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Hematologia2 outubro 2026

Diretriz atualiza diagnóstico da deficiência de ferro

Novos limiares de ferritina orientam o diagnóstico da deficiência de ferro em diferentes populações e na presença de inflamação

Novos limiares de ferritina orientam o diagnóstico da deficiência de ferro em diferentes populações e na presença de inflamação

Como o diagnóstico da deficiência orienta a diretriz?

A deficiência de ferro pode ocorrer com ou sem anemia e está associada a sintomas como fadiga, perversão do apetite (pica), irritabilidade, dificuldade de concentração, cefaleia e síndrome das pernas inquietas. A diretriz da American Society of Hematology (ASH) de 2026 prioriza critérios diagnósticos para crianças, adultos, mulheres no menacme, gestantes e condições inflamatórias, com o objetivo de identificar a condição de forma mais acurada (reduzir risco de falso-negativo) e minimizar danos do sobrediagnóstico (reduzir risco de falso-positivo).

A ferritina sérica foi priorizada por ser amplamente disponível e representar indiretamente os estoques corporais de ferro. A diretriz destaca, porém, que ela é um reagente de fase aguda e que diferentes métodos laboratoriais podem produzir resultados distintos.

Saiba mais: Deficiência de ferro em adultos: como triar e tratar

O painel aplica método GRADE às recomendações

O painel da ASH formulou cinco questões clínicas e utilizou a abordagem GRADE para avaliar a certeza da evidência e elaborar as recomendações. A University of Kansas Health System apoiou revisões sistemáticas sobre prevalência, acurácia diagnóstica e outros elementos dos frameworks Evidence-to-Decision, com buscas atualizadas até julho de 2025.

Na elaboração das recomendações, o painel considerou sensibilidade e especificidade dos limiares de ferritina, prevalência de deficiência de ferro nas populações, valores e preferências, recursos, equidade, aceitabilidade e viabilidade. As recomendações foram definidas por consenso ou, em situações raras, por votação, e posteriormente submetidas a comentário público.

A ferritina sérica permanece central no diagnóstico

Em crianças de 9 meses a 4 anos, o painel sugere ferritina sérica ≤ 20 ng/mL, em vez de ≤ 12 ng/mL, para diagnosticar deficiência de ferro. A recomendação é condicional, com baixa certeza da evidência, e se aplica a crianças sem inflamação conhecida ou suspeita.

Para crianças acima de 4 anos até a adolescência, a diretriz considera apropriado o limiar de ≤ 20 ng/mL por aplicação indireta das evidências de crianças menores. Em adolescentes que não menstruam, considera ≤ 30 ng/mL apropriado por aplicação indireta das evidências de adolescentes que menstruam e adultos.

Em adultos, excluindo mulheres no menacme e grávidas, o painel sugere ferritina ≤ 30 ng/mL em vez de ≤ 15 ng/mL. Essa recomendação também é condicional e baseada em baixa certeza da evidência. Na presença de sinais, sintomas ou fatores de risco persistentes para deficiência de ferro, a diretriz considera apropriado o limiar de ≤ 50 ng/mL para diagnóstico e decisões de manejo.

Para mulheres no menacme, a ASH sugere ferritina ≤ 30 ng/mL e sugere não utilizar ≤ 15 ng/mL para o diagnóstico, em recomendação condicional com baixa certeza da evidência. No caso de sangramento menstrual intenso ou outras formas de sangramento uterino anormal com perda excessiva, sintomas, fatores de risco adicionais, pré-operatório ou planejamento de gestação, ≤ 50 ng/mL é considerado um valor de corte apropriado.

Na gestação, o painel sugere ferritina ≤ 30 ng/mL (recomendação condicional com baixa certeza da evidência) e recomenda não utilizar ≤ 15 ng/mL (recomendação forte também baseada em baixa certeza). Para gestantes com anemia, com ou sem outros fatores de risco e/ou sintomas associados, ferritina ≤ 50 ng/mL pode ser apropriada para o diagnóstico e para orientar decisões de manejo.

Saiba mais: Revisando os estágios da deficiência de ferro

A anemia secundária à inflamação exige avaliação combinada

Em adultos com anemia da inflamação, o painel sugere avaliar conjuntamente ferritina sérica e índice de saturação da transferrina (IST), em vez de utilizar apenas ferritina. A recomendação é condicional, com certeza muito baixa da evidência, e a diretriz afirma que a deficiência de ferro pode ser considerada quando o IST é < 20% ou a ferritina é < 100 ng/mL.

O IST deve ser coletado em jejum de 5 a 9 horas, incluindo abstinência de multivitamínicos e suplementos de ferro nesse período. A diretriz também orienta interpretar ferritina e IST no conjunto do quadro clínico, considerando história, exame físico, doença subjacente e diretrizes de manejo existentes para doenças crônicas.

A anemia da inflamação pode ocorrer no contexto de doença inflamatória intestinal, doenças infecciosas, câncer, doença renal crônica, insuficiência cardíaca, doenças reumatológicas, dentre outras condições inflamatórias.

Saiba mais: Deficiência de ferro na IC: qual o melhor parâmetro?

Como a decisão clínica incorpora os novos limiares?

Na decisão clínica, os limiares devem ser aplicados conforme a população e o contexto inflamatório definidos pela diretriz. Para crianças pequenas, adultos sem inflamação, mulheres no menacme e gestantes, a ferritina ocupa papel central; em adultos com anemia da inflamação, a avaliação combina ferritina e IST.

A diretriz ressalta que seus critérios diagnósticos abrangem deficiência de ferro independentemente da presença de anemia, tendo em vista que a intervenção precoce reduz o risco de complicações futuras. Também diferencia recomendações fortes e condicionais pela formulação empregada, preservando a necessidade de decisão compartilhada e de consideração das circunstâncias clínicas de cada paciente. A ideia é identificar os indivíduos que realmente apresentam ferropenia, evitando o sobrediagnóstico e a suplementação desnecessária de ferro.

A ASH sugere que laboratórios substituam o limite inferior de normalidade definido pelo próprio laboratório por um limite de decisão clínica correspondente aos limiares recomendados de ferritina. A diretriz propõe sinalizar resultados iguais ou inferiores a esses limites como anormais e acrescentar comentário ao laudo para facilitar a implementação.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Lívia Pessôa de Sant'Anna

Lívia Pessôa de Sant'Anna

Conteudista médico na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residências médicas em Clínica Médica e em Hematologia e Hemoterapia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestrado em Ciências da Saúde pela mesma instituição. Além da atuação na Afya, também trabalha como médica assistente no Serviço de Hematologia do Hospital de Força Aérea do Galeão (HFAG).

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