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Clínica Médica28 abril 2026

Microbiota intestinal e manejo clínico da diarreia

O que há de evidências e quais são os mecanismos e o papel do Bacillus clausii na prática médica?

Este conteúdo foi produzido pela Afya em parceria com Mantecorp Farmasa de acordo com a Política Editorial e de Publicidade do Portal Afya.

O microbioma intestinal constitui um ecossistema altamente complexo composto por bactérias, vírus (incluindo bacteriófagos), fungos, arqueias e outros eucariotos, com estimativa de dezenas a centenas de trilhões de microrganismos no trato gastrointestinal humano.1 A composição do microbioma intestinal é moldada desde o nascimento e continuamente remodelada, sendo afetada por inúmeros fatores, como dieta, via de parto, ambiente, alimentação, idade e exposição a antibióticos, entre outros.1 Na infância, o microbioma está em fase de estabelecimento e maturação, tornando-se mais suscetível a perturbações. Sabe-se que a microbiota desempenha um papel central na saúde humana, com papel importante na manutenção da integridade/função de barreira do epitélio intestinal, digestão, metabolismo, interação com o sistema nervoso central (eixo cérebro-intestino-microbiota) e síntese de diversas substâncias, como ácidos graxos de cadeia curta. Além disso, ajuda a combater infecções e inflamações interagindo e modulando nosso sistema imunológico.1

Entre as condições relacionadas ao desequilíbrio do microbioma, destaca-se a diarreia aguda, definida pela organização mundial de saúde como três ou mais evacuações com fezes pastosas a líquidas em 24 horas.2 A diarreia aguda é uma das principais causas de morbimortalidade entre crianças menores de 5 anos, sendo responsável por cerca de 445 mil mortes por ano nessa faixa etária.3 A restauração do microbioma para um estado saudável pré-disbiose pode ser feita através da remoção do fator desencadeante (por exemplo, antibiótico) e/ou ocorrer por meio de abordagens terapêuticas específicas, como suplementação pré e probiótica.1 Probióticos são definidos como “microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro”.4

O Bacillus clausii é um dos probióticos mais estudados para tratamento das diarreias agudas. Bacillus clausii é uma bactéria gram positiva, formadora de esporos, característica que confere vantagens farmacotécnicas e biológicas: resistência ao pH gástrico, maior estabilidade durante armazenamento e potencial de sobreviver ao trânsito gastrointestinal até o intestino. Essa resistência à passagem gástrica e a capacidade de germinação em condições intestinais sustentam a plausibilidade de viabilidade ao sítio de ação.5

Efeitos dos probióticos

Do ponto de vista mecanístico, os efeitos propostos incluem:5

  • Resistência ácido-gástrica, bile e germinação controlada no intestino;
  • Produção de substâncias antimicrobianas (ex: clausina), com possível impacto na competição contra patógenos;
  • Resistência a antibióticos, sem comprometer a segurança, permitindo uso concomitante a antimicrobiano (ex: clausii UBBC07 mostrou-se resistente a três antibióticos: clindamicina, eritromicina e cloranfenicol, sendo os genes relacionados à resistência não transmissíveis a outros organismos);6
  • Modulação imune (indução de respostas regulatórias/anti-inflamatórias e reforço de defesa de mucosa, produção de IgA);
  • Efeito de barreira (redução de permeabilidade e suporte às junções firmes);
  • Produção de vitaminas.

Os efeitos de probióticos não devem ser extrapolados entre espécies nem entre cepas de uma mesma espécie. Diferentes cepas de B. clausii, incluindo O/C, N/R, SIN e T, DSM 8716T, DSM 2512, DSM 9783, UBBC07, ANA39, CS108, XJ21 e XJ26, foram caracterizadas in vitro quanto à sua capacidade de tolerar condições que mimetizam o trânsito gastrointestinal humano.5 O B. clausii UBBC07, especificamente na dose de 2 × 10⁹ unidades formadoras de colônia (UFC), duas vezes ao dia, por dez dias, foi seguro e eficaz para aliviar os sintomas de diarreia aguda em adultos. Nesse estudo, a duração média da diarreia diminuiu de 34,81±4,69 para 9,26±3,05 minutos por dia (P<0,0001), a frequência de evacuações reduziu de 6,96±1,05 para 1,78±0,50 vezes ao dia (P<0,0001), a dor abdominal diminuiu de 3,22±0,93 (intensa) para 0,74±0,71 (ausente) (P<0,0001), e a consistência das fezes melhorou de 3,93±0,38 (aquosa) para 1,22±0,42 (pastosa) (P<0,0001).7  De modo semelhante, em crianças menores de 5 anos, a suplementação de B. clausii UBBC07 (2 × 10⁹ UFC/5 ml) na forma de suspensão de esporos, duas vezes ao dia, por cinco dias, foi segura e reduziu efetivamente a gravidade da diarreia (duração e número de evacuações) em comparação ao placebo em ensaio clínico randomizado controlado realizado na Índia.8

Recomendações gerais

Os probióticos são recomendados por algumas das diretrizes vigentes como agentes adjuvantes no tratamento da diarreia aguda e pós-antibiótico. No entanto, a escolha das melhores cepas é ainda controversa, e o nível de evidência é baixo.9-11 Uma revisão sistemática de 2020, que incluiu 82 ensaios clínicos randomizados com um total de 12.127 participantes (principalmente crianças), relatou uma redução de 36% no risco de diarreia com duração de 48 horas ou mais em pessoas que receberam probióticos em comparação com aquelas que não receberam, sendo que os probióticos também reduziram a duração média da diarreia em 21,3 horas.12

Finalmente, é importante salientar que o uso de probióticos não deve retardar a avaliação de pacientes com sinais de alarme, como: 13

  • sinais de desidratação moderada/grave, letargia, hipotensão;
  • sangue nas fezes, dor abdominal intensa ou progressiva, febre alta persistente;
  • vômitos incoercíveis, incapacidade de hidratar;
  • menores de 3 meses de idade;
  • diarreia com duração superior a sete dias, perda ponderal importante, suspeita de infecção por Clostridioides difficile;
  • comorbidades relevantes (imunossupressão, doença inflamatória intestinal, transplantados).

Esses pacientes devem ser referenciados a serviços de urgência para adequada hidratação, investigação e tratamento específico com antimicrobiano quando indicado.

Mensagens prática

A diarreia aguda e a diarreia associada a antibióticos são condições altamente prevalentes na prática clínica e, além da reidratação e do manejo etiológico quando indicado, estratégias adjuvantes que favoreçam a recuperação da homeostase intestinal podem ser úteis em cenários selecionados.

Nesse contexto, a microbiota intestinal ocupa papel central, de modo que intervenções voltadas à recomposição microbiana têm racional fisiopatológico consistente e podem reduzir a duração dos sintomas. Entre os probióticos, Bacillus clausii (ex: UBBC07) destaca-se por características farmacobiológicas relevantes — formação de esporos, resistência ao pH gástrico e boa estabilidade, com maior probabilidade de viabilidade até o intestino — além de mecanismos propostos, como competição contra patógenos, produção de substâncias antimicrobianas, modulação imune e suporte à barreira epitelial.

Autoria

Foto de Guilherme Grossi Cançado

Guilherme Grossi Cançado

Editor médico da Afya ⦁ Pós-Doutorado em Hepatologia Avançada e Doenças Autoimunes do Trato Gastrointestinal pela Universidade de Toronto, Canadá ⦁ Doutorado em saúde do adulto com ênfase em Hepatologia pela UFMG ⦁ Mestrado em saúde do adulto com ênfase em Gastroenterologia pela UFMG ⦁ Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pelo HC-UFMG ⦁ Chefe da Gastrohepatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais ⦁ Preceptor de hepatologia e clínica médica do HC-UFMG ⦁ Membro da AASLD, ALEH, SBH, GEDIIB ⦁ Coordenador de Jovens Investigadores da ALEH ⦁ Professor convidado da UFMG

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Referências bibliográficas

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