Infecções de corrente sanguínea por Candida (candidemia) estão associadas a elevada morbimortalidade, especialmente em pacientes críticos. Os Dispositivos de Assistência Ventricular Esquerda (DAVEs) são cada vez mais utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca avançada, seja como terapia de destino ou ponte para transplante. No entanto, sabe-se que o uso desses dispositivos está associado a complicações infecciosas, como infecção de corrente sanguínea e endocardite. Apesar de relatos anteriores sugerirem alta mortalidade, dados robustos sobre o impacto prognóstico da presença de DAVE são escassos. Este estudo avaliou se a presença de DAVE influencia os desfechos clínicos em pacientes com candidemia.
Metodologia
Foi conduzido um estudo retrospectivo em um centro terciário nos EUA, incluindo pacientes adultos com candidemia entre janeiro de 2010 e dezembro de 2021. Foram analisados 1233 casos, dos quais 39 apresentavam DAVE no momento da infecção. Dados demográficos, comorbidades, fatores de risco, espécies de Candida e desfechos clínicos foram coletados. O desfecho primário foi mortalidade em 30 e 90 dias. Modelos de regressão de Cox ajustados avaliaram a associação entre LVAD e mortalidade. Foram excluídos pacientes que evoluíram para óbito dentro de 48 horas após o diagnóstico de candidemia.
Resultados
Pacientes com DAVE eram predominantemente homens (77% vs 54%) e apresentavam maior frequência de uso de cateter venoso central (67% vs 46%) e uso prévio de ECMO – Oxigenação por Membrana Extracorpórea (38% vs 4,9%). Candida parapsilosis foi a espécie de Candida mais comum no grupo DAVE (38% vs 16%), enquanto Candida albicans predominou nos demais (39%). A mortalidade foi semelhante entre os grupos: 30 dias (30,7% vs 34,5%) e 90 dias (38,4% vs 40,7%). O modelo ajustado não demonstrou impacto significativo da presença de DAVE na mortalidade em 90 dias (HR 1,12; IC95% 0,70–1,77). A maioria dos pacientes com DAVE recebeu terapia antifúngica prolongada e supressão crônica com azóis, com baixa taxa de recorrência. Quase todos os pacientes com DAVE (94,9%) fizeram uso de antimicrobianos nos 30 dias anteriores ou estavam em uso no momento do diagnóstico.

Mensagem prática: candidemia em pacientes com DAVE
A infecção fúngica de corrente sanguínea é uma infecção grave, associada a altas taxas de morbimortalidade. São fatores de risco: uso prévio de antimicrobianos, uso de cateter venoso central, cirurgia abdominal, entre outros. Apesar da complexidade do manejo, a presença de DAVE não aumentou a mortalidade em pacientes com candidemia, desde que instituído tratamento antifúngico adequado. O achado reforça a importância da vigilância precoce, controle de fontes infecciosas e dos fatores de risco. Clinicamente, destaca-se a associação de Candida parapsilosis com DAVE, sugerindo papel da formação de biofilme e dispositivos vasculares. A candidemia continua sendo uma condição grave, mas o implemento de estratégias de manejo adequado e supressão antifúngica podem mitigar riscos em pacientes com suporte circulatório mecânico.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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