A síndrome pós-covid-19 ou “covid longa” ocorre quando os efeitos da infecção por SARS-CoV-2 persistem por semanas ou meses após a fase aguda da doença, e afeta milhares de pessoas. Os sintomas mais comuns incluem fadiga, mal-estar pós-esforço, palpitações cardíacas, falta de ar e confusão mental. O uso do antiviral Nirmatrelvir–Ritonavir (NMV-r) consolidou-se como uma intervenção eficaz para reduzir hospitalizações e óbitos na fase aguda da covid-19 em pacientes de alto risco. Contudo, a eficácia do fármaco em prevenir a síndrome pós-covid-19 — definida como a persistência de sintomas ou novas condições clínicas após a fase aguda — permanecia incerta, especialmente em diferentes faixas etárias. Este estudo avaliou a relação entre o uso do Nirmatrelvir-ritonavir e a incidência de complicações pós-covid em adolescentes e adultos.
Metodologia
Coorte retrospectiva realizada utilizando-se dados de uma base multi-institucional dos EUA, que pareou 291.433 pacientes tratados com NMV-r com 582.866 controles (proporção 1:2) via Propensity Score Matching.
- Critérios de Inclusão: diagnóstico confirmado, elegibilidade para antiviral e idade ≥ 12 anos.
- Desfecho Primário: incidência de qualquer uma das 45 condições clínicas associadas à covid longa.
- Ajustes: Foram considerados status vacinal, comorbidades (índice de Charlson), tabagismo e utilização prévia de serviços de saúde.
Resultados
O estudo demonstrou que o benefício do NMV-r na prevenção da covid longa é altamente dependente da idade:
- Idosos (≥ 65 anos): Apresentaram a maior redução de risco, com um Hazard Ratio (HR) ajustado de 0,88 [IC 95%, 0,87–0,90], indicando uma proteção significativa contra sequelas persistentes.
- Adultos (50–64 anos): Também apresentaram benefício protetor, com HR ajustado de 0,93 [IC 95%, 0,92–0,95].
- Adultos Jovens (18–49 anos): A redução de risco foi marginal, com HR ajustado de 0,98 [IC 95%, 0,96–1,00].
- Adolescentes (12–17 anos): Não foi observada associação estatisticamente significativa entre o tratamento e a redução de condições pós-covid (HR 1,06 [IC 95%, 0,66–1,73]).
O estudo apontou limitações relevantes, incluindo a impossibilidade de aferir a adesão estrita ao regime terapêutico, possíveis vieses de classificação inerentes aos registros eletrônicos de saúde, a influência de fatores de confusão não mensurados e o uso de outros antivirais que não o NMV-r.

Mensagem prática: nirmatrelvir–ritonavir no risco de covid longa
Os achados sugerem que o tratamento precoce da covid-19 em idosos de alto risco oferece o benefício adicional de reduzir a incidência de complicações a longo prazo. Para adolescentes entre 12 e 17 anos, contudo, esse benefício preventivo não foi demonstrado. Na prática clínica, a prescrição de NMV-r para pacientes com quadros leves a moderados e alto risco de progressão — particularmente aqueles acima de 50 anos — deve ser considerada não apenas para evitar hospitalização e óbito, mas como uma estratégia potencial para mitigar as consequências da doença a longo prazo.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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