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Ginecologia e Obstetrícia14 março 2026

Volume institucional e desfechos da histerectomia por acretismo placentário

Estudo avalia a relação entre volume institucional nos desfechos maternos na histerectomia por acretismo placentário.

Um artigo recém-publicado na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, com o título em inglês “Hysterectomy for placenta accreta spectrum disorder: Impact of institutional surgical volume on patient outcomes”, teve como objetivo avaliar a influência do volume cirúrgico institucional nos desfechos maternos de pacientes submetidas à histerectomia por espectro de acretismo placentário (EAP), além de analisar tendências temporais no manejo desses casos. 

O EAP é uma das complicações obstétricas mais graves e potencialmente fatais, fortemente associado ao aumento das taxas de cesariana. Caracteriza-se pela invasão anômala da placenta no miométrio ou em estruturas adjacentes, podendo resultar em hemorragia maciça, necessidade de transfusão sanguínea e elevada morbidade materna. Em razão da elevada complexidade cirúrgica e do risco de complicações, recomenda-se que o manejo desses casos seja realizado em centros especializados e com equipes multidisciplinares experientes. 

Metodologia 

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo de base populacional realizado em Ontário, Canadá, incluindo mulheres de 18 a 50 anos submetidas à histerectomia por EAP entre 2003 e 2022. Foram identificados 778 casos em bases de dados administrativas de saúde. As instituições foram classificadas como centros de alto volume quando realizavam nove ou mais histerectomias por EAP ao ano. O desfecho primário foi morbidade materna grave composta, incluindo transfusão maciça, admissão em unidade de terapia intensiva, complicações cirúrgicas e tempo de internação hospitalar. 

Resultados 

Foram incluídas 778 mulheres submetidas à histerectomia por EAP, das quais 151 (19,4%) foram atendidas em centros de alto volume cirúrgico e 627 (80,6%) em centros de menor volume. Observou-se diferença significativa nos desfechos maternos entre os grupos. A ocorrência de morbidade materna grave composta foi substancialmente menor nos centros de alto volume, com taxa de 45,0%, em comparação a 71,7% nos centros de baixo volume, correspondendo a redução relativa de risco de 41% (aRR 0,59; IC95% 0,49–0,72). 

Também houve redução significativa na necessidade de transfusão maciça, com risco 43% menor nos centros de maior volume (aRR 0,57; IC95% 0,47–0,70), além de menor probabilidade de admissão em unidade de terapia intensiva (aRR 0,30; IC95% 0,15–0,58). O tempo médio de internação hospitalar foi significativamente inferior nos serviços com maior experiência cirúrgica, com média de 1,88 dias, em comparação a 3,90 dias nos centros de menor volume (p<0,0001). 

Adicionalmente, a análise demonstrou associação direta entre experiência institucional acumulada e melhores desfechos: cada histerectomia adicional por acretismo placentário realizada no ano anterior esteve relacionada a redução aproximada de 3% no risco de morbidade materna grave (aRR 0,97; IC95% 0,96–0,98), sugerindo que o aumento da experiência da equipe e da instituição contribui progressivamente para a melhora dos resultados maternos. 

Conclusão 

A realização de histerectomia por EAP em centros de maior volume cirúrgico está associada a redução significativa de morbidade materna grave, menor necessidade de transfusão e menor tempo de internação. Os achados reforçam a importância da centralização do atendimento em serviços especializados e com equipes multidisciplinares experientes, estratégia fundamental para aumentar a segurança materna e melhorar os desfechos em casos de acretismo placentário.  

Autoria

Foto de Ênio Luis Damaso

Ênio Luis Damaso

Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).

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