A sepse continua sendo prioridade de melhoria no atendimento hospitalar, e o novo documento da Infectious Diseases Society of America (IDSA) reuniu um painel multidisciplinar de especialistas, envolvendo múltiplas sociedades, para elaborar esse documento baseado em consenso que amplia o foco para toda a trajetória assistencial. O racional é clínico e organizacional: um foco infeccioso persistente pode sustentar desregulação imune, disfunção orgânica e falha terapêutica, enquanto atrasos diagnósticos ou terapêuticos e uso antimicrobiano inadequado podem comprometer o cuidado. O documento complementa diretrizes clínicas e métricas existentes com recomendações hospitalares voltadas aos aspectos infecciosos da sepse.
As recomendações foram construídas por processo Delphi modificado, discussões estruturadas e revisão direcionada de diretrizes e estudos. Não houve revisão sistemática formal. As propostas foram avaliadas quanto a impacto, viabilidade, custos, consequências não intencionais e prioridade. O resultado foi organizado em Tier 1, de alta prioridade, Tier 2, de prioridade moderada, e estratégias emergentes ainda sem suporte para adoção rotineira.
A antibioticoterapia na sepse prioriza o choque séptico
As recomendações de maior prioridade concentram-se em reduzir atrasos evitáveis. Para pacientes com choque séptico, recomenda-se organizar fluxos e monitorar o intervalo entre o reconhecimento do choque e a primeira dose de antibiótico, com meta inferior a uma hora. Também se recomenda acompanhar o tempo entre a prescrição e o início da infusão, usando como referência operacional menos de trinta minutos. Ambos os pontos são Tier 1.
O painel também classifica como Tier 1 a infusão prolongada de betalactâmicos com atividade contra P. aeruginosa em pacientes críticos com sepse, após dose de ataque, e a priorização do betalactâmico antes da Vancomicina quando ambos forem prescritos empiricamente. Fluxos para evitar atraso da segunda dose, protocolos para pacientes com relato de alergia a betalactâmicos e ferramentas eletrônicas para estimar risco de microrganismos multirresistentes são Tier 2. Metas rígidas de tempo têm sustentação mais consistente no choque séptico do que na sepse sem choque.
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Como o diagnóstico rápido direciona o tratamento?
Recomenda-se implementar testes multiplex de amplificação de ácidos nucleicos em hemoculturas positivas, sempre associados à atuação ativa do stewardship antimicrobiano. A estratégia é Tier 1 porque a informação microbiológica mais rápida precisa ser convertida em ajuste terapêutico, escalonamento, descalonamento e seguimento adequado.
Como Tier 2, considera-se suporte à decisão clínica para melhorar a indicação de hemoculturas iniciais e de controle. O painel não recomenda adoção rotineira de ferramentas automatizadas de previsão de sepse, testes baseados na resposta imune do hospedeiro, diagnósticos moleculares diretamente do sangue, painéis multiplex para amostras respiratórias inferiores ou duração de antibióticos guiada por procalcitonina. Essas abordagens permanecem emergentes porque evidência, viabilidade, generalização ou experiência de implementação ainda são insuficientes para uso amplo.
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Integre stewardship antimicrobiano à governança hospitalar
O documento amplia o manejo da sepse para além da prescrição inicial. Recomenda-se monitorar terapia empírica inadequada e terapia desnecessariamente ampla, medir descalonamento de cobertura anti-MRSA e cobertura contra P. aeruginosa e acompanhar o tempo até o controle definitivo do foco, incluindo transferências quando o procedimento não estiver disponível. Essas medidas são Tier 2 e devem orientar ciclos locais de melhoria.
Considera-se estabelecer governança multidisciplinar com infectologia, stewardship antimicrobiano, microbiologia clínica e prevenção de infecções, integrar stewardship às visitas de UTI e apoiar princípios farmacocinéticos e farmacodinâmicos para ajuste de antimicrobianos em pacientes críticos. Protocolos para corticosteroides em pneumonia comunitária grave selecionada e choque séptico refratário também são Tier 2.
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Se houver infecção hospitalar, reforce a prevenção
O painel recomenda alta adesão às práticas consolidadas de prevenção de infecções relacionadas à assistência e acrescenta, como Tier 2, banho universal com clorexidina associado à descolonização nasal universal ou direcionada para MRSA em pacientes de UTI e em pacientes fora da UTI com dispositivos invasivos, além de programas estruturados de higiene bucal diária.
As limitações são relevantes. O documento foi desenvolvido principalmente para o sistema de saúde dos Estados Unidos, e a implementação depende de recursos, infraestrutura, fluxos e capacidade de monitoramento locais. Parte das recomendações se apoia em consenso, estudos observacionais ou evidência heterogênea, e a revisão não foi sistemática. Tecnologias emergentes devem permanecer em protocolos de avaliação ou projetos-piloto, e as recomendações precisam ser revistas conforme novas evidências.
Para o médico de enfermaria, emergência ou terapia intensiva, a mensagem é que o manejo da sepse não termina na primeira dose de antibiótico. Reconhecer o choque séptico, garantir administração adequada, revisar o espectro, favorecer diagnóstico microbiológico útil, buscar controle de foco e acionar stewardship antimicrobiano e prevenção de infecção hospitalar fazem parte do mesmo processo. No contexto brasileiro, a aplicação deve respeitar recursos e fluxos locais, priorizando intervenções de maior prioridade e implementação factível.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Raissa Moraes
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência e mestrado em Infectologia pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Atua na área de doenças infecciosas e controle de infecções.
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