Um artigo recém-publicado na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, com o título em inglês “Hysterectomy for placenta accreta spectrum disorder: Impact of institutional surgical volume on patient outcomes”, teve como objetivo avaliar a influência do volume cirúrgico institucional nos desfechos maternos de pacientes submetidas à histerectomia por espectro de acretismo placentário (EAP), além de analisar tendências temporais no manejo desses casos.
O EAP é uma das complicações obstétricas mais graves e potencialmente fatais, fortemente associado ao aumento das taxas de cesariana. Caracteriza-se pela invasão anômala da placenta no miométrio ou em estruturas adjacentes, podendo resultar em hemorragia maciça, necessidade de transfusão sanguínea e elevada morbidade materna. Em razão da elevada complexidade cirúrgica e do risco de complicações, recomenda-se que o manejo desses casos seja realizado em centros especializados e com equipes multidisciplinares experientes.

Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo de base populacional realizado em Ontário, Canadá, incluindo mulheres de 18 a 50 anos submetidas à histerectomia por EAP entre 2003 e 2022. Foram identificados 778 casos em bases de dados administrativas de saúde. As instituições foram classificadas como centros de alto volume quando realizavam nove ou mais histerectomias por EAP ao ano. O desfecho primário foi morbidade materna grave composta, incluindo transfusão maciça, admissão em unidade de terapia intensiva, complicações cirúrgicas e tempo de internação hospitalar.
Resultados
Foram incluídas 778 mulheres submetidas à histerectomia por EAP, das quais 151 (19,4%) foram atendidas em centros de alto volume cirúrgico e 627 (80,6%) em centros de menor volume. Observou-se diferença significativa nos desfechos maternos entre os grupos. A ocorrência de morbidade materna grave composta foi substancialmente menor nos centros de alto volume, com taxa de 45,0%, em comparação a 71,7% nos centros de baixo volume, correspondendo a redução relativa de risco de 41% (aRR 0,59; IC95% 0,49–0,72).
Também houve redução significativa na necessidade de transfusão maciça, com risco 43% menor nos centros de maior volume (aRR 0,57; IC95% 0,47–0,70), além de menor probabilidade de admissão em unidade de terapia intensiva (aRR 0,30; IC95% 0,15–0,58). O tempo médio de internação hospitalar foi significativamente inferior nos serviços com maior experiência cirúrgica, com média de 1,88 dias, em comparação a 3,90 dias nos centros de menor volume (p<0,0001).
Adicionalmente, a análise demonstrou associação direta entre experiência institucional acumulada e melhores desfechos: cada histerectomia adicional por acretismo placentário realizada no ano anterior esteve relacionada a redução aproximada de 3% no risco de morbidade materna grave (aRR 0,97; IC95% 0,96–0,98), sugerindo que o aumento da experiência da equipe e da instituição contribui progressivamente para a melhora dos resultados maternos.
Conclusão
A realização de histerectomia por EAP em centros de maior volume cirúrgico está associada a redução significativa de morbidade materna grave, menor necessidade de transfusão e menor tempo de internação. Os achados reforçam a importância da centralização do atendimento em serviços especializados e com equipes multidisciplinares experientes, estratégia fundamental para aumentar a segurança materna e melhorar os desfechos em casos de acretismo placentário.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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