A doença pulmonar pelo Complexo Mycobacterium avium (MAC) é uma infecção crônica de difícil manejo, que pode ser causada por diversas espécies, exigindo regimes terapêuticos prolongados e multidrogas. O tratamento é realizado por tempo prolongado, com vários medicamentos. Um dos principais marcos de sucesso no tratamento é a conversão da cultura de escarro (passagem de resultados positivos para negativos), que é definida por pelo menos 03 culturas consecutivas negativas. No entanto, até então, não estava claro se a velocidade com que essa conversão ocorre (o tempo decorrido desde o início do tratamento) possui valor prognóstico para a cura microbiológica final. Este estudo buscou avaliar se o tempo para a conversão da cultura pode servir como um biomarcador preditivo de desfechos favoráveis.
Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo realizado no Hospital Universitário Nacional de Seul, na Coreia do Sul, incluindo 440 pacientes diagnosticados com MAC (e tratados) entre janeiro 2011 e abril de 2024.
- Critérios de inclusão: pacientes que alcançaram a conversão da cultura nos primeiros 12 meses de tratamento;
- Critérios de exclusão: pacientes que não obtiveram conversão da cultura nos primeiros 12 meses de tratamento; pacientes em regimentos fora dos estabelecidos nas diretrizes atuais e pacientes com isolados bacterianos resistentes à macrolídeos.
- Estratificação: os pacientes foram divididos em cinco grupos baseados no tempo de conversão da cultura: 0-30, 31-60, 61-90, 91-180 e 181-360 dias.
- Definição de cura: a cura microbiológica foi definida como a manutenção de culturas negativas por pelo menos 12 meses após a conversão, sob tratamento.
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Resultados
Dos 440 pacientes analisados, 66,8% (294) alcançaram a cura microbiológica. O tempo médio de conversão da cultura foi de 40 dias. Os principais achados demonstraram uma correlação inversa entre o tempo de conversão e a taxa de cura. Pacientes que converteram a cultura precocemente (nos primeiros 90 dias) apresentaram chances significativamente maiores de cura. Em comparação com o grupo de conversão ultraprecoce (0-30 dias), aqueles que levaram de 91 a 180 dias para converter tiveram uma redução de 55% na chance de cura (OR ajustado 0,45). Para o grupo que converteu entre 181-360 dias, a redução foi ainda maior, atingindo 84% (OR ajustado 0,16). A presença de cavitações radiológicas e resistência à claritromicina foram fatores independentes associados a um tempo maior para a conversão e piores desfechos. A manutenção da cultura negativa até o final do tratamento melhora a sobrevida do paciente.

Mensagem Prática: doença pulmonar por M. avium complex
A velocidade da resposta microbiológica inicial é um indicador prognóstico crítico. A ausência de conversão da cultura em até 90 dias do início do tratamento foi associada a menor probabilidade de cura microbiológica e deve ser interpretada como um sinal de alerta para maior risco de falha terapêutica ou recidiva. Esses pacientes podem necessitar de uma reavaliação mais rigorosa da adesão, avaliação de potenciais problemas farmacocinéticos (absorção, interações, variabilidade individual) ou até da consideração de terapias adjuvantes (como a amicacina lipossomal inalatória em casos selecionados).
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Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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