A atualização de 2026 da Surviving Sepsis Campaign (SSC) mantém os pilares clássicos do manejo da sepse como reconhecimento precoce, antibiótico oportuno, ressuscitação inicial, controle de foco e suporte de órgãos , mas traz uma diretriz mais refinada, menos centrada em “pacotes cegos” e mais orientada por probabilidade diagnóstica, risco microbiológico, contexto clínico e disponibilidade de recursos. Ao todo, o documento reúne 129 enunciados, distribuídos em 18 recomendações fortes, 80 recomendações condicionais, 19 declarações de boa prática e 12 tópicos com evidência insuficiente, mostrando de forma explícita que grande parte das decisões em sepse ainda precisa ser contextualizada à beira-leito. A própria distribuição da certeza da evidência reforça essa mensagem: apenas uma minoria das recomendações é sustentada por evidência de alta ou moderada qualidade, enquanto boa parte repousa sobre evidência baixa ou muito baixa.
A metodologia da diretriz foi baseada no sistema GRADE, que classifica a certeza da evidência em alta, moderada, baixa ou muito baixa e diferencia recomendações fortes das condicionais. Em termos práticos, uma recomendação forte significa que a maioria dos pacientes naquela situação deve receber aquela intervenção; já uma recomendação condicional reconhece maior incerteza e maior influência de valores do paciente, cenário assistencial, custos, viabilidade local e julgamento clínico. Além disso, a SSC 2026 utiliza declarações de boa prática para situações em que a conduta é considerada clinicamente necessária e evidente, mesmo sem uma síntese formal de evidência.
Outro avanço importante da nova diretriz foi adotar uma linguagem clínica mais útil para o dia a dia. A SSC 2026 reforça que sepse é uma disfunção orgânica aguda potencialmente fatal decorrente de infecção, enquanto choque séptico representa o subgrupo com disfunção circulatória associada a maior risco de mortalidade. Mais do que isso, o documento propõe classificar os pacientes como portadores de sepse definida, provável, possível ou improvável. Sepse definida é aquela em que a infecção está confirmada pela história, exame clínico e investigação complementar, com diagnóstico alternativo muito improvável. Sepse provável é a situação em que a infecção é a hipótese mais forte. Sepse possível corresponde a suspeita intermediária, na qual infecção e diagnóstico alternativo permanecem plausíveis. Já sepse improvável é aquela em que a avaliação global não favorece sepse como principal explicação clínica.
O que mudou em relação à SSC 2021
| Tema | SSC 2021 | SSC 2026 | Força / evidência 2026 |
| Triagem pré-hospitalar | Não era um eixo central da diretriz. | Passa a sugerir triagem padronizada ainda na ambulância ou transporte aéreo. | Condicional; muito baixa |
| Hemoculturas | Prática valorizada, mas sem tanto destaque operacional. | Reforço explícito para coletar o mais cedo possível e idealmente antes do antibiótico. | Forte; baixa |
| Vasopressor inicial | Ênfase maior no pacote de fluidos e posterior escalonamento. | Define fluidos iniciais seguidos de vasopressor se hipotensão persistir, com ressalva para choque instável. | Condicional; muito baixa |
| Meta de PAM em idosos | Alvo geral de PAM >= 65 mmHg. | Mantém 65 mmHg para a maioria, mas sugere 60-65 mmHg em pacientes >= 65 anos. | Condicional; baixa |
| Antibiótico pré-hospitalar | Não era uma recomendação prática estruturada. | Sugere antibiótico no transporte se houver hipotensão e atraso > 60 min até avaliação hospitalar. | Condicional; muito baixa |
| Cobertura MDR/anaeróbia | Menos estratificada por perfil de risco. | Maior personalização: recomendações específicas a favor ou contra cobertura ampliada conforme risco. | Condicional; muito baixa |
| Hidrocortisona | Recomendada se choque séptico com doses moderadas a elevadas de droga vasoativa | Usar em todo choque séptico | |
| Beta-bloqueador / antitérmico / probiótico | Áreas menos definidas ou menos enfatizadas. | Passa a desaconselhar seu uso rotineiro para melhorar desfechos em sepse/choque séptico. | Variável; em geral condicional ou forte com evidência baixa a moderada |
| Transição de cuidados | Menor protagonismo. | Amplia o foco para reconciliação medicamentosa, suporte a sobreviventes e saúde mental pós-alta. | Novas recomendações, em geral condicionais |
Algumas recomendações da SSC 2026
Triagem e manejo inicial
Na triagem e no tratamento inicial, a SSC 2026 reafirma uma mensagem central: sepse é diagnóstico clínico e não deve ser confirmada nem excluída por um exame isolado, biomarcador ou teste diagnóstico único. Em outras palavras, nenhum marcador “fecha” ou “descarta” sepse sozinho. Isso evita tanto o erro de esperar exame para tratar um paciente grave quanto o uso automático de antimicrobianos apenas porque um biomarcador veio alterado. Ainda nessa linha, a diretriz recomenda que hospitais e sistemas de saúde adotem programas institucionais de melhoria de desempenho em sepse, com triagem estruturada, protocolos operacionais e estratégias formais de qualidade. Também sugere o uso de código sepse ou “sepsis huddle”, valorizando a resposta multiprofissional coordenada.
Quanto às ferramentas de triagem, a recomendação é usar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS, em vez de qSOFA isolado, como ferramenta única para rastreio de sepse no ambiente hospitalar. O qSOFA pode continuar útil como marcador de deterioração clínica, mas não deve ser utilizado sozinho como principal estratégia de triagem. Outra novidade é a inclusão da triagem pré-hospitalar, com sugestão de uso de ferramentas padronizadas em pacientes agudamente enfermos durante transporte por ambulância ou voo. Trata-se de uma mudança coerente com a tentativa de antecipar reconhecimento e acelerar decisões nas primeiras horas da doença.
A coleta de hemoculturas o mais cedo possível e idealmente antes da antibioticoterapia recebeu destaque maior nesta atualização. A recomendação é forte, refletindo a importância do diagnóstico etiológico, da adequação antimicrobiana e do uso racional. A dosagem de lactato continua sugerida como ferramenta de estratificação de risco e de avaliação de hipoperfusão, mas deve sempre ser interpretada em conjunto com o contexto clínico.
Na ressuscitação inicial, a diretriz mantém a sugestão de administrar pelo menos 30mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas em pacientes com hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico, com reavaliação frequente para evitar tanto sub-ressuscitação quanto sobrecarga volêmica. Também permanece a orientação de que sepse e choque séptico são emergências médicas e que ressuscitação e tratamento devem começar imediatamente.
Em relação ao suporte vasopressor, a SSC 2026 refina melhor o raciocínio temporal. A diretriz sugere iniciar cristaloide intravenoso de forma imediata e acrescentar vasopressor se a hipotensão persistir, mas reconhece que, em situações de choque instável, pode ser necessário introduzir vasopressor de forma concomitante desde o início, caso a caso. Além disso, a diretriz sugere não atrasar o início do vasopressor aguardando acesso venoso central, aceitando o uso periférico inicial quando houver protocolo de segurança e vigilância adequada para extravasamento. Quanto à meta pressórica, mantém-se PAM inicial de 65mmHg para a maioria dos pacientes com choque séptico, mas em pacientes com 65 anos ou mais a diretriz sugere uma faixa inicial de 60–65mmHg, reconhecendo que metas mais altas podem aumentar a exposição a catecolaminas sem benefício inequívoco
Infecção e antibioticoterapia
Um dos pontos mais relevantes da atualização de 2026 é o novo enquadramento do timing da antibioticoterapia. Em pacientes com choque séptico, a recomendação é administrar antimicrobianos imediatamente, idealmente em até 1 hora do reconhecimento. Nos pacientes sem choque, a conduta passa a depender da probabilidade clínica de sepse. Se a sepse for definida ou provável, a recomendação continua sendo administrar antibiótico imediatamente, idealmente dentro da primeira hora. Já nos casos de sepse possível sem choque, a diretriz propõe uma abordagem mais criteriosa: realizar rápida avaliação para causas infecciosas e não infecciosas e administrar antimicrobianos em até 3 horas se a suspeita persistir. Essa mudança é muito importante porque introduz um modelo mais racional, que preserva a urgência nos pacientes de maior risco sem transformar toda suspeita inespecífica em antibiótico imediato.
No controle da infecção, a SSC 2026 reforça a necessidade de avaliação rápida do foco infeccioso e sugere que o controle de foco seja realizado precocemente, idealmente em até 6 horas, quando indicado. Também adiciona uma recomendação relevante para o uso de testes diagnósticos rápidos específicos para patógenos em pacientes selecionados, com base nas características clínicas, na epidemiologia local e nos princípios de uso racional de antibioticos. A mensagem prática não é pedir diagnóstico rápido para todos, mas utilizá-lo quando houver potencial real de antecipar terapia apropriada ou reduzir espectro antimicrobiano desnecessário.
Outro ponto que merece destaque é o descalonamento da antibioticoterapia. A diretriz recomenda fortemente descalonar antimicrobianos quando houver diagnóstico microbiológico confirmado e perfil de sensibilidade disponível. Além disso, sugere considerar descalonamento ou suspensão mesmo quando as culturas forem negativas, desde que a evolução clínica seja favorável e a avaliação global indique menor probabilidade de infecção ativa. Isso reforça que o uso racional não deve começar apenas depois da cultura positiva; ele deve fazer parte de toda a trajetória terapêutica
Monitorização hemodinâmica e terapias adjuntas
No manejo hemodinâmico, a SSC 2026 mantém os cristaloides como fluido de primeira linha, mas agora reforça de forma mais clara a preferência por cristaloides balanceados em vez de salina 0,9% na maior parte dos pacientes com sepse ou choque séptico. A principal exceção continua sendo o paciente com traumatismo cranioencefálico, em que a salina pode ser preferida. A diretriz também favorece o uso de cristaloides isoladamente, em vez da associação rotineira com albumina, o que ajuda a simplificar a ressuscitação inicial na maioria dos cenários.
Após a reposição inicial, a diretriz passa a valorizar mais a reavaliação hemodinâmica orientada por fisiologia. A SSC 2026 sugere usar parâmetros dinâmicos de responsividade a fluidos, em vez de depender apenas de exame físico isolado ou medidas estáticas. Além disso, passa a reconhecer o tempo de enchimento capilar como uma ferramenta útil de monitorização da perfusão e de apoio à ressuscitação, especialmente em contextos com menor disponibilidade de métodos avançados. Na prática, isso aproxima a diretriz de uma abordagem mais individualizada e mais coerente com a fisiologia à beira-leito.
Nas terapias adjuvantes, um ponto que merece ser explicitamente incluído é o papel dos corticosteroides. A SSC 2026 sugere o uso de corticosteroide intravenoso em adultos com choque séptico, mantendo a ideia de que essa estratégia pode acelerar reversão do choque, embora a recomendação siga sendo condicional e não signifique uso indiscriminado ou obrigatório em todos os contextos. A nova diretriz também recomenda contra o uso rotineiro de azul de metileno e beta-bloqueadores para tratamento do choque séptico e contra o uso de antitérmicos ou resfriamento de superfície com o objetivo de melhorar desfechos clínicos, embora esses recursos possam ser utilizados para alívio sintomático. Após a fase aguda de ressuscitação, o documento sugere ainda remoção ativa de fluidos em pacientes com choque séptico, refletindo a crescente preocupação com congestão e balanço hídrico acumulado.
Objetivos terapêuticos e transição de cuidados
A sessão de objetivos terapêuticos e transição de cuidados é uma das áreas em que a SSC 2026 mais se distancia das versões antigas. A nova diretriz passa a enfatizar estratégias para garantir que pacientes em processo de alta após sepse consigam compreender e executar diretivas antecipadas de cuidado, além de reconhecer a importância da reconciliação medicamentosa estruturada, idealmente com participação do farmacêutico, durante as transições assistenciais. Esse movimento é importante porque amplia a visão da sepse para além da fase aguda de ressuscitação, incorporando planejamento, segurança do paciente e alinhamento de metas terapêuticas.
Por fim, a SSC 2026 amplia o foco sobre os desfechos de longo prazo, recomendando estratégias de suporte aos sobreviventes de sepse e suas famílias, incluindo reabilitação e atenção à saúde mental após a alta hospitalar. Esse é um ponto conceitualmente relevante: a sepse deixa de ser tratada apenas como uma síndrome de poucas horas ou poucos dias e passa a ser encarada como uma condição com repercussões prolongadas, que exigem seguimento e reorganização do cuidado.
Leitura crítica para o intensivista
Em síntese, a SSC 2026 não abandona os princípios centrais do manejo da sepse, mas os reorganiza de forma mais sofisticada. O reconhecimento rápido continua essencial, assim como o início oportuno do antibiótico, a ressuscitação inicial e o controle de foco. O que muda é a forma de tomar decisão: a diretriz incorpora mais explicitamente a probabilidade clínica de sepse, diferencia melhor quem precisa de antibiótico em 1 hora e quem pode ser reavaliado em até 3 horas, reforça stewardship, valoriza ferramentas fisiológicas de reanimação e amplia a atenção para transição de cuidados e recuperação pós-sepse. Para o intensivista, a principal lição talvez seja esta: a SSC 2026 continua defendendo rapidez, mas agora com mais nuance, mais fisiologia e mais contexto.
Autoria

Yuri Albuquerque
Doutorando em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP) • Residência em Medicina Intensiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) • Residência em Clínica Médica ano complementar (R3) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) • Residência em Clínica Médica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) • Médico intensivista rotina do hospital Samaritano Paulista • Título de Especialista em ECMO pela Extracorporeal Life Support Organization (ELSO) • Título de Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB)
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