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Infectologia25 abril 2026

Esporotricose: uma micose negligenciada com impacto mundial

A esporotricose é uma infecção fúngica dimórfica de crescente relevância global, enqaunto dados em larga escala ainda são limitados
Por Camila Rangel

A esporotricose, causada pelo complexo Sporothrix, é uma micose negligenciada de distribuição mundial, com maior prevalência em regiões tropicais e subtropicais. Embora classicamente associada à inoculação traumática em solo ou vegetação, a emergência da transmissão zoonótica (especialmente por felinos) e a possibilidade de disseminação em hospedeiros vulneráveis elevaram sua relevância clínica. O artigo analisa a esporotricose como uma patologia de importância crescente, destacando que, além das formas cutânea e linfocutânea, pacientes imunossuprimidos — como pessoas vivendo com HIV (PVHIV), transplantados e diabéticos — apresentam risco elevado de complicações e mortalidade.

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Metodologia: Análise Global via Rede TriNetX (1995-2024)

Este estudo de coorte global, retrospectivo, utilizou a rede TriNetX, acessando dados de mais de 250 milhões de pacientes em diversas organizações de saúde ao redor do mundo. Foram incluídos adultos diagnosticados com esporotricose (via CID-9/10) entre 1995 e 2024. A análise avaliou o perfil demográfico, comorbidades, marcadores laboratoriais, esquemas terapêuticos e o desfecho primário de mortalidade por todas as causas em um ano. Subgrupos específicos, como PVHIV e pacientes com formas graves, foram comparados para identificar fatores de risco.

Resultados e fatores de risco: perfil epidemiológico e taxas de mortalidade

A coorte compreendeu 2.124 adultos (média de 52 anos), com ligeira predominância feminina. Aproximadamente metade dos casos ocorreu fora dos Estados Unidos. Entre as comorbidades prevalentes, destacaram-se neoplasias, diabetes e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). Embora as formas linfocutâneas tenham sido majoritárias, as apresentações disseminadas e osteoarticulares, embora raras, foram associadas a piores prognósticos. O Itraconazol foi o antifúngico mais prescrito, alinhado às diretrizes da IDSA (Sociedade Americana de Doenças Infecciosas).

A mortalidade em um ano foi alta (17%), associando-se a idades avançadas, neoplasias e formas sistêmicas da doença. Um achado laboratorial de destaque foi a associação da hiperferritinemia com o óbito. No subgrupo de PVHIV (n=17), observou-se maior incidência de formas pulmonares e disseminadas, correlacionadas a níveis críticos de CD4 (média de 65 células/mm³). Não houve diferença na mortalidade em relação aos PVHIV e os que não vivem com HIV.

Os resultados foram influenciados pelo status imune do hospedeiro, a resposta inflamatória e o início rápido do tratamento adequado.

Esporotricose: uma micose negligenciada com impacto mundial

Manejo clínico e estratégias para redução da mortalidade

O estudo desconstrói a visão da esporotricose como uma micose estritamente cutânea e benigna. Na prática clínica, a suspeição de formas extracutâneas deve ser imediata em pacientes com fatores de risco, como neoplasias, imunossupressão ou na presença de sinais inflamatórios sistêmicos.

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Dois pontos são fundamentais para o manejo da Esporotricose

Estratificação de risco: a hiperferritinemia pode sinalizar uma resposta inflamatória exacerbada (síndrome de ativação macrofágica), tendo sido correlacionada a desfechos clínicos desfavoráveis. Esse achado sugere que a incorporação de marcadores inflamatórios à rotina diagnóstica pode permitir um manejo mais assertivo e a otimização dos resultados terapêuticos;

Tratamento direcionado: o Itraconazol permanece como primeira escolha para casos cutâneos, reservando-se a Anfotericina B para formas graves ou disseminadas. A confirmação diagnóstica precoce e a vigilância do status imune são as estratégias mais eficazes para reduzir a taxa de mortalidade observada.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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