Homens trans, pessoas transmasculinas e pessoas não binárias que foram designadas mulheres ao nascimento vêm buscando cada vez mais o consultório ginecológico, não somente para as terapias de afirmação de gênero, mas também para avaliação e tratamento de questões sexuais, ginecológicas e reprodutivas. O uso da testosterona na terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG) também exerce efeitos sobre os órgãos reprodutivos, que, quando preservados, podem levar a sintomas e queixas de origem ginecológica.
Dados recentes mostram que menos de 41% desses indivíduos são submetidos à histerectomia, enquanto uma proporção ainda menor realiza cirurgias genitais masculinizantes. Essas escolhas são influenciadas por fatores como acesso aos serviços de saúde, cobertura dos sistemas de saúde e aspectos legais relacionados ao cuidado de afirmação de gênero, que variam entre diferentes países. Nesse cenário, o ginecologista desempenha papel fundamental, oferecendo desde aconselhamento contraceptivo e reprodutivo até rastreamento de neoplasias, manejo de sintomas relacionados à terapia hormonal e tratamento de doenças ginecológicas.
Com o objetivo de fornecer uma visão abrangente sobre a função e as disfunções ginecológicas nessa população, foi publicada no American Journal of Obstetrics & Gynecology uma revisão sistemática, buscando apoiar uma assistência baseada em evidências, orientar a tomada de decisão clínica e identificar prioridades para futuras pesquisas nessa área.
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Como a revisão sistemática foi conduzida?
A revisão sistemática foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA e registrada previamente no PROSPERO. Os autores pesquisaram estudos publicados nas bases PubMed, Embase e Web of Science até setembro de 2025, incluindo pesquisas que avaliaram os efeitos da terapia hormonal com testosterona sobre a saúde ginecológica e sexual de pessoas transmasculinas. Foram excluídos estudos sobre fertilidade, câncer, alterações histopatológicas e outras condições não relacionadas ao objetivo da revisão.
Ao todo, foram incluídos 57 estudos. Devido à grande diversidade entre os trabalhos quanto ao desenho e aos desfechos avaliados, não foi realizada metanálise. Os resultados foram organizados em cinco temas principais: alterações menstruais, contracepção, dor pélvica, alterações vulvovaginais e função sexual. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por dois revisores independentes utilizando as ferramentas do Joanna Briggs Institute (JBI).
Testosterona, amenorreia e contracepção
O principal ponto foi reforçar que a THAG com testosterona não deve ser interpretada como método contraceptivo. Embora a testosterona produza amenorreia na maioria das pessoas, ela não bloqueia completamente a ovulação. Os autores reforçam evidências recentes mostrando que até um terço desses indivíduos, mesmo que em amenorreia, ainda podem ovular. Há uma predileção observada pelo uso de métodos de barreira e métodos de longa duração.
A cessação do sangramento ocorreu na maioria dos usuários em uso de testosterona, com taxas que variaram de 50% a 100% após seis meses de tratamento e quase 100% em torno de um ano. O sangramento de escape foi observado em 18% a 34% dos casos, geralmente após o segundo ano de tratamento. Esses episódios não possuíram etiologia definida, mas se associaram a níveis mais baixos de testosterona sérica, maior IMC, uso de testosterona gel como THAG e níveis elevados de estradiol. Nesses casos, os autores sugerem otimizar a terapia hormonal antes de considerar outras intervenções, como o uso de progestagênios para controle do sangramento ou cirurgias.
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Sangramento, dor pélvica e queixas vulvovaginais
Segundo os autores, a presença de dor pélvica é comum, porém pouco estudada. Entre as hipóteses etiológicas, os autores apontam a atrofia genital, espasmos da musculatura do assoalho pélvico, diagnóstico de endometriose, causas urológicas e processos de sensibilização central.
Em relação ao efeito da testosterona no epitélio vulvovaginal, a testosterona provoca afinamento epitelial e diminuição da lubrificação. Tais alterações podem resultar em alteração do microbioma vaginal, maior frequência de ressecamento e desconforto durante a relação sexual e na região genital. Outro ponto observado nos estudos é que essas pessoas apresentam menores concentrações cervicovaginais de tenofovir e menor abundância de Lactobacillus quando comparadas a mulheres cisgênero e a indivíduos transmasculinos não expostos à testosterona.
Função sexual durante o uso de testosterona
Em relação à função sexual, normalmente observa-se um aumento do desejo e da satisfação sexual, porém alguns usuários podem desenvolver dispareunia, ressecamento e dificuldade durante a penetração. O aumento no desejo sexual foi bem reportado no início do tratamento hormonal, embora um estudo tenha identificado um retorno à percepção basal com o passar do tempo.
O que esses achados sugerem para a prática?
Um dos principais alertas do estudo é que a amenorreia não deve ser interpretada como sinônimo de anovulação ou infertilidade, reforçando que a testosterona não é um método contraceptivo e que o aconselhamento reprodutivo deve fazer parte da rotina de atendimento. Vale ressaltar que há qualquer contraindicação de método hormonais para pessoas que utilizam testosterona, conforme diversos outros estudos já apresentaram.
Além disso, a abordagem da consulta ginecológica deve focar também em queixas relacionadas aos órgãos genitais e não somente ao processo de afirmação de gênero hormonal e cirúrgica, chamando a atenção para a prevalência, sobretudo, da dor pélvica.
Apesar do rigor metodológico, da integração de evidências quantitativas e qualitativas e do foco na abordagem prática para ginecologistas, os autores reconhecem que, devido à natureza dos estudos, algumas limitações são inerentes. Muitos estudos eram retrospectivos, com amostras pequenas, ausência de grupo comparador, uso de dados autorreferidos e instrumentos pouco validados para essa população e para pessoas com diversidade de gênero. Isso aumenta o risco de viés de seleção, viés de informação e limita a capacidade de estabelecer relação causal entre testosterona e os desfechos avaliados.
Na prática, isso significa que os resultados são úteis para orientar o raciocínio clínico e levantar sinais de alerta, mas ainda não permitem recomendações definitivas. O artigo é forte como síntese exploratória da literatura, porém a evidência disponível ainda é frágil para responder com segurança sobre causalidade, magnitude real dos riscos e melhores estratégias de manejo.
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Autoria

Sérgio Okano
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.
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