A infecção associada ao cateter venoso central (CLABSI) é uma das complicações hospitalares mais graves e potencialmente evitáveis. Em 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou suas diretrizes sobre prevenção de infecções de corrente sanguínea associadas ao uso de cateteres intravasculares, voltada exclusivamente aos cateteres venosos centrais (CVCs). O documento reúne 25 recomendações formais e 16 declarações de boas práticas, desenvolvidas por um grupo de 22 especialistas internacionais com base em revisão sistemática da evidência científica e no arcabouço GRADE.

Por que o CLABSI ainda representa um problema global de saúde?
A diferença nas taxas de CLABSI entre países é expressiva. Nas UTIs norte-americanas, a incidência estimada é de 0,8 por mil dias de cateter; em países de baixa e média renda, uma revisão de estudos de 50 países identificou taxas de até 44,6 por mil dias de cateter. Cada episódio pode custar até 46 mil dólares em sistemas de alta renda, com impacto direto em mortalidade, tempo de internação e resistência antimicrobiana. Durante a pandemia de COVID-19, o Brasil foi um dos países que documentou aumento nas taxas de CLABSI em UTIs, tornando o tema particularmente relevante para o contexto nacional.
A diretriz abrange CVCs não tunelizados, tunelizados e dispositivos totalmente implantáveis (Port-a-Cath) em adultos, adolescentes, crianças e neonatos, excluindo cateteres de hemodiálise, que serão objeto de uma futura parte 3.
Evidências que embasaram as recomendações da OMS sobre prevenção de ICSRC
O grupo de desenvolvimento formulou perguntas no formato PICO e organizou as recomendações em oito domínios: educação e higiene das mãos, pré-inserção, inserção, manutenção, acesso, substituição e remoção, seleção de sítio e cateter, e medidas adicionais, incluindo bundles e vigilância. Todas as 25 recomendações têm caráter condicional pelo GRADE, o que reflete incerteza na magnitude dos benefícios, mas não isenta o profissional de implementá-las.
Técnica asséptica máxima: etapa decisiva na inserção do CVC
A OMS estabelece como boa prática o uso de kits padronizados de inserção e técnica estéril com precauções máximas de barreira: touca, máscara, avental estéril, luvas estéreis de uso único e campo de corpo inteiro. A higiene das mãos deve seguir os “Cinco Momentos” da OMS em todos os contatos com o cateter, com preferência pela fricção alcoólica. O banho diário com solução de clorexidina é sugerido como medida pré-inserção em pacientes críticos adultos, adolescentes e crianças.
Clorexidina alcoólica supera iodo e álcool isolado na antissepsia cutânea
Para antissepsia da pele antes da inserção do CVC, recomenda-se formulação à base de álcool em detrimento a soluções aquosas, com preferência por clorexidina alcoólica a 1% ou 2% em relação ao uso de iodo-álcool ou álcool isolado, em adultos, adolescentes e crianças. Após inserção, tanto curativo transparente semipermeável quanto gaze são aceitos. O uso de curativo impregnado com antisséptico, como esponja com gluconato de clorexidina, no sítio de inserção também é sugerido em adultos e adolescentes. A diretriz recomenda não usar antibióticos profiláticos no momento da inserção.
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Manutenção do CVC requer protocolo estruturado de curativos e flush
A OMS sugere protocolo formal de troca de curativo com intervalos de 3 dias ou mais. A manutenção do cateter pode ser realizada por meio de infusão contínua ou intermitente. Para o flush sem infusão contínua, a solução salina estéril é preferida à solução heparinizada em todos os grupos etários. A diretriz sugere não utilizar soluções com antimicrobianos em pacientes com cateteres de curta permanência com o objetivo de evitar CLABSI O CVC deve ser removido assim que deixar de ter indicação clínica, e a substituição rotineira sem motivação clínica é expressamente contraindicada.
Com que frequência trocar o equipo de administração endovenosa?
Quando utilizado apenas para fluidos de rotina, o equipo deve ser trocado a cada 7 dias. Após administração de nutrição parenteral total ou lipídios, a troca deve ocorrer após cada infusão. O flush com solução compatível após qualquer administração de produto é considerado boa prática em todos os grupos etários.
A veia subclávia é o sítio preferencial na ausência de contraindicações
Recomenda-se evitar a veia femoral, com preferência pelas veias subclávia ou jugular. Sem contraindicações, a subclávia é o sítio de primeira escolha. Para cateteres de longa duração, o dispositivo de lúmen único é preferido sobre os de múltiplos lúmens, salvo necessidade clínica específica. A organização sugere cateteres de Hickman ou Port-a-Cath para pacientes em todas as faixas etárias que necessitem de cateteres de longa permanência. CVCs impregnados com antibiótico ou com antisséptico são alternativas aceitáveis em relação aos não impregnados.
Se implementados em conjunto, bundles e vigilância reduzem a CLABSI
A OMS sugere o uso de bundles de cuidado com CVC como intervenção complementar às demais medidas. A vigilância de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), incluindo CLABSI, deve ser contínua, com retroalimentação oportuna dos dados aos profissionais e gestores, inclusive por redes nacionais. A escassez de sistemas estruturados de notificação em países de renda média e baixa é reconhecida como lacuna relevante, sendo a criação de redes nacionais com capacidade de benchmarking explicitamente recomendada como boa prática.
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Diretriz da OMS e o cotidiano do médico brasileiro com CVC
Para o médico que atua em UTI, enfermaria cirúrgica ou oncologia, a diretriz oferece um guia operacional baseado em evidências para decisões do dia a dia: escolha do sítio de inserção, tipo de antisséptico, intervalo de troca de curativo, manejo do flush e momento de remoção do cateter. No contexto brasileiro, onde as taxas de sepse nosocomial permanecem elevadas e os sistemas de vigilância são heterogêneos, a adoção coordenada dessas recomendações dentro de um modelo multimodal que combine educação, monitoramento e cultura de segurança tem potencial direto de reduzir morbimortalidade, custos hospitalares e pressão seletiva para resistência antimicrobiana.
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Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Isabel Cristina Melo Mendes
Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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