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Infectologia19 junho 2026

Tuberculose multirresistente: tratamento com BPaL e BPaL-FQ mostra alta eficácia

Estudo descreveu os resultados e a tolerabilidade no mundo real do BPaL, com ou sem fluoroquinolona (BPaL-FQ) na tuberculose multirresistente

Atualmente, o esquema para o tratamento de casos de tuberculose multirresistente (TB-MDR) consiste na combinação de bedaquilina, pretomanida e linezolida (BPaL), podendo contar também com uma quinolona, mais comumente moxifloxacino (BPaL-M).

Um estudo de vida real em relação aos desfechos e tolerabilidade desses novos esquemas foi conduzido em um centro especializado em tratamento de TB-MDR na Califórnia, EUA, e publicado na Open Forum Diseases.

Tuberculose multirresistente: tratamento com BPaL e BPaL-FQ mostra alta eficácia

Ilustração da bactéria Mycobacterium tuberculosis. Imagem de Alissa Eckert; James Archer/ CDC/ Antibiotic Resistance Coordination and Strategy Unit

Como o estudo foi conduzido

Para o estudo, foram definidos como casos de tuberculose multirresistente (TB-MDR) os com resistência à rifampicina e à isoniazida. Os com resistência adicional a fluoroquinolonas e a pelo menos um medicamento injetável de segunda linha foram definidos como TB-XDR. Os casos com mutação de resistência à bedaquilina foram considerados como BDQ-resistentes.

A análise inicial incluiu todos os pacientes que receberam pelo menos uma dose de esquema contendo pretonamida (Pa), podendo ser BPaL, BPaL-FQ (moxifloxacino ou levofloxacino) ou esquemas com outras combinações, de 2020 a 2023.

Altas taxas de sucesso, mas eventos adversos frequentes

Dos 97 pacientes registrados no serviço de TB-MDR que coordenou o estudo, 30 foram incluídos na análise de desfecho de TB. Um total de 62 pacientes – considerando todos as possibilidades de esquemas terapêuticos – foram incluídos na análise de eventos adversos.

Dentre os 97 pacientes que receberam esquemas com Pa, a idade variou de 18 a 85 anos, com média de 49 anos. O esquema mais utilizado foi BPaL-FQ (49/97; 51%), seguido de esquemas com outras combinações (23/97; 23%) e BPaL (22/97; 23%). A maioria apresentava tuberculose multirresistente (TB-MDR) ou quinolona sensível (n = 57; 57%) ou com resistência (n = 10; 10%), mas uma proporção menor dos casos tinha sensibilidade a rifampicina (n = 16; 16%), resistência à rifampicina sem resistência à isoniazida (n = 9; 9%) ou TB-XDR (n = 5; 5%). Nenhum paciente na coorte tinha resistência à bedaquilina em exame fenotípico.

Um total de 76 pacientes (78%) tinham somente doença pulmonar, com menores proporções de casos com doença pulmonar e extrapulmonar de forma concomitante (n = 15; 16%) e doença extrapulmonar isolada (n = 6; 6%). Não foram registrados casos de TB em SNC. Foram relatados 5 óbitos, sendo 3 em pacientes com menos de 1 semana de tratamento com Pa e os outros 2 por outras causas que não TB.

No total, 56 pacientes receberam ao menos 4 semanas de BPaL ou BPaL-FQ, dos quais 69 tiveram registro de desfecho e 56, dados sobre conversão de cultura. Dos pacientes recebendo BPaL, 90% (19/21) tiveram um desfecho favorável, com conversão de cultura em 8 semanas em 100% dos que tinham dados disponíveis (18/18). Dos que receberam BPaL-FQ, 94% (45/48) tiveram desfecho favorável, com 94% (36/38) de conversão de cultura em 8 semanas.

Resultados animadores

Desfechos favoráveis foram relatados em mais de 90% dos pacientes que receberam pelo menos 26 semanas de tratamento com BPaL ou BPaL-FQ. Desfechos desfavoráveis foram reportados em 5 pessoas: 3 com falha terapêutica devido a eventos adversos (2 no regime de BPaL e 1 no regime de BPaL-FQ), os quais conseguiram completar o tratamento com outros medicamentos e 2 óbitos antes de 26 semanas de terapia. Em nenhum grupo houve casos de relapso de TB microbiologicamente confirmados.

Eventos adversos foram comuns, ocorrendo em 79% dos pacientes com dados disponíveis para análise (49/62), incluindo 13 (65%) que estavam recebendo BPaL, 27 (82%) das que estavam recebendo BPaL-FQ e 9 (100%) das que receberam Pa com outros medicamentos.

Os eventos mais frequentemente relatados foram queixas gastrointestinais (32%), incluindo náuseas, vômitos, disgeusia e anorexia. Elevação de TGP também foi comum. Enquanto, no grupo que recebeu BPaL, sintomas gastrointestinais foram os mais frequentes (35%), no grupo que recebeu BPaL-FQ, anemia foi o evento adverso mais comum (33%), seguido de eventos gastrointestinais (30%).

Considerações finais

Em todos os grupos, os eventos mais relacionados a alterações no regime terapêutico (mudança de dose ou suspensão) foram neuropatia periférica e citopenias, seguidos de sintomas gastrointestinais (náuseas, vômitos, anorexia, disgeusia), cefaleia, vertigem e brain fog. A maioria dos eventos considerados limitantes foram atribuídos a linezolida, seguida de moxifloxacino ou levofloxacino.

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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