e reforça a hipótese de ampla subnotificação. O cenário acendeu o alerta de autoridades de saúde, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que já defendeu a ampliação de medidas de prevenção e controle.
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Subnotificação e disseminação silenciosa
Os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos, dados históricos e análises sorológicas para estimar a real circulação do vírus. Em Manaus, um dos principais focos recentes, cerca de 300 mil pessoas podem ter sido infectadas entre 2023 e 2024, número até 260 vezes maior que os casos confirmados.
A alta taxa de infecção sem diagnóstico está associada à presença de quadros leves ou assintomáticos, além de dificuldades de acesso à saúde em regiões remotas. Esse cenário favorece a circulação silenciosa do vírus, que pode se espalhar antes de ser detectado.
Embora a maioria dos casos apresente sintomas semelhantes aos da dengue, como febre e mal-estar, a infecção pode evoluir para complicações graves, incluindo meningite, meningoencefalite e, em casos raros, transmissão vertical com risco de microcefalia.
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Vetor exige estratégia diferente de combate
Diferentemente de outras arboviroses, o Oropouche é transmitido pelo mosquito-pólvora (Culicoides paraensis), que se prolifera em solos úmidos ricos em matéria orgânica, sobretudo em áreas rurais. Isso torna medidas tradicionais, como o uso de fumacê em áreas urbanas, pouco eficazes.
Os estudos também identificaram a emergência de uma nova linhagem viral, possivelmente mais adaptada à disseminação, o que pode ter contribuído para o surto recente.
Para os especialistas, o enfrentamento da doença exige mudanças estruturais, incluindo vigilância ativa, ampliação de testes, uso de dados genômicos e monitoramento contínuo, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
Autoria

Roberta Santiago
Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.
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