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Infectologia10 junho 2026

Hepatite B e HIV: riscos nas novas estratégias de tratamento e prevenção

Artigo avaliou evidências em diferentes cenários, estratificados de acordo com o perfil sorológico basal da infeção pelo vírus da hepatite B
Por Camila Rangel

A crescente adoção de esquemas antirretrovirais (ART) e de Profilaxia Pré-exposição (PrEP) poupadores de tenofovir representa um avanço significativo no manejo do HIV, oferecendo maior comodidade e adesão do paciente. Regimes injetáveis de longa duração, como cabotegravir/rilpivirina e combinações orais como dolutegravir/lamivudina, eliminam a necessidade de doses múltiplas diárias. No entanto, essa transição carrega um risco subestimado: a perda da proteção contra o vírus da hepatite B (HBV), seja por uma nova infecção ou pela reativação de uma infecção prévia.

Hepatite B e HIV: riscos nas novas estratégias de tratamento e prevenção

Esquemas poupadores de tenofovir no HIV: por que avaliar o HBV?

Este artigo de Viewpoints, publicado na Clinical Infectious Diseases, sintetiza evidências disponíveis em diferentes cenários clínicos, estratificados de acordo com o perfil sorológico basal do HBV (usando os marcadores HBsAg, anti-HBc e anti-HBs). Os autores revisaram dados de coortes, séries de casos e diretrizes vigentes para propor um fluxo de trabalho prático na transição para esquemas poupadores de tenofovir, tanto para pessoas vivendo com HIV (PVHIV) em uso de ART quanto para candidatos à PrEP.

Risco de infecção ou reativação do HBV conforme perfil sorológico

O risco é estimado e varia conforme o perfil sorológico. Entre PVHIV sem marcadores de contato prévio com HBV (HBsAg, anti-HBc, anti-HBs negativos), a perda da proteção parcial conferida pelo tenofovir aumenta a vulnerabilidade à infecção. Nesse grupo, até 44% das PVIHIV ainda são suscetíveis ao HBV. Para aqueles com anti-HBc positivo e HBsAg negativo (que denota contato prévio com o vírus), o risco de reativação existe, embora provavelmente baixo (um estudo do Veterans Administration encontrou reativação em 1,6% dos casos, com risco de até 20,7% naqueles com histórico prévio de HBsAg positivo).

Nos pacientes HBsAg positivo, a descontinuação do tenofovir sem cobertura anti-HBV adequada representa o cenário de maior gravidade, com risco real de hepatite clínica e descompensação hepática. Nos casos de co-infecção HIV/HBV o esquema ART deve conter tenofovir. Estudos de caso relataram inclusive insuficiência hepática aguda após a troca.

No contexto da PrEP, dados do ensaio iPrEX mostraram reativação do HBV DNA em 3 de 6 participantes HBsAg positivos após suspensão do tenofovir/emtricitabina. A taxa de rastreio do HBV antes do início da PrEP ou do ART permanece em apenas 30%, evidenciando uma lacuna assistencial importante.

Saiba mais: Bepirovirsen na hepatite B crônica: Um passo rumo à cura funcional?

Mensagem prática: como reduzir o risco de hepatite B na troca de esquema

A decisão de migrar para esquemas poupadores de tenofovir não deve ser orientada exclusivamente pela eficácia anti-HIV ou pela conveniência do paciente.

A avaliação sorológica completa do HBV é mandatória antes da realização de qualquer troca de esquema. Pacientes HBsAg positivos que precisem de esquema sem tenofovir devem receber tenofovir ou entecavir como cobertura específica para o HBV. O monitoramento de provas hepáticas e da carga viral do HBV no período pós-troca é essencial, especialmente nos primeiros 6 a 12 meses. Além disso, a vacinação contra Hepatite B deve ser recomendada nos pacientes não imunizados e naqueles com valor de anti-Hbs menor que 10 mIU/mL.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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