O Brasil enfrenta desafios crescentes com a circulação simultânea de múltiplas arboviroses. A febre do oropouche (FO), causada pelo vírus Oropouche (OROV), emergiu como uma ameaça significativa, apresentando sintomas clínicos que se sobrepõem aos sintomas da dengue. Um estudo comparativo realizado no Espírito Santo, buscou delinear as características sociodemográficas e clínicas que distinguem estas duas enfermidades, fornecendo subsídios para o manejo clínico e a vigilância epidemiológica.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal que utilizou dados secundários do sistema de vigilância em saúde do estado do Espírito Santo (eSUS), abrangendo o período de 2024-2025, no qual ocorreu a maior epidemia de dengue da história do estado e a maior epidemia de febre do oropouche fora da região Amazônica. O eSUS é um sistema criado pelo Ministério da Saúde para a notificação de Doenças de Notificação Compulsória. A pesquisa incluiu casos confirmados laboratorialmente para febre do oropouche (por meio de RT-PCR) ou dengue (por meio de RT-PCR, sorologia IgM ou antígeno NS1). Os casos não autóctones foram excluídos do estudo. Foram analisadas frequências absolutas e relativas, utilizando testes de Qui-quadrado e regressão logística com penalização de Firth para estimar a razão de chances de gravidade e óbito entre as duas doenças. Foi construída uma curva epidêmica com a distribuição dos casos de acordo com a semana epidemiológica.
Resultados
Foram confirmados 12.135 casos de oropouche e 18.018 de dengue, revelando distinções importantes:
- Perfil sociodemográfico: a febre do oropouche foi mais prevalente em homens (53,5%), indivíduos brancos e residentes de áreas rurais ou periurbanas, em contraste com a dengue, mais urbana e predominante em mulheres. A média de idade dos casos foi similar nas duas doenças: 42 anos na febre do oropouche e 40 anos na dengue. A hipertensão arterial sistêmica foi a comorbidade mais prevalente em ambos os grupos;
- Manifestações clínicas: embora ambas compartilhem a tríade clássica de sintomas de arboviroses (febre, cefaleia e mialgia), estes foram significativamente mais frequentes nos casos de oropouche (febre: 84,5% vs 78,7%; cefaleia: 83,9% vs 72,1%; mialgia: 76,5% vs 67,5%).
- Desfechos e gravidade: a dengue apresentou um risco substancialmente maior de evolução para formas graves da doença (OR 15,35; IC 95%: 10,60–22,23) e óbito (OR 2,09) quando comparada à febre do oropouche.
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Mensagem Prática: Febre do Oropouche e Dengue
Sabe-se que o padrão epidêmico documentado sugere transmissão sazonal dos arbovírus, definida pela rápida disseminação e concentração de casos em um período específico do ano, que são os meses quentes e com chuvas intensas nas regiões tropicais e subtropicais. Dessa forma, é imprescindível a vigilância ativa e a implementação de estratégias de prevenção direcionadas para os períodos de alto risco.
Dada a sobreposição clínica das doenças, é essencial priorizar a testagem laboratorial para ambas as arboviroses em áreas de cocirculação, de acordo com o tempo de início dos sintomas, para avaliação de diagnósticos diferenciais.
Embora a febre do oropouche cause morbidade significativa, a dengue permanece com maior letalidade e necessidade de suporte intensivo. O monitoramento de sinais de alerta para choque e hemorragias continua sendo a prioridade no manejo da Dengue.
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Autoria

Raissa Moraes
Editora médica de Infectologia da Afya ⦁ Médica do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Mestrado em Pesquisa Clínica pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Infectologista pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense
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