O ensaio clínico ACTG A5359 LATITUDE, publicado no New England Journal of Medicine em 2026, investigou a eficácia e a segurança de cabotegravir + rilpivirina de longa ação (CAB-RPV LA) em indivíduos vivendo com HIV que apresentavam dificuldades significativas de adesão à terapia antirretroviral oral (TARV). Diferentemente dos estudos anteriores, conduzidos majoritariamente em pessoas já virologicamente suprimidas, este ensaio incluiu indivíduos que não tinham carga viral suprimida, com histórico recente de má adesão, abandono de seguimento ou resposta virológica inadequada.

Metodologia e desenho do estudo sobre uso de cabotegravir e rilpivirina no tratamento oral do HIV
O estudo foi multicêntrico, aberto e randomizado, realizado em 33 centros nos Estados Unidos. Foram avaliados 820 candidatos, dos quais 453 foram incluídos na etapa 1. Os critérios de inclusão contemplavam:
- HIV-1 documentado;
- Idade ≥ 18 anos;
- Recebimento prévio de TARV;
- Ausência de mutações relevantes de resistência a integrase ou rilpivirina;
- Evidência objetiva de não adesão por ≥ 6 meses nos 18 meses anteriores (viremia persistente, abandono de acompanhamento ou ambos).
A etapa 1 (até 24 semanas) consistiu em TARV oral otimizada (ao menos 3 fármacos plenamente ativos) associada a suporte intensivo de adesão e incentivos econômicos condicionados à redução de carga viral e presença nas visitas.
Os indivíduos que alcançaram carga viral ≤ 200 cópias/mL foram elegíveis para randomização 1:1 na etapa 2:
- Grupo CAB–RPV: injeções mensais de cabotegravir (400 mg) e rilpivirina (600 mg), após dose de ataque; fase oral de indução (~4 semanas) opcional.
- Grupo padrão: manutenção da TARV oral habitual, com visitas menos frequentes para simular práticas reais de cuidado em populações com dificuldades de adesão.
Ao todo, 306 participantes progrediram para a etapa 2 (152 CAB–RPV; 154 padrão). A mediana de seguimento foi de 48 semanas.
Características demográficas e clínicas
Na etapa 1, a população apresentou importante vulnerabilidade social e clínica:
- Idade mediana: 40 anos.
- 63% autodeclarados negros; 29% designados do sexo feminino ao nascer.
- 17% hispânicos; 14% histórico de uso de drogas injetáveis.
- Baixa renda: 42% com renda anual < 10 mil dólares.
- 9% com moradia instável ou situação de rua.
- Elevada prevalência de uso de substâncias (marijuana 59%, cocaína 24%, anfetaminas/metanfetaminas 28%).
No momento da elegibilidade à etapa 2, observou-se melhora dos parâmetros virológicos e imunológicos, com a maioria apresentando HIV-1 RNA ≤ 200 cópias/mL. Ainda assim, um subgrupo iniciou a etapa 2 com viremia > 200 cópias/mL — 16% no grupo CAB–RPV e 7% no grupo padrão — refletindo a complexidade dessa população.
Adesão, administração e exposição medicamentosa
Dos randomizados no braço CAB–RPV, 141 participantes chegaram a receber injeções, totalizando 1.359 administrações intramusculares. A taxa de pontualidade foi alta: 94% das injeções dentro da janela prevista.
No grupo padrão, apenas 34–46% relataram não ter perdido nenhuma dose de TARV oral no mês anterior às visitas, confirmando dificuldade crônica de adesão e racionalidade clínica para alternativas menos dependentes da rotina diária de comprimidos.
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Desfecho primário
A falha do regime (falha virológica confirmada ou descontinuação permanente) ocorreu em:
- Cabotegravir–rilpivirina: 29 participantes (19%).
- TARV padrão: 55 participantes (36%).
A incidência cumulativa aos 48 semanas foi:
- 22,8% (CAB–RPV) vs. 41,2% (padrão).
- Diferença: –18,4 pontos percentuais (IC 98,4%: –32,4 a –4,3; p=0,002).
Este resultado demonstrou superioridade estatística robusta do regime injetável.
Desfechos secundários relevantes
Falha virológica isolada:
- CAB–RPV: 6 casos.
- Padrão: 34 casos.
Diferença aos 48 semanas: –21,4 pontos percentuais.
Sem diferença estatisticamente significativa, porém numericamente menor no braço CAB–RPV.
Análise dos casos de falha virológica no grupo CAB–RPV
Dos seis casos:
- Nenhum dos pacientes faltou às injeções.
- Quatro apresentavam IMC > 30 kg/m², e todos receberam agulhas ≤40 mm, apesar da recomendação de agulhas de 50 mm (2”) em indivíduos com IMC elevado.
- Concentrações plasmáticas iniciais de cabotegravir e/ou rilpivirina mostraram tendência a níveis inferiores ao esperado, embora ainda acima do limite inferior quantificável.
- A maioria teve falha após a semana 24.
- Todos os pacientes com falha (exceto um perdido) suprimiram novamente com TARV oral posterior.
A presença de mutações de resistência (incluindo INSTI Q148K e E138K) foi confirmada em 2 dos 5 casos avaliáveis.
Segurança e tolerabilidade
A incidência geral de eventos adversos foi semelhante entre grupos:
- 43,5% (CAB–RPV) vs. 42,4% (padrão).
- Eventos graves: 14% vs. 10%, respectivamente.
Reações no local da injeção ocorreram em 60%, na maioria leves ou moderadas. Apenas 2 participantes descontinuaram por dor persistente.
Dois óbitos ocorreram no grupo CAB–RPV (overdose de fentanil e evento cardiovascular), ambos considerados não relacionados ao tratamento.
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Conclusão: tratamento oral padrão do HIV
O estudo demonstra que cabotegravir + rilpivirina de longa ação representa uma alternativa eficaz e segura para pessoas vivendo com HIV que enfrentam dificuldades persistentes de adesão à TARV oral. A superioridade observada, aliada à boa aceitação e ao baixo impacto de eventos adversos, sustenta sua expansão como estratégia central para populações vulneráveis.
Autoria

Raissa Moraes
Editora médica de Infectologia da Afya ⦁ Médica do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Mestrado em Pesquisa Clínica pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Infectologista pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense
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