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Pediatria12 janeiro 2026

Recomendações da AAP para a prevenção e o controle da gripe em crianças (2025/26)

Academia Americana de Pediatria (AAP) atualizou suas recomendações para prevenção e tratamento da gripe em crianças

Diante de uma queda na cobertura vacinal contra a doença na temporada 2024-2025, o Comitê de Doenças Infecciosas da Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics – AAP) publicou, recentemente, uma declaração atualizando suas recomendações para o uso de vacinas e medicamentos antivirais na prevenção e no tratamento da gripe em crianças durante a temporada de 2025–2026. Nessa primeira parte, sintetizamos as recomendações referentes à prevenção.   

Grupos pediátricos de risco para complicações relacionadas à gripe 

Características demográficas: 

  • Crianças menores de cinco anos, especialmente menores de dois anos, independentemente da presença de comorbidades subjacentes; 
  • Crianças nascidas prematuras ou no início do termo, pois apresentam maior risco de hospitalização por gripe nos primeiros cinco anos de vida; 
  • Residentes de uma unidade de cuidados crônicos.

Comorbidades subjacentes (a lista de exemplos não é exaustiva): 

Condições neurológicas e do neurodesenvolvimento 
  • Acidente vascular encefálico 
  • Atraso no desenvolvimento moderado a grave 
  • Deficiência intelectual 
  • Distúrbios neuromusculares, incluindo distrofia muscular 
  • Epilepsia 
  • Lesão medular 
  • Paralisia cerebral 

Doença cardiovascular 

  • Condições hemodinamicamente significativas (excluindo hipertensão isoladamente) 

Doenças hematológicas 

  • Doença falciforme e outras hemoglobinopatias 

Doença hepática 

  • Cirrose 
  • Doença hepática crônica 

Doenças metabólicas 

  • Diabetes mellitus 

Doença pulmonar crônica 

  • Asma 
  • Displasia broncopulmonar 
  • Fibrose cística 
  • Função respiratória comprometida (por exemplo, necessidade de ventilação mecânica, traqueostomia) 

Doença renal 

  • Doença renal crônica, incluindo doença renal em estágio terminal 
  • Pacientes dialíticos 

Gestação e até 2 semanas após o parto 

Imunossupressão 

  • Asplenia 
  • Imunodeficiência congênita ou adquirida, incluindo HIV 
  • Transplante de células hematopoiéticas ou de órgão sólido 
  • Uso de medicamentos imunossupressores 

Obesidade extrema  

  • Índice de massa corporal (IMC) ≥ percentil 95 em crianças e ≥ em adultos 
  • O IMC associado ao aumento do risco não está bem definido em crianças, mas pode-se considerar o IMC ≥ percentil 95 para crianças e adolescentes da mesma idade e sexo 

Pacientes que estejam recebendo tratamento com aspirina ou terapias contendo salicilato – Aplica-se a crianças e adolescentes com menos de 19 anos que possam apresentar risco aumentado de síndrome de Reye. 

Recomendações da AAP para a prevenção e o controle da gripe em crianças (2025/26)

Atualizações para a temporada de gripe 2025-2026 

  1. Todas as vacinas licenciadas disponíveis nos Estados Unidos são trivalentes (vacinas quadrivalentes ainda estão disponíveis fora dos Estados Unidos); 
  2. A composição das vacinas foi atualizada;  
  3. As recomendações para o tratamento e a profilaxia foram simplificadas; 
  4. A vacina com vírus vivo atenuado (live attenuated influenza vaccine – LAIV) está disponível para administração domiciliar por um cuidador para crianças elegíveis com idade maior ou igual a dois anos; 
  5. A vacina com hemaglutinina (HA) recombinante expressa em baculovírus (RIV3) agora está licenciada para crianças e adolescentes a partir de nove anos. 

Composição da vacina trivalente  

Influenza A 

  • H1N1:  
    • Vírus semelhante ao A/Victoria/4897/2022 (H1N1)pdm09 (baseado em ovo) – sem alterações nesta temporada; 
    • Vírus semelhante a A/Wisconsin/67/2022 (H1N1)pdm09 (baseado em cultura de células ou recombinante) – sem alterações nesta temporada. 
  • H3N2: 
    • Vírus semelhante ao A/Croácia/10136RV/2023 (H3N2) (baseado em ovos) – novidade desta temporada; 
    • Vírus semelhante ao A/Distrito de Columbia/27/2023 (H3N2) (baseado em cultura de células ou recombinante) – novidade desta temporada. 

Influenza B 

  • Victoria: Vírus semelhante a B/Áustria/1359417/2021 (linhagem B/Victoria) – sem alterações nesta temporada.

Recomendações da AAP para a vacinação contra a gripe durante a temporada 2025-2026 

  1. Para todas as crianças e adolescentes com seis meses de idade ou mais; 
  2. A recomendação se refere a qualquer vacina licenciada e apropriada para a idade e o estado de saúde, não privilegiando um produto em detrimento de outro, incluindo a vacina inativada não-viva (inactivated [non-live] influenza vaccine) IIV, a LAIV e a RIV (a RIV [recombinant influenza vaccine] agora é uma opção para crianças e adolescentes com idade igual ou superior a nove anos); 
  3. A LAIV não deve ser usada em pacientes imunocomprometidos e naqueles com certas condições médicas crônicas; 
  4. O número de doses recomendadas para crianças permanece inalterado e depende da idade da criança na primeira dose e do histórico de vacinação contra a gripe. Doses administradas até quatro dias antes do intervalo mínimo sugerido são aceitáveis; 
  5. As doses não precisam ser da mesma marca ou formulação quando se recomenda que uma criança receba duas doses de vacina em uma determinada temporada. Dessa forma, uma criança pode receber uma combinação de vacinas IIV, RIV e LAIV, se apropriado para sua idade e condição de saúde; 
  6. A vacina deve ser administrada assim que estiver disponível, especialmente para as crianças que precisam de duas doses. No caso dos Estados Unidos, o ideal é que a(s) dose(s) recomendada(s) tenha(m) sido administrada(s) até o final de outubro para otimizar a proteção antes da temporada; 
  7. Para crianças e adolescentes com neoplasias malignas submetidas à quimioterapia (QT), a vacina IIV ou RIV deve ser administrada em duas ou mais semanas antes da QT citotóxica, quando clinicamente possível; 
  8. No caso de pacientes pediátricos que iniciarão terapias anticélulas B, como alemtuzumabe e rituximabe, a vacina IIV ou a RIV deve ser administrada, idealmente, pelo menos duas a quatro semanas antes do início desse tratamento. Para os pacientes que já receberam terapias anti-células B, a IIV deve ser adiada por seis meses após a última dose e, idealmente, somente após a comprovação da recuperação das células B; 
  9. A administração de vacinas não vivas deve ser considerada somente em seis ou mais meses após a infusão de células T com receptor de antígeno quimérico (CAR) direcionadas ao CD19 em pacientes em remissão e que não necessitam de QT adicional ou transplante de células hematopoiéticas; 
  10. A vacina IIV ou RIV pode ser administrada a partir de quatro a seis meses após o transplante para receptores de transplante de células hematopoiéticas (TCTH); 
  11. Em pacientes pediátricos submetidos a TCTH com idade entre três e 17 anos, a administração de duas doses da vacina trivalente inativada (não viva) contra a gripe em altas doses (IIV3), com intervalo de 28 a 42 dias, pode ser considerada, embora a vacina inativada contra a gripe em altas doses não seja aprovada para uso em crianças; 
  12. Para receptores de transplante de órgãos sólidos (TOS), a vacina IIV ou a RIV podem ser administradas a partir de três meses após o recebimento do TOS, embora possa ser considerada a administração um mês ou mais após o TOS; 
  13. Os familiares de pacientes imunocomprometidos devem ser vacinados anualmente; 
  14. Pediatras que atendem mulheres grávidas devem recomendar a vacinação, enfatizando os benefícios para gestantes e seus bebês; 
  15. Gestantes podem receber a vacina IIV ou RIV a qualquer momento durante a gestação. As mulheres que não receberem a vacina durante a gravidez devem recebê-la antes da alta hospitalar. Quem recusar a vacina durante a internação deve ser incentivado a conversar sobre o assunto com seu obstetra, médico de família, enfermeira obstétrica ou outro profissional de saúde de confiança; 
  16. A vacinação em lactantes oferece proteção tanto para a mãe quanto para o lactente, sendo recomendada e segura; 
  17. Indivíduos que viajam para os trópicos, em navios de cruzeiro ou para o hemisfério sul entre abril e setembro, devem considerar a vacinação pelo menos duas semanas antes da partida, caso não tenham sido vacinados no outono ou inverno anterior e se a vacina estiver disponível; 
  18. Por ser uma estratégia crucial para reduzir as infecções associadas à assistência à saúde, a AAP apoia a vacinação para profissionais de saúde como condição de emprego; 
  19. Salvo contraindicações, a AAP destaca que devem ser feitos esforços para promover a vacinação em todas as crianças, especialmente nas menores de 5 anos e naquelas pertencentes a grupos de alto risco e seus contatos, ​​utilizando estratégias baseadas em evidências. É importante incluir membros da comunidade no desenvolvimento de estratégias culturalmente relevantes para promover a vacinação em comunidades afetadas por disparidades em saúde; 
  20. A AAP disponibiliza um site contendo estratégias para comunicar as famílias sobre vacinas e promover a confiança nos imunizantes: https://www.aap.org/vaccinecommunication  
  21. A AAP descreve que “aumentar o acesso e reduzir as barreiras à vacinação em escolas, farmácias, hospitais e outros locais não tradicionais pode melhorar as taxas de vacinação”. No entanto, “a vacinação em domicílio é a opção preferencial para crianças pequenas, a fim de facilitar outros serviços necessários, incluindo cuidados de saúde, exames preventivos, orientações antecipatórias e outras vacinas importantes da infância”. No caso de pacientes e famílias para os quais a falta de recursos representaria um obstáculo para receber a vacina em domicílio, a administração domiciliar da LAIV é uma alternativa para alguns indivíduos elegíveis de 2 a 49 anos de idade; 
  22. Quando o paciente é vacinado em um ambiente não tradicional, a documentação apropriada deve ser fornecida a ele e ao médico responsável e enviada aos sistemas de informação de imunização regionais ou estaduais; 
  23. Clínicas que atendem crianças e adolescentes podem considerar oferecer a vacina a familiares e pessoas próximas; 

Considerando as políticas de saúde específicas dos Estados Unidos: 

  1. Para eliminar as disparidades no fornecimento da vacina contra a gripe entre pacientes com seguro privado e aqueles elegíveis para vacinação por meio do programa americano “Vacinas para Crianças”, deve haver participação de todos os que trabalham nos esforços de imunização; 
  2. Crianças elegíveis e suas famílias devem receber informações sobre a vacina e clínicas de vacinação em seu idioma preferido, especialmente aquelas que possam enfrentar barreiras ao atendimento preventivo;  
  3. Os planos de saúde públicos e privados devem oferecer pagamento adequado para o fornecimento e administração da vacina para a população pediátrica, atualizar os pagamentos de modo que os médicos e outros profissionais de saúde sejam pagos pela administração das doses em julho e agosto e eliminar as barreiras de custo restantes de “responsabilidade do paciente”, onde ainda existirem.

Saiba mais: Novos casos do subclado K da gripe no Brasil

Vacinação contra a gripe: contraindicações e precauções 

  1. Ao selecionar o tipo de vacina a ser administrada, devem ser consideradas as contraindicações específicas do produto; 
  2. Um histórico de reação alérgica grave, como anafilaxia, a qualquer vacina contra influenza costuma ser uma contraindicação para novas doses. No entanto, crianças com história de reação alérgica grave após a vacinação contra a gripe devem ser avaliadas por um alergista para identificar o componente responsável pela reação e determinar se essa criança poderá receber novas doses.  
    • Crianças alérgicas à gelatina (muito raro): devem receber a IIV ou a RIV, se apropriada para a idade, ao invés da LAIV, pois existem relatos de sobreposição entre alergia à gelatina e alergia ao alfa-gal. 
  3. Crianças alérgicas a ovo: podem receber qualquer vacina contra gripe sem quaisquer precauções adicionais além daquelas recomendadas para todas as vacinas; 
  4. Crianças com doenças leves, incluindo febre baixa, também devem ser vacinadas. No entanto, crianças com doença aguda moderada ou grave podem receber a vacina somente quando sua doença aguda tiver melhorado e assim que houver melhora. Estratégias para promover a vacinação oportuna após a recuperação da doença devem ser empregadas, como o agendamento de consulta de retorno, envio de mensagens para lembrete e administração da vacina antes da alta hospitalar, em caso de internação.

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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