A placenta prévia e o espectro da placenta acreta (PAS) permanecem entre as principais causas de hemorragia obstétrica grave, parto prematuro, transfusão sanguínea e histerectomia. Nos últimos anos, a incidência dessas condições aumentou paralelamente às taxas de cesariana, tornando seu diagnóstico precoce e o planejamento do parto ainda mais relevantes. Publicada em 2026, a atualização da Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) revisou as evidências disponíveis até junho de 2025. Mais do que modificar recomendações, a diretriz consolida mudanças que vinham sendo incorporadas à prática clínica e reforça a importância do cuidado multidisciplinar.

Ultrassonografia transvaginal consolida seu papel
A atualização reforça que a ultrassonografia transvaginal deve ser considerada o método de escolha para confirmar placenta baixa ou placenta prévia no terceiro trimestre. Além de apresentar maior acurácia que a via abdominal, o exame é considerado seguro, inclusive na presença de sangramento vaginal. A diretriz também consolida a definição de placenta baixa como aquela cuja borda placentária se encontra a menos de 20 mm do orifício interno do colo uterino, recomendando nova avaliação no terceiro trimestre para as pacientes em que essa alteração persiste.
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A via de parto passa a ser mais individualizada
Um dos pontos de maior interesse clínico é o fortalecimento da individualização da via de parto. A diretriz reconhece que mulheres assintomáticas cuja borda placentária permanece entre 11 e 20 mm do orifício interno após 36 semanas podem ser candidatas à tentativa de parto vaginal, desde que adequadamente selecionadas e acompanhadas. Por outro lado, gestantes com placenta prévia persistente continuam apresentando indicação de cesariana programada, com a idade gestacional sendo definida conforme a evolução clínica e os episódios de sangramento.
Menos intervenções rotineiras no manejo do PAS
Talvez a principal mensagem da nova diretriz seja que nem toda tecnologia melhora os desfechos. Os autores não recomendam o uso rotineiro de stents ureterais, ligadura profilática das artérias ilíacas internas ou procedimentos de radiologia intervencionista, como balões de oclusão arterial. Essas estratégias podem ser úteis em situações específicas e em centros especializados, mas as evidências atuais não justificam sua utilização sistemática.
Outra recomendação importante é evitar a tentativa de remoção manual da placenta quando houver suspeita de PAS. Nesses casos, o planejamento cirúrgico deve priorizar a redução do sangramento e ser conduzido por equipes experientes.
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O cuidado vai além da cirurgia
A atualização também amplia o olhar para aspectos frequentemente negligenciados no cuidado dessas pacientes. Recomenda que mulheres e suas parcerias participem das decisões relacionadas ao parto, anestesia e possíveis intervenções cirúrgicas. Além disso, ressalta a importância do suporte psicológico antes e após o nascimento, considerando o elevado impacto emocional associado ao PAS, especialmente nas pacientes submetidas à histerectomia ou tratamento conservador.
Mensagem prática
Esta atualização consolida uma prática obstétrica mais criteriosa e individualizada. Entre as principais mensagens estão a padronização da avaliação ultrassonográfica, a possibilidade de tentativa de parto vaginal em mulheres cuidadosamente selecionadas com placenta baixa, o uso mais criterioso de procedimentos complementares no manejo do PAS e a valorização da atuação de equipes multidisciplinares, incluindo o suporte psicológico às pacientes e seus familiares. Mais do que incorporar novas tecnologias, a diretriz reforça que os melhores resultados continuam dependendo do diagnóstico antenatal, do planejamento do parto e da experiência da equipe assistencial.
Autoria

Ronaldo Oliveira
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Vale do Rio Verde, com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Montes Claros. Professor da Universidade de Ribeirão Preto. Medicina Fetal pela FMRP - USP. Mestre e Doutor pela FMRP - USP.
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