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Infectologia16 julho 2026

Risco de reativação de hepatite B oculta em pessoas vivendo com HIV

Pacientes com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e o vírus da hepatite B (HBV) correm um risco particular de reativação da hepatite B
Por Isabel Melo

A infecção crônica pelo vírus da hepatite B (HBV) é um problema global, com especial repercussão em pessoas vivendo com HIV (PVHIV). Reativação de infecções previamente controladas é uma possibilidade que preocupa os profissionais de saúde que assistem à essa população ao alterar esquemas de terapia antirretroviral (TARV).

Uma revisão narrativa publicada na revista AIDS avaliou, à luz da literatura, a epidemiologia de infecção por HBV e o risco de reativação com mudanças de TARV.

Risco de reativação de hepatite B oculta em pessoas vivendo com HIV

Imagem de brgfx/freepik

Epidemiologia

Na população geral, a taxa de prevalência de infecção por HBV (determinada pela presença de HBsAg) tem grande variabilidade geográfica, variando de 10 – 15% em países da África subsaariana, sudeste asiático e Europa Oriental a < 1% nos EUA e países da Europa Ocidental.

Em PVHIV, a prevalência de HBV é consistentemente mais elevada, com prevalência global de 8%. Novamente, há importantes variações regionais, podendo chegar a uma prevalência de coinfecção > 15% em países africanos.

A presença do anticorpo anti-HBc é um marcador de exposição ao HBV, podendo corresponder a infecção prévia ou atual. Entre PVHIV, a prevalência de anti-HBc é maior do que na população geral, sendo afetada tanto por fatores de risco individuais quanto pela dinâmica de circulação viral em cada país, variando de 30 a 70%.

Fisiopatogenia

Ao infectar uma célula humana, parte do DNA do HBV permanece no núcleo celular na forma de DNA circular covalentemente fechado (cccDNA), atuando como um minicromossomo com alta estabilidade e que pode persistir por décadas no hepatócito, mesmo após aparente resolução da infecção ou supressão viral com tratamento específico. Além disso, durante o ciclo de replicação, alguns nucleocapsídeos contendo DNA viral são reciclados novamente para o núcleo dos hepatócitos, mantendo um estoque contínuo de cccDNA.

Os tratamentos atuais, baseados em inibidores de transcriptase reversa viral, não têm efeito direto contra o cccDNA intra-hepático, uma vez que atuam em processos posteriores da replicação viral. Embora alguma redução no cccDNA possa ocorrer com o tempo, raramente alcança-se erradicação do reservatório dentro dos hepatócitos.

A persistência de cccDNA forma a base para o risco de infecção oculta, em que indivíduos apresentam HBsAg indetectável, níveis plasmáticos de HBV-DNA muito baixos ou indetectáveis e transaminases normais, mas com cccDNA nos hepatócitos. Nesses casos, há risco de reativação da infecção, especialmente no contexto de imunossupressão ou quimioterapia.

Leia também: Viremia de baixo nível no HIV, manejo em TARV

Marcadores sorológicos

Embora várias definições para hepatite B oculta possam ser encontradas na literatura, uma das mais precisas e clinicamente relevantes é a detecção de cccDNA no fígado de indivíduos com HBsAg negativo, representando as pessoas com risco de reativação.

Pacientes com hepatite B oculta podem apresentar dois padrões de marcadores sorológicos:

  • Soropositivos: anti-HBc e/ou anti-HBs detectável, com HBsAg negativo. É o perfil mais frequente (aproximadamente 80% dos casos).
  • Soronegativos: todos os marcadores sorológicos negativos. O único marcador de infecção viral é o HBV-DNA, que frequentemente é detectável somente intra-hepático.

Reativação de HBV

As definições de reativação da infecção pelo HBV também variam na literatura, sendo a presença de soro reversão de HBsAg ou a detecção de HBV-DNA de forma nova as mais utilizadas. Entretanto, a relevância clínica dos casos definidos somente pela detecção de níveis baixos de HBV-DNA ainda é incerta.

Independente da definição, o risco teórico de reativação após descontinuação de medicamentos ativos contra HBV (com destaque para o tenofovir devido ao seu amplo uso como parte integrante dos esquemas de TARV) é considerado baixo nos indivíduos com infecção resolvida e sem outros fatores de risco adicionais. Risco clinicamente relevante parece limitado a contextos de disfunção imune grave, como infecção pelo HIV com imunossupressão grave, transplante de células hematopoiéticas ou uso de medicamentos imunossupressores.

Em revisão não-sistemática, os dados apoiam a noção de que, em populações selecionadas e cuidadosamente monitoradas, a descontinuação de antirretrovirais com atividade contra HBV está associada a uma baixa incidência de reativação clinicamente significativa. Contudo, esse risco não é negligenciável, principalmente em cenários em que o monitoramento sistemático de HBV-DNA não está disponível.

Os casos de reativação parecem acontecer em contextos clínicos e virológicos específicos, com controle imunológico incompleto ou persistência de replicação viral que não foi reconhecida. Fatores associados com risco aumentado de reativação incluem:

  • História de anti-HBs positivo, apesar de status negativo atual;
  • Ausência de anti-HBs;
  • HIV mal controlado com baixa contagem de linfócitos T-CD4;
  • Outras formas de imunossupressão.

Para indivíduos com coinfecção HIV/HBV com supressão viral do HIV, sem imunossupressão significativa e evidências de controle imunológico efetivo, o risco absoluto de reativação do HBV clinicamente relevante é baixo.

Entenda: Hepatite B e HIV, riscos nas novas estratégias de tratamento e prevenção

Vacinação

Mesmo em indivíduos com anti-HBc positivo isolado, há indicação de vacinação contra HBV, apesar de não haver evidências de que essa prática previna reativação de infecção.

Uma abordagem possível é a administração de uma única dose em PVHIV com coinfecção com HBV antes da troca de TARV e a avaliação da resposta com anticorpos anti-HBs posteriormente. Uma resposta significativa é um indicativo de infecção resolvida com queda nos títulos de anticorpos e pode indicar menor risco de reativação.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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Referências bibliográficas

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