O vírus Coxsackie, enterovírus que circula com facilidade, costuma provocar infecções sem sintomas ou quadros leves, como febre e infecção de vias aéreas superiores. Em parte dos pacientes, no entanto, ele pode atingir o coração.
A associação é discutida em uma metanálise publicada na Heart em 1997 e em uma revisão sistemática de infecções neonatais graves publicada na BMC Pediatrics em 2021. Com base em estudos moleculares e relatos de caso, os trabalhos associam o vírus à miocardite aguda e a formas graves da infecção em recém-nascidos.

O que é o vírus Coxsackie e quais quadros ele causa?
O Coxsackie B costuma provocar pequenas epidemias. Muitas infecções são subclínicas, ou seja, não chegam a causar sintomas. Quando aparecem, os quadros variam bastante. Segundo as revisões, vão de:
- Febre inespecífica;
- Infecção de vias aéreas superiores;
- Doença sistêmica grave, sobretudo em recém-nascidos.
O grupo dos enterovírus, do qual o Coxsackie faz parte, também está por trás de doença mão-pé-boca, herpangina e conjuntivite hemorrágica aguda.
Como o vírus pode afetar o coração
A evidência mais sólida envolve a miocardite aguda. Uma metanálise da St George’s Hospital Medical School, em Londres, reuniu 12 estudos que buscaram o material genético do vírus no tecido cardíaco.
Estudos antigos encontraram maior frequência de sorologia positiva em pacientes com miocardite. Entretanto, anticorpos contra o vírus não confirmam infecção do miocárdio. A diretriz da European Society of Cardiology (ESC) de 2025 não recomenda sorologia viral de rotina para investigar a etiologia da miocardite.
Os exames de sangue apontam na mesma direção. Em adultos com miocardite aguda, 33% a 36% tinham sorologia de infecção recente por Coxsackie B, contra 4% a 10% dos controles. Segundo a revisão, essa associação já é consenso.
Recém-nascidos concentram os casos mais graves
Nos bebês, o cenário pode ser bem mais sério. Uma revisão sistemática da Universidade de Sichuan, na China, analisou 237 casos graves de infecção por enterovírus em recém-nascidos, descritos em 66 estudos.
Entre os casos graves selecionados pela revisão, a letalidade foi de 30,4%, chegando a 38,6% naqueles com miocardite. Esses percentuais não representam o risco de morte entre todos os recém-nascidos infectados.
Em 70,5% dos casos, os sintomas começaram antes dos 7 dias de vida. Uma possível explicação, segundo os autores, é a falta de anticorpos neutralizantes transmitidos pela placenta.
A infecção pode acontecer antes, durante ou depois do parto, pelo contato com familiares ou no berçário. Os autores ressaltam que ainda faltam evidências sobre a eficácia dos antivirais nesses casos.
O vírus também está ligado à cardiomiopatia dilatada?
A resposta ainda não é clara. Na metanálise, 17 estudos avaliaram a cardiomiopatia dilatada. Os enterovírus foram encontrados em cerca de 23% dos pacientes e em 7% dos controles (OR 3,8), mas seis estudos não encontraram diferença significativa entre os grupos.
Os autores reconhecem limitações, como o risco de contaminação nos testes de PCR e a escolha dos controles. Essas limitações refletem a evidência disponível em 1997. Atualmente, reconhece-se que a miocardite pode evoluir para disfunção ventricular persistente e cardiomiopatia dilatada, embora atribuir essa evolução a um vírus específico exija investigação individualizada.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria

Luciano Lucas
Editor de conteúdo da Afya. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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