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Ginecologia e Obstetrícia10 julho 2026

Profilaxia de VSR em pediatria: eficácia em lactentes e gestantes

Revisão avalia profilaxia de VSR com anticorpos monoclonais e vacina materna na prevenção de hospitalizações em lactentes.
Por Renata Carneiro

O vírus sincicial respiratório (VSR) é uma das principais causas de infecção e hospitalização de lactentes, sendo que a imunidade adquirida com o vírus selvagem é incompleta e transitória. Até o momento, o tratamento é de suporte. A vacina de gestantes contra o VSR, composta por glicoproteínas F recombinantes do VSR, e a administração de anticorpos de longa duração em lactentes revolucionaram a profilaxia para o VSR, que antes era limitada à aplicação mensal em lactentes de alto risco durante a sazonalidade. 

Neste artigo, traremos as principais contribuições da revisão narrativa, da meta-análise e da revisão sistemática publicadas em junho de 2026 por Oliva e Oliveira, na revista Human Vaccines & Immunotherapeutics, com o objetivo de avaliar a eficácia dessas medidas profiláticas para prevenir hospitalizações por VSR e discutir sua implementação. 

Saiba mais: VSR em lactentes: segurança da vacina materna e do nirsevimabe 

Como a revisão avaliou as evidências disponíveis 

Para a revisão narrativa, voltada a resumir as evidências atuais sobre a prevenção pediátrica do VSR, incluindo anticorpos monoclonais, vacinação materna e vacinas pediátricas candidatas, foram pesquisados artigos em inglês publicados entre janeiro de 2015 e maio de 2026 nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Embase, Web of Science e Scopus, com estudos adicionais identificados por meio da revisão de referências. 

Para a revisão sistemática, foi usada a abordagem GRADE (Grades of Recommendation, Assessment, Development and Evaluation) para avaliar o grau de evidência e formular as recomendações, e as análises seguiram as recomendações do PRISMA. O efeito relativo foi estimado por intervalo de confiança de 95%. A heterogeneidade foi avaliada por meio de I², τ² e do teste Q de Cochran. Os efeitos de estudos pequenos foram avaliados por meio de gráficos de funil e do teste de Egger, quando havia pelo menos 10 estudos disponíveis. O risco de viés foi avaliado pela ferramenta ROBINS-I para estudos de intervenção não randomizados. 

Achados clínicos e profilaxias atualmente discutidas 

Dos 822 estudos identificados, 43 estudos foram analisados na revisão. 

A infecção por VSR é a principal causa de bronquiolite em lactentes e pode se manifestar desde sintomas de vias aéreas superiores leves até bronquiolite grave ou pneumonia com sibilância e hipoxemia. Um quarto dos pacientes evolui com otite média aguda. Raramente, podem ocorrer apneia, crises convulsivas ou encefalopatia. A ribavirina foi aprovada para tratamento de bronquiolite por VSR pelo FDA em pacientes com imunodepressão grave. 

As três profilaxias atualmente usadas para prevenir a doença grave por VSR em lactentes têm como alvo epítopos preferenciais ou específicos da conformação de pré-fusão do VSR: o nirsevimabe liga-se ao sítio Ø, o clesrovimabe liga-se ao sítio IV e a vacina materna bivalente com subunidade F estabilizada na pré-fusão (RSVpreF; RSV-A + RSV-B) induz anticorpos neutralizantes policlonais de alto título contra todos os domínios de pré-fusão, direcionados predominantemente aos sítios Ø e V. Em contrapartida, o palivizumabe, que visava apenas o sítio II, de menor potência, foi amplamente substituído por essas profilaxias de nova geração. 

Anticorpos monoclonais de longa duração 

Quanto aos anticorpos de longa duração: 

O nirsevimabe (Beyfortus) foi o primeiro a ser licenciado, cuja dose é única, intramuscular, conforme o peso: 50 mg para lactentes com menos de 5 kg e 100 mg para lactentes com 5 kg ou mais. No estudo de fase 3 MELODY, reduziu em 74,5% (IC de 95%: 49,6–87,1%) a incidência de infecção do trato respiratório inferior por VSR com necessidade de assistência médica em um período de 150 dias; 

O clesrovimabe (Enflonsia) foi aprovado pelo FDA, nos Estados Unidos, em junho de 2025, e pela Anvisa no final de março de 2026. Tem como alvo o sítio IV na proteína F em pré-fusão e é administrado em dose única intramuscular de 105 mg, independentemente do peso. No estudo de fase 3 CLEVER, o medicamento reduziu em 60,4% (IC de 95%: 44,1–71,9%) a infecção do trato respiratório inferior por VSR com necessidade de assistência médica ao longo de 5 meses e em 84,2% (IC de 95%: 66,6–92,6%) as hospitalizações por VSR. 

Saiba mais: Anvisa aprova novo medicamento para vírus sincicial respiratório (VSR) 

Vacinação materna contra VSR 

Já a vacina da gestante Abrysvo, que deve ser aplicada de 32 a 36 semanas de idade gestacional (IG), reduziu os casos graves de bronquiolite em 82,4% (IC 95%: 57,5–93,9) em 90 dias e em 70% em 180 dias. 

Eficácia em vida real na prevenção de hospitalizações 

Para avaliar a eficácia na prevenção de hospitalizações de lactentes após a aprovação das profilaxias nos mercados mundiais, em condições de vida real, foi feita uma meta-análise que incluiu: 

39 estudos sobre nirsevimabe, cuja meta-análise combinada de efeitos aleatórios demonstrou alta eficácia do nirsevimabe contra a hospitalização associada ao VSR, com uma estimativa de eficácia combinada de 80,9% (IC de 95%: 77,3%–83,9%). As estimativas dos estudos individuais variaram de 53,5% a 98,0%, com baixa heterogeneidade entre os estudos (I² = 0,9%; τ² = 0,155; p do teste Q de Cochran < 0,001), embora todas as estimativas tenham favorecido o nirsevimabe; 

5 estudos de vacinação de gestantes com Abrysvo, cuja meta-análise demonstrou eficácia significativa em condições de vida real, com uma estimativa combinada de 79,1% (IC de 95%: 73,6%–83,5%). As estimativas dos estudos individuais variaram de 70,0% a 82,2%, sem evidência estatística de heterogeneidade entre os estudos (I² = 0%; τ² = 0,017; p do teste Q de Cochran = 0,444); 

As evidências de comparação direta limitaram-se a um estudo head-to-head, realizado após o licenciamento, no qual o nirsevimabe foi associado a um risco menor de hospitalização por VSR comparado à vacinação de gestantes com Abrysvo (razão de risco ajustada: 0,74; IC de 95%: 0,61–0,88). 

Não foi possível avaliar, na meta-análise, o clesrovimabe (Enflonsia), devido ao pouco tempo de disponibilidade no mercado. 

Saiba mais: Estudo italiano compara o uso do nirsevimabe em internações por bronquiolite 

Pontos que limitam a interpretação dos dados 

Nenhum estudo após a liberação das profilaxias no mercado mundial estratificou a eficácia vacinal conforme a idade gestacional de nascimento dos lactentes. As coortes dos Estados Unidos e da Argentina só liberam a aplicação da Abrysvo de IG [Comentário editorial: informação precisa ser confirmada na fonte; a frase está incompleta no texto original.], enquanto apenas as coortes europeias permitem a aplicação da Abrysvo a partir de 28 semanas. Além disso, a vacina materna depende da passagem de anticorpos maternos por via placentária. Enquanto isso, a aplicação do nirsevimabe ou do clesrovimabe pode ser feita no primeiro contato com a equipe de saúde, promove imunização passiva e independe da passagem transplacentária. 

Além da análise da eficácia clínica, em nível populacional, o impacto das profilaxias contra o VSR depende do preço das vacinas e dos anticorpos e de alta cobertura vacinal, sendo que o preço de 2025–2026 acordado pelo CDC dos Estados Unidos foi de US$ 560 para o nirsevimabe e US$ 445–480 para o clesrovimabe. 

Mensagem prática para pediatras 

A vacina Abrysvo em gestantes e os anticorpos nirsevimabe e clesrovimabe têm alta eficácia na prevenção de hospitalizações por VSR. No Brasil, o Ministério da Saúde disponibiliza a vacinação com Abrysvo nas Clínicas da Família gratuitamente a partir da 28ª semana de IG desde o final de 2025 e o nirsevimabe para neonatos prematuros até 36 semanas e 6 dias, e para lactentes de até 23 meses com comorbidades específicas: cardiopatia congênita, broncodisplasia, imunodeprimidos graves, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular e anomalias congênitas das vias aéreas. O nirsevimabe pode ser feito para outros lactentes na rede particular, mas custa cerca de R$ 3.600,00, o que ainda é pouco acessível para a maioria das famílias. Na prática, começamos a observar uma redução de casos graves de bronquiolite por VSR nas Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica, mas essa redução precisa ser melhor documentada por pesquisas.

Autoria

Foto de Renata Carneiro

Renata Carneiro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pediatra pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Intensivista pediátrica pelo INCA e AMIB, mestra em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ. Além da atuação na Afya, atende em consultório particular e é servidora plantonista do CTI do IPPMG-UFRJ e servidora do CEFET-RJ.

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Referências bibliográficas

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