Logotipo Afya
Anúncio
Infectologia12 agosto 2026

Ciclosporíase: o que saber sobre o surto de diarreia nos EUA

Confira os principais pontos sobre a Ciclosporíase, doença responsável pelo surto de diarreia nos EUA, seu manejo e formas de prevenção

Nos últimos meses, os Estados Unidos da América vêm enfrentando um intenso surto de diarreia infecciosa de sua história recente. Causados por infecções por Cyclospora cayetanensis, o país já contabiliza mais de 6.000 casos confirmados e mais 11.500 casos suspeitos em investigação.

Ao mesmo tempo em que o número de casos nos EUA continua em ascensão, o México confirmou a identificação de 33 casos de ciclosporíase no país, distribuídos por 13 estados. Embora as autoridades mexicanas neguem que se trate de um surto ativo, os casos chamam a atenção devido ao vínculo temporal e proximidade geográfica.

Doenças com transmissão associada a alimentos e água têm um potencial de causar grandes surtos e, mesmo que apresentem características benignas e curso autolimitado, podem gerar grande pressão nos sistemas de saúde, absenteísmo e eventualmente óbitos em hospedeiros mais suscetíveis.

Confira os principais pontos sobre essa doença, seu manejo e formas de prevenção.

Ciclosporíase: o que saber sobre o surto de diarreia nos EUA

Agente etiológico e epidemiologia

A ciclosporíase é uma doença infecciosa causada pelo coccídeo C. cayetanensis. Infecções por esse organismo já foram relatadas em todas as regiões do globo, esporadicamente ou em surtos. Áreas consideradas de alta endemicidade incluem regiões tropicais e subtropicais da América Latina e Caribe, Ásia Central e sudeste asiático, Oriente Médio e Norte da África.

Os seres humanos são os únicos hospedeiros conhecidos de C. cayetanensis. Acredita-se que o inóculo necessário para estabelecer infecção seja baixo. Em países de baixa renda, os casos de ciclosporíase são mais comuns em menores de 10 anos, reduzindo com a idade.

Leia também: Diarreia aguda infecciosa: o que diz a atualização da IDSA? 

Quadro clínico

As manifestações clínicas da ciclosporíase são diversas e podem variar de acordo com a idade e com a endemicidade local. Infecções assintomáticas são mais comuns em indivíduos de áreas com alta endemicidade, principalmente adultos, mas também crianças, o que sugere um grau de imunidade pelo menos parcial com exposição prévia.

Na doença sintomática, o início dos sintomas é abrupto, após um período de incubação de 7 dias em média, podendo variar de 1 a 11 dias. Sinais prodrômicos, semelhantes aos de uma síndrome gripal, podem anteceder a instalação de diarreia, que se caracteriza por uma média de 6 evacuações líquidas por dia, podendo chegar a uma frequência de 15 episódios diários. Outros sintomas, como fadiga, anorexia, mialgia, cólicas abdominais, flatulência e náuseas também podem estar presentes. Febre é descrita em aproximadamente 25% dos casos.

O quadro geralmente tem duração de 1 a 7 semanas ou mais, podendo prolongar-se e resultar em desidratação e perda ponderal significativos. Mesmo em áreas endêmicas, indivíduos nos extremos de idade tendem a ter doença mais grave. Além disso, sem tratamento, a diarreia pode apresentar períodos cíclicos ou com recorrências.

Nos EUA, até o momento, os casos de ciclosporíase já resultaram em 193 hospitalizações e 2 óbitos. Os casos de óbito ocorreram em pacientes com comorbidades prévias significativas, que podem ter sido agravadas pela desidratação resultante da infecção.

Em hospedeiros imunocompetentes, a infecção tende a ficar restrita ao intestino delgado, mas em indivíduos com imunossupressão – classicamente indivíduos com Aids – pode causar infecções extraintestinais, com comprometimento de vesícula e árvore biliar, manifestando-se como colecistite acalculosa.

Complicações mais raras, como síndrome de Guillan-Barré, inflamação ocular e artrite reativa, já foram descritas como condições associadas. Quadros de fadiga pós-infecciosa podem ser prolongados e intensos em algumas pessoas, persistindo por longos períodos após resolução dos sintomas.

Saiba mais: Diarreia e nutrição enteral: como abordar no paciente crítico

Formas de transmissão

A transmissão ocorre por via fecal-oral, principalmente por ingestão de água ou alimentos contaminados com oocistos do parasita. Devido ao ciclo de vida do parasita, que necessita de ciclo sexuado e assexuado no mesmo hospedeiro, transmissão direta pessoa-a-pessoa é improvável.

No caso do surto atual nos EUA, as autoridades sanitárias norte-americanas atribuíram os casos ao consumo de alface proveniente de uma empresa privada com sede no México, que podem ter sido utilizada no preparo de alimentos de uma cadeia de fast-food, mas seguem investigando potenciais fontes adicionais de contaminação.

Já em relação aos casos do México, as autoridades mexicanas negaram ligação dos casos no país com o surto norte-americano. As fontes potenciais seguem em investigação.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico de ciclosporíase baseia-se na identificação de oocistos em amostras de fezes. A eliminação de oocistos pode começar antes dos sintomas, mas em geral se encerra com o fim da sintomatologia. Como o número de oocistos eliminados ao longo do período de doença pode variar, recomendam-se métodos de concentração e coleta de mais de uma amostra para realização do diagnóstico.

O tratamento de escolha é sulfametoxazol-trimetoprim, usualmente na dose de 160/800mg, VO, 12/12h, por 7 a 10 dias. Em imunocompetentes, esse esquema está associado a taxas de cura > 90%. Para pessoas com contraindicações à terapia de primeira linha, alternativas incluem nitazoxanida e ciprofloxacino.

Em indivíduos imunocomprometidos, podem ser necessárias doses mais altas e por períodos mais prolongados, além de instituição de profilaxia secundária com o objetivo de prevenir relapsos.

Entenda: Microbiota intestinal e manejo clínico da diarreia

Prevenção

De acordo com estudos epidemiológicos, consumo de água não tratada, falta de saneamento básico e presença de animais no domicílio foram encontrados como fatores de risco para infecção por Cyclospora.

Medidas preventivas incluem melhores condições de saneamento básico e evitar consumo de água não tratada e de alimentos crus. Devem-se evitar vegetais crus e frutas com casca. Uma característica que propicia o caráter potencialmente epidêmico de C. cayetanensis é sua alta resistência a maioria dos desinfectantes utilizados na indústria alimentícia. Entretanto, os oocistos são sensíveis ao cozimento. Dessa forma, recomenda-se, em casos de viagem para áreas endêmicas, dar preferência para consumo de carnes que tenham sido totalmente cozidas e que sejam servidas quentes.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Infectologia