A ruptura prematura pré-termo das membranas (RPPTM) é responsável por cerca de 40% dos partos prematuros e permanece uma importante causa de morbidade e mortalidade perinatal. Na maioria das gestantes, o manejo expectante permite reduzir as complicações relacionadas à prematuridade, desde que não haja sinais de infecção ou sofrimento fetal.
Quando a gestante vive com HIV, entretanto, a tomada de decisão torna-se mais complexa. O prolongamento da gestação pode beneficiar o recém-nascido prematuro, mas também levanta a preocupação de aumentar a exposição fetal ao vírus após a ruptura das membranas. Apesar dos avanços da terapia antirretroviral, ainda existem poucas evidências para orientar o manejo dessa situação clínica.
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Revisão sistemática reuniu apenas quatro estudos
Com o objetivo de avaliar a taxa de transmissão vertical do HIV e os desfechos neonatais em gestantes com HIV e RPPTM, Ismail e colaboradores publicaram, em 2026, uma revisão sistemática no Journal of Obstetrics and Gynaecology Research.
Os autores realizaram uma revisão sistemática seguindo as recomendações do PRISMA, com busca em sete bases de dados desde sua criação até 2023. Foram incluídos estudos observacionais, séries de casos e relatos de casos envolvendo gestantes vivendo com HIV que apresentaram RPPTM e tiveram a transmissão vertical avaliada.
Dos 312 artigos inicialmente identificados, apenas quatro preencheram os critérios de inclusão, totalizando 58 gestações acompanhadas nos Estados Unidos e na África do Sul.
Transmissão vertical permaneceu baixa, mas as evidências são limitadas
Entre as 58 gestantes incluídas, foram confirmados quatro casos de transmissão vertical, resultando em uma taxa bruta de 6,9%.
Embora esse percentual seja superior às taxas atualmente observadas em países com amplo acesso à terapia antirretroviral, os estudos analisados envolveram populações heterogêneas, diferentes estratégias terapêuticas e gestantes tratadas em períodos anteriores ao manejo contemporâneo da infecção pelo HIV.
Carga viral pode ter maior impacto que o tempo de bolsa rota
A análise conjunta não demonstrou associação significativa entre a transmissão vertical e a duração da ruptura das membranas, a idade gestacional, a contagem de linfócitos CD4 ou o uso de terapia antirretroviral no momento do parto.
Por outro lado, observou-se uma tendência de maior risco entre mulheres com carga viral elevada e entre aquelas submetidas ao parto vaginal, embora essas associações não tenham atingido significância estatística.
Os autores destacam que, na era da terapia antirretroviral combinada, a carga viral materna permanece o principal determinante da transmissão vertical. Estudos contemporâneos mostram que mulheres com carga viral inferior a 1.000 cópias/mL apresentam risco de transmissão entre 1% e 2%, independentemente da duração da ruptura das membranas ou da via de parto.
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Escassez de evidências limita a aplicação dos resultados
A principal contribuição da revisão é reunir as evidências disponíveis sobre uma situação clínica para a qual ainda existem poucos estudos.
Embora apenas quatro trabalhos tenham preenchido os critérios de inclusão, sendo a maioria retrospectiva e anterior aos esquemas antirretrovirais atuais, os resultados contribuem para compreender os fatores potencialmente relacionados à transmissão vertical nesse contexto.
Ao mesmo tempo, a heterogeneidade entre os estudos e as informações incompletas sobre carga viral, tempo de bolsa rota e tratamento reforçam a necessidade de pesquisas contemporâneas para orientar o manejo da RPPTM em gestantes vivendo com HIV.
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Mensagem prática
A revisão sistemática reforça que o manejo da ruptura prematura pré-termo das membranas em gestantes vivendo com HIV deve equilibrar os riscos da prematuridade e da transmissão vertical.
Embora as evidências ainda sejam limitadas, os resultados sugerem que a carga viral materna exerce maior influência sobre a transmissão vertical do que o tempo de bolsa rota isoladamente.
Na prática, esses achados reforçam a importância da avaliação individualizada, considerando o controle virológico materno, a idade gestacional e as condições maternas e fetais na definição da estratégia obstétrica mais adequada.
Autoria

Ronaldo Oliveira
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Vale do Rio Verde, com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Montes Claros. Professor da Universidade de Ribeirão Preto. Medicina Fetal pela FMRP - USP. Mestre e Doutor pela FMRP - USP.
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