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Ginecologia e Obstetrícia5 outubro 2026

Infertilidade feminina: conduta clínica, propedêutica e cuidado multiprofissional

A infertilidade afeta 1 em cada 6 pessoas. Entenda como a idade influencia o prognóstico, como organizar a avaliação inicial do casal e quando encaminhar ao especialista.

Resumo

A infertilidade é uma condição do sistema reprodutivo definida pela ausência de gestação após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e desprotegidas, com impacto clínico, emocional e social relevante para indivíduos e casais.1,2 Estimativas globais indicam que aproximadamente uma em cada seis pessoas será afetada por infertilidade ao longo da vida, o que reforça a necessidade de acesso oportuno à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.2 Na prática ginecológica, o aconselhamento reprodutivo deve integrar orientação sobre idade, estilo de vida, planejamento gestacional, limitações das técnicas de reprodução assistida e preservação de fertilidade.3,4,5 A idade feminina permanece como um dos principais determinantes do prognóstico reprodutivo, em razão da redução progressiva da quantidade e da qualidade oocitária e do aumento do risco de perdas gestacionais.6,7,8 A avaliação inicial deve ser sistemática, simultânea para ambos os parceiros quando aplicável, custo-efetiva e direcionada aos fatores mais prevalentes, com encaminhamento ao especialista quando houver idade avançada, suspeita de fator tubário, alteração seminal importante, baixa reserva ovariana ou falha da abordagem inicial.1,4,5,9

Introdução

A infertilidade deve ser compreendida como uma condição clínica e de saúde pública, pois envolve a capacidade reprodutiva, o projeto de parentalidade, o bem-estar emocional e o acesso equitativo ao cuidado em saúde sexual e reprodutiva.2,10 A Organização Mundial da Saúde estima prevalência global de infertilidade ao longo da vida de 17,5%, com magnitude semelhante entre países de alta renda e países de baixa e média renda.2 Embora a infertilidade possa ser apresentada como queixa feminina no consultório, a investigação deve considerar o casal, porque fatores femininos, masculinos, mistos e inexplicados podem contribuir para a ausência de gestação.1,4,5,9 A abordagem contemporânea exige que o ginecologista traduza o conceito de relógio biológico em informações quantitativas, compreensíveis e individualizadas, evitando tanto alarmismo quanto falsas expectativas em relação à reprodução assistida.4,6,8 Este artigo converte o roteiro educacional da masterclass em um texto científico orientado à prática clínica, com foco na condução inicial da infertilidade feminina no atendimento ginecológico.1,4,5

Epidemiologia, impacto e fatores associados

O declínio global das taxas de fecundidade resulta de interação complexa entre urbanização, postergação da parentalidade, maior escolaridade feminina, transformações socioeconômicas, fatores ambientais e estilo de vida.3 No contexto clínico, a infertilidade pode decorrer de fatores femininos, fatores masculinos, associação entre ambos ou ausência de causa identificável após investigação adequada.1,5,9,11 Entre os fatores femininos, causas ovulatórias, tubárias, uterinas, endometriose e redução da reserva ovariana devem ser avaliadas conforme história clínica, exame físico e achados iniciais.1,4,5,9 O sofrimento associado à infertilidade pode incluir ansiedade, estresse, sensação de perda de controle e repercussões conjugais, econômicas e sociais, o que justifica acolhimento estruturado desde a primeira consulta.2,10 A jornada assistencial deve reconhecer que a infertilidade afeta pessoas com diferentes arranjos familiares e necessidades reprodutivas, incluindo casais heterossexuais, casais homoafetivos, mulheres sem parceiro masculino, pessoas trans e pacientes que necessitam de gametas doados.1,10

Idade feminina e prognóstico reprodutivo

A postergação da maternidade é um dos principais determinantes do aumento da demanda por avaliação de fertilidade, porque a idade feminina está diretamente relacionada ao declínio da fecundidade.3,4,8 A capacidade reprodutiva feminina diminui de forma progressiva antes da menopausa, com perda média da fertilidade cerca de uma década antes da cessação definitiva dos ciclos menstruais.8 A redução do potencial reprodutivo após os 35 anos reflete a diminuição quantitativa do pool folicular e a perda qualitativa da competência oocitária.6,7,8 O aumento de aneuploidias embrionárias com a idade materna contribui para menores taxas de gestação evolutiva e maior risco de abortamento espontâneo.6,8 A tecnologia reprodutiva pode aumentar a chance de encontro entre gametas e fertilização, mas não reverte integralmente o envelhecimento biológico dos oócitos autólogos.6,7,8 A disfunção mitocondrial, o estresse oxidativo, as alterações genômicas, o encurtamento telomérico, a senescência celular e a perda de proteostase são mecanismos implicados no envelhecimento ovariano e na piora da qualidade oocitária.7

Aconselhamento reprodutivo na consulta ginecológica

A consulta ginecológica de rotina é uma oportunidade estratégica para perguntar sobre planos de gestação futura, orientar planejamento reprodutivo e identificar fatores modificáveis de risco para infertilidade.4 O aconselhamento deve incluir informações sobre idade, frequência de relações sexuais, janela fértil, tabagismo, álcool, peso corporal, atividade física, comorbidades, uso de medicamentos e exposição a tratamentos gonadotóxicos.3,4,5,9 A orientação pré-concepcional deve ser clara, baseada em evidências e ajustada ao momento de vida da paciente, para que decisões sobre gestação ou preservação de fertilidade sejam tomadas de forma informada.1,4 A preservação de fertilidade pode ser discutida em contextos eletivos relacionados à idade, em doenças que ameaçam a função ovariana e antes de tratamentos oncológicos ou gonadotóxicos.1,4,7 A conversa sobre limites da reprodução assistida deve enfatizar que idade, reserva ovariana, qualidade oocitária, fator masculino, fator tubário, endometriose e condições uterinas influenciam as probabilidades de sucesso.1,4,5,9

Quando iniciar a investigação

Na ausência de sinais de alerta, a investigação de infertilidade deve ser iniciada após 12 meses de tentativas em mulheres com menos de 35 anos.1,4,5,9 Em mulheres com 35 anos ou mais, a investigação deve ser iniciada após 6 meses de tentativas, pois a janela reprodutiva útil é mais estreita.1,4,5 Em mulheres com mais de 40 anos, a avaliação e o tratamento devem ser considerados de forma mais imediata, devido ao declínio acelerado do prognóstico reprodutivo.1,4,6 A investigação deve ser antecipada diante de oligomenorreia, amenorreia, ciclos muito irregulares, suspeita de doença uterina, tubária ou peritoneal, endometriose, histórico de quimioterapia ou radioterapia, suspeita de baixa reserva ovariana, disfunção sexual ou fator masculino conhecido.1,9

Tabela 1. Momento recomendado para iniciar a investigação de infertilidade.1,4,5

Idade da parceiraQuando investigarRacional clínico
< 35 anosApós 12 meses de tentativas regulares sem contracepçãoMaior probabilidade cumulativa de concepção espontânea no primeiro ano
35-39 anosApós 6 meses de tentativas regulares sem contracepçãoDeclínio progressivo da fecundidade e necessidade de reduzir atraso diagnóstico
≥ 40 anosAvaliação e tratamento mais imediatosMenor reserva funcional, maior risco de aneuploidia e maior risco de perda gestacional

Propedêutica mínima no consultório

A avaliação inicial deve ser conduzida de modo sistemático, rápido e custo-efetivo, priorizando métodos menos invasivos capazes de identificar as causas mais comuns de infertilidade.1 Quando houver parceiro masculino, a avaliação feminina e masculina deve começar simultaneamente, porque o fator masculino é prevalente e pode modificar a estratégia terapêutica.1,5,9 A anamnese deve abranger idade, duração da infertilidade, gestações prévias, regularidade menstrual, histórico de cirurgias, infecções pélvicas, endometriose, dor pélvica, comorbidades, medicamentos, exposições ocupacionais, hábitos de vida e história familiar.1,4,5,9 O exame físico deve ser direcionado a achados que possam impactar a fertilidade, incluindo índice de massa corporal, sinais de hiperandrogenismo, alterações tireoidianas, galactorreia, dor pélvica, massas anexiais e suspeita de alterações uterinas.1,9 A ultrassonografia transvaginal é componente central da avaliação inicial, pois permite avaliar útero, ovários, contagem de folículos antrais e achados sugestivos de endometriose ou outras alterações pélvicas.1,4,5 A permeabilidade tubária deve ser avaliada por métodos como histerossalpingografia ou histerossonografia, conforme disponibilidade, história clínica e necessidade de investigação da cavidade uterina.1,4,5 A avaliação ovulatória pode ser baseada em história menstrual em mulheres com ciclos regulares, mas deve ser aprofundada em casos de oligomenorreia, amenorreia ou sinais clínicos de anovulação.1,9 A reserva ovariana pode ser estimada por hormônio antimülleriano, contagem de folículos antrais e FSH basal, mas esses testes devem ser interpretados no contexto da idade e não devem ser usados isoladamente para prever fertilidade espontânea.1,4,5

Tabela 2. Componentes práticos da avaliação inicial do casal infértil.1,4,5

DimensãoAvaliação inicialObservação prática
História clínicaHistória médica, reprodutiva, sexual, menstrual, obstétrica, familiar e de estilo de vidaDireciona exames e evita investigação excessiva
Fator ovulatórioHistória menstrual e, quando indicado, progesterona, TSH, prolactina e avaliação hormonal complementarCiclos regulares sugerem ovulação na maioria das pacientes
Reserva ovarianaAMH, FSH basal e contagem de folículos antraisInterpretar sempre com idade e objetivo terapêutico
Fator uterino/tubárioUltrassonografia transvaginal e avaliação de permeabilidade tubáriaEscolher método conforme contexto clínico
Fator masculinoEspermograma inicialIniciar em paralelo à avaliação feminina quando houver parceiro masculino

Infertilidade sem causa aparente

A infertilidade sem causa aparente é um diagnóstico de exclusão, estabelecido quando a investigação padrão não identifica alterações relevantes nos sistemas reprodutivos feminino e masculino.11 A ausência de causa identificável não significa ausência de fator biológico, mas indica que os métodos diagnósticos disponíveis não demonstraram alteração suficiente para explicar a infertilidade.11 A diretriz europeia de infertilidade sem causa aparente recomenda padronizar o diagnóstico, evitar exames adicionais sem benefício demonstrado e considerar inseminação intrauterina associada à estimulação ovariana como opção de primeira linha em muitos cenários.11 A decisão terapêutica deve considerar idade feminina, duração da infertilidade, histórico obstétrico, reserva ovariana, preferências do casal, custo, acesso e risco de gestação múltipla.1,9,11

Encaminhamento para reprodução assistida

O ginecologista pode conduzir orientação, investigação básica, cuidados pré-concepcionais e parte do manejo inicial, mas deve reconhecer situações nas quais o atraso no encaminhamento reduz a chance de nascido vivo.1,4,5 O encaminhamento ao especialista é recomendado quando há idade feminina avançada, baixa reserva ovariana, fator tubário, alterações seminais relevantes, endometriose moderada ou grave, falha de conduta expectante, infertilidade sem causa aparente persistente ou necessidade de técnicas de alta complexidade.1,4,5,11 A indicação de reprodução assistida deve ser explicada em linguagem realista, com discussão de taxas de sucesso, riscos, custos, carga emocional, possibilidade de repetição de ciclos e alternativas terapêuticas.4,10,11 A fertilização in vitro pode ser necessária em casos de obstrução tubária, fator masculino importante, falha de tratamentos de baixa complexidade, idade avançada ou necessidade de avaliação genética embrionária em contextos específicos.1,4,5,9

Cuidado multiprofissional e sofrimento psíquico

A infertilidade atravessa dimensões biomédicas, emocionais, conjugais, sociais, econômicas e éticas, exigindo cuidado centrado no casal ou na pessoa que busca tratamento.2,10 O acompanhamento multiprofissional pode envolver ginecologia, reprodução humana, andrologia, embriologia, enfermagem, psicologia, nutrição, genética, serviço social e apoio jurídico, conforme a complexidade do caso.10 O suporte psicológico deve ser oferecido de modo proativo, porque a investigação e o tratamento podem gerar ansiedade, frustração, luto reprodutivo, conflitos conjugais e dificuldade de adesão.2,10 A individualização terapêutica melhora a experiência do cuidado ao alinhar expectativas, reduzir exames e intervenções desnecessárias e favorecer a tomada de decisão compartilhada.4,5,10 A comunicação clínica deve validar o sofrimento, explicar incertezas, separar probabilidade de promessa e transformar dados técnicos em escolhas compreensíveis para a paciente e o casal.4,10

Preservação de fertilidade

A preservação de fertilidade deve ser abordada sempre que houver risco atual ou futuro de comprometimento da função ovariana, incluindo idade reprodutiva avançada, doenças sistêmicas, doenças genéticas, tratamentos gonadotóxicos e planejamento reprodutivo tardio.1,4,7 A criopreservação de oócitos pode ser discutida como estratégia eletiva em mulheres que desejam postergar a maternidade, desde que a orientação explicite que o procedimento aumenta as possibilidades futuras, mas não garante gestação.4,6,8 Em pacientes oncológicas ou submetidas a terapias potencialmente gonadotóxicas, a discussão deve ocorrer antes do início do tratamento sempre que clinicamente possível.1,7 A decisão deve considerar idade, reserva ovariana, urgência terapêutica, prognóstico clínico, valores pessoais, acesso ao tratamento e suporte emocional.1,4,10

Aplicação prática para o ginecologista

  • Perguntar ativamente sobre desejo reprodutivo futuro em consultas de rotina e registrar planos de curto, médio e longo prazo.4
  • Explicar que a idade feminina é um fator prognóstico central e que a redução da fertilidade começa antes da menopausa.6,8
  • Iniciar investigação após 12 meses em mulheres com menos de 35 anos, após 6 meses em mulheres com 35 anos ou mais e imediatamente em mulheres com mais de 40 anos ou com fatores de risco.1,4,5
  • Solicitar propedêutica básica de forma simultânea para ambos os parceiros quando houver parceiro masculino.1,5,9
  • Evitar exames invasivos ou de baixa utilidade na avaliação inicial quando não houver indicação clínica específica.1,4,5
  • Encaminhar precocemente ao especialista quando houver idade avançada, baixa reserva ovariana, fator tubário, fator masculino importante, endometriose relevante ou falha da abordagem inicial.1,4,5
  • Incluir suporte emocional e cuidado multiprofissional como parte do plano terapêutico, e não apenas como recurso tardio após falhas repetidas.2,10

Conclusão

A condução da infertilidade feminina exige que o ginecologista una precisão técnica, comunicação realista e sensibilidade ao impacto emocional do diagnóstico.1,4,10 O relógio biológico deve ser traduzido em aconselhamento objetivo sobre idade, reserva ovariana, qualidade oocitária, tempo de tentativa e limites das tecnologias disponíveis.6,7,8 A investigação inicial deve ser oportuna, simultânea para o casal, orientada por risco e suficiente para direcionar condutas sem atrasar o encaminhamento quando indicado.1,4,5,9 O cuidado multiprofissional amplia a qualidade da assistência ao integrar diagnóstico, tratamento, apoio emocional, educação em saúde e tomada de decisão compartilhada.2,10

Autoria

Foto de Valéria Datrino Horta

Valéria Datrino Horta

Ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana. É diretora médica da Dat Baby, onde lidera uma equipe multidisciplinar dedicada à jornada reprodutiva. Mestre pela UFF, com pesquisa em desfechos obstétricos e fertilização com oócitos próprios e doados, e doutoranda em Bioética pela Universidade do Porto. Coordena o curso de capacitação em LARC (DIU e implante subdérmico).

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Referências bibliográficas

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