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Pediatria12 janeiro 2026

Simbióticos nos distúrbios gastrointestinais funcionais

Distúrbios gastrointestinais funcionais em crianças: novas evidências e o papel dos simbióticos na prática pediátrica

Este conteúdo foi produzido pela Afya em parceria com Apsen de acordo com a Política Editorial e de Publicidade do Portal Afya.

Os distúrbios gastrointestinais funcionais (DGIFs) são condições comuns na população pediátrica, caracterizadas por sintomas crônicos ou recorrentes do trato gastrointestinal sem evidência de doença orgânica subjacente.1 Condições, como cólica infantil, síndrome do intestino irritável (SII) e dor abdominal funcional (DAF), afetam significativamente a qualidade de vida de crianças e suas famílias, representando um desafio diagnóstico e terapêutico para pediatras.2,3

A fisiopatologia dos DGIFs é multifatorial, envolvendo a interação intestino-cérebro, dismotilidade, hipersensibilidade visceral e, cada vez mais reconhecido, o papel da disbiose da microbiota intestinal.4 Nesse contexto, a modulação da microbiota intestinal, por meio de probióticos, prebióticos e simbióticos, tem ganhado destaque como uma estratégia terapêutica promissora.5

Este artigo visa apresentar as evidências clínicas sobre o uso de simbióticos no manejo dos DGIFs pediátricos, com ênfase em novas terapêuticas baseadas em associações específicas.

Evidências até o momento

As diretrizes de sociedades médicas, como a Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN), têm revisado o uso de probióticos e simbióticos para diversos distúrbios gastrointestinais em crianças.6,7

Para os DGIFs, as recomendações são específicas para cepa e condição:

  • Cólica infantil: Para o tratamento da cólica infantil em bebês amamentados, a ESPGHAN sugere o uso de Limosilactobacillus reuteri DSM 17938 (10⁸ UFC/dia por pelo menos 21 dias) e Bifidobacterium animalis lactis BB-12 (10⁸ UFC/dia por 21 a 28 dias).6 No entanto, não há recomendação para o uso de L. reuteri DSM 17938 em bebês alimentados com fórmula, devido a evidências insuficientes.6 Para a prevenção da cólica infantil, não há recomendação a favor ou contra o uso de probióticos.6
  • Distúrbios Funcionais da Dor Abdominal (DFDA) e Síndrome do Intestino Irritável (SII): Profissionais de saúde podem recomendar reuteri DSM 17938 (10⁸ a 2 × 10⁸ UFC/dia) para a redução da intensidade da dor em crianças com DFDA.6 Para crianças com SII, Lacticaseibacillus rhamnosus GG (10⁹ a 3 × 10⁹ UFC duas vezes ao dia) pode ser recomendada para redução da frequência e intensidade da dor.6 A ESPGHAN ressalta que a heterogeneidade dos estudos, dos probióticos utilizados e dos resultados dificulta uma recomendação mais ampla para o uso de probióticos em crianças com SII.6
  • Constipação funcional: A ESPGHAN não recomenda o uso de probióticos como terapia única ou adjuvante para o tratamento da constipação funcional em crianças, devido à falta de eficácia comprovada.6 Em relação aos simbióticos, definidos como a combinação de probióticos e prebióticos que conferem benefício à saúde do hospedeiro5, as diretrizes são mais cautelosas. A ESPGHAN concluiu que, embora alguns estudos tenham avaliado simbióticos no tratamento da cólica infantil, da DFDA e da SII, a grande diversidade de preparações simbióticas estudadas e o número limitado de ensaios clínicos randomizados bem controlados para cada combinação específica impedem a formulação de recomendações sobre o uso de qualquer preparação simbiótica específica para essas condições.7 Para prebióticos isolados, a ESPGHAN (2024) também não formula uma recomendação para a maioria das condições, com a exceção de que, em crianças com SII, a suplementação de psyllium pode ser recomendada com baixa certeza da evidência.8

Novas terapêuticas

Novas pesquisas continuam a explorar combinações específicas com potencial terapêutico para DGIFs. A microbiota intestinal no início da vida, predominantemente composta por Bifidobactérias, desempenha um papel crucial no desenvolvimento da saúde, e sua disbiose está ligada a diversas condições, incluindo DGIFs.9,10 A cepa Bifidobacterium lactis tem demonstrado a capacidade de produzir altos níveis de acetato, que pode mediar efeitos benéficos, como a proteção da integridade da barreira intestinal e a modulação imune.1 Mais estudos com simbióticos estão sendo conduzidos para diversas condições gastrointestinais pediátricas, e as evidências iniciais indicam que a sinergia entre probióticos e prebióticos pode oferecer um benefício clínico relevante.7

Considerando a crescente evidência sobre o papel da microbiota intestinal nos DGIFs e o potencial das intervenções simbióticas, a associação de Bifidobacterium lactis B94 e inulina representa um suplemento alimentar simbiótico relevante. Sua formulação combina o probiótico Bifidobacterium lactis B94 com o prebiótico inulina. Esta última atua como um prebiótico, oferecendo um substrato nutricional seletivo que impulsiona o crescimento e a atividade metabólica das bifidobactérias, resultando em uma simbiose que otimiza a composição da microbiota intestinal e confere benefícios imunomoduladores e digestivos à saúde do hospedeiro. Embora mais estudos sejam necessários para consolidar evidências em todos os DGIFs, essa combinação demonstra um potencial promissor.12,13

Um estudo randomizado, duplo-cego, controlado e prospectivo, envolvendo 71 crianças com síndrome do intestino irritável (SII), com idades entre 4 e 16 anos, investigou a eficácia do tratamento com simbiótico (Bifidobacterium lactis B94 com inulina), probiótico (B. lactis B94) e prebiótico isolado (inulina). Os tratamentos com simbiótico e probiótico melhoraram significativamente a distensão abdominal, empachamento pós-prandial e constipação intestinal, em comparação ao grupo prebiótico. Notavelmente, um percentual significativamente maior de pacientes no grupo simbiótico se recuperou totalmente dos sintomas da SII (39,1% vs. 12,5%, p=0,036). Dessa forma, o estudo sugere que a administração de simbióticos (5 × 109 B. lactis B94 e 900 mg de inulina) duas vezes ao dia é uma opção de tratamento benéfica para crianças com SII.14

Mensagem prática para o pediatra

O manejo dos distúrbios gastrointestinais funcionais em crianças requer uma abordagem individualizada e, muitas vezes, multifacetada. A compreensão do papel da microbiota intestinal e a aplicação de intervenções que a modulam, como os simbióticos, estão se tornando cada vez mais importantes.

Embora as diretrizes ainda aguardem mais ensaios clínicos para consolidar recomendações gerais para simbióticos em DGIFs, as evidências emergentes para associações específicas, como a de Bifidobacterium lactis B94 e inulina, sugerem perspectivas promissoras para o alívio de sintomas.

Vale lembrar que é fundamental que o pediatra avalie a qualidade das evidências, a especificidade da cepa e a formulação do simbiótico ao considerar sua inclusão no plano terapêutico, sempre buscando complementar as abordagens convencionais e visando à melhoria da qualidade de vida do paciente.

 

Autoria

Foto de Larissa Pires Marquite da Silva

Larissa Pires Marquite da Silva

Graduada em Medicina pela UNIGRANRIO ⦁ Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Geral de Nova Iguaçu ⦁ Título de Especialista em Neonatologia pela Sociedade Brasileira de Pediatria ⦁ Pós-Graduação em Medicina Intensiva Pediátrica e Neonatal pela Faculdade Redentor ⦁ Atualmente é Coordenadora do Serviço de Pediatria da Santa Casa de Barra Mansa ⦁ Tem experiência em Terapia Intensiva Neonatal e Pediátrica e Pediatria.

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Referências bibliográficas

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