A azatioprina (AZA) é um imunossupressor antimetabólito das purinas que previne a rejeição de órgãos transplantados pelo organismo e é utilizada em receptores de transplante de órgãos. Sabe-se que essa imunossupressão crônica representa um dos pilares para o sucesso dos transplantes de órgãos sólidos, porém está associada a efeitos adversos, entre os quais se destaca o aumento do risco de neoplasias cutâneas.
Estudo
O trabalho em questão representa uma análise da associação entre o uso de azatioprina e o desenvolvimento de câncer de pele não melanoma em receptores de transplantes, tema de grande relevância na prática dermatológica e no seguimento dos pacientes.
Os autores conduziram uma revisão sistemática e meta-análise seguindo as recomendações do PRISMA, incluindo estudos observacionais publicados até novembro de 2025. Foram analisados dados provenientes de 27 estudos, totalizando 21405 pacientes transplantados, provenientes principalmente da Europa, América e Oceania. A metodologia empregou modelos de efeitos aleatórios, análise de subgrupos e avaliação da qualidade dos estudos pela escala Newcastle-Ottawa, com síntese de resultados robusta, embora a heterogeneidade entre os estudos tenha sido significativa.

Resultados: azatioprina e o risco de câncer de pele
Os resultados demonstraram aumento global do risco de câncer de pele não melanoma em pacientes expostos a Azatioprina, com odds ratio de 1,83 e risco relativo de 2,09. Entretanto, ao analisar separadamente os subtipos tumorais, observou-se que o aumento do risco foi estatisticamente significativo apenas para o carcinoma espinocelular (CEC), enquanto não houve associação significativa com o carcinoma basocelular (CBC). Esses achados reforçam observações clínicas já conhecidas, com maior predominância de CEC e comportamento mais agressivo do tumor, comparados a população geral.
O risco aumentado de CEC provavelmente resulta da interação entre a imunossupressão sistêmica e ao dano actínico cumulativo. A fisiopatologia baseia-se na atuação da Azatioprina como antimetabólito das purinas, promovendo imunossupressão e reduzindo a vigilância imunológica contra células neoplásicas. Além disso, metabólitos da droga podem aumentar a fotossensibilidade e potencializar danos induzidos pela radiação ultravioleta, o que está relacionado à carcinogênese cutânea.
Conclusão e mensagem prática
Os autores também alegam que análises anteriores não haviam demonstrado associação consistente entre a droga e o câncer de pele não melanoma global, devido ao menor número de estudos disponíveis. A inclusão de trabalhos mais recentes permitiu maior poder estatístico. A heterogeneidade dos dados sugere que fatores como tipo de órgão transplantado, regimes imunossupressores combinados, tempo de exposição e características demográficas podem influenciar os resultados.
Clinicamente, o estudo também reforçou a importância do acompanhamento dermatológico em pacientes transplantados que utilizam a Azatioprina, com utilização de estratégias como fotoproteção rigorosa, educação do paciente, rastreio periódico e diagnóstico precoce, que tornam-se fundamentais para reduzir morbidade e mortalidade nesse grupo de pacientes.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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