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Ginecologia e Obstetrícia28 abril 2026

Testosterona deve ser suspensa antes da coleta de óvulos em homens trans? 

Revisão avalia se a testosterona pode ser mantida durante a estimulação ovariana em homens trans.
Por Sérgio Okano

O tratamento hormonal é um passo crucial para a afirmação de gênero em pessoas trans, promovendo a aquisição de características do gênero vivenciado. No entanto, com o aumento da procura por preservação da fertilidade e planejamento gestacional por pessoas trans, surgem questionamentos sobre o impacto do uso da testosterona e de seus ésteres sobre a função ovariana, especialmente nas técnicas de reprodução assistida. 

Estudos sugerem que a testosterona pode inibir a ovulação e alterar a morfologia ovariana, mas ainda não está claro o quanto esses efeitos podem ocasionar prejuízo reprodutivo definitivo. Na prática, é comum a suspensão da testosterona antes do estímulo ovariano, conduta que pode causar regressão de características adquiridas e sofrimento psicológico. 

Com base nesse cenário, foi publicada recentemente, na LGBT Health, uma revisão sistemática com o objetivo de identificar os efeitos da monoterapia com testosterona em homens trans durante a estimulação ovariana.  

Veja também: Riscos do uso de terapia hormonal em pessoas trans: evidências atuais

Metodologia 

Como a revisão foi conduzida 

A busca foi realizada em bases de dados como MEDLINE, EMBASE, Cochrane Library, PubMed, CINAHL, Web of Science e ClinicalTrials.gov até outubro de 2024, de acordo com as diretrizes PRISMA. 

Foram incluídos estudos que avaliaram a estimulação ovariana em pacientes em uso de testosterona. O risco de viés foi analisado por meio do checklist do Joanna Briggs Institute. 

Resultados 

Características dos estudos e das pacientes 

A revisão incluiu seis artigos, todos relatos de caso, contemplando a experiência de oito pacientes, com idade média de 27 anos. 

O hormônio anti-mülleriano (AMH) foi reportado em seis pacientes, com média de 8,84 ng/mL, variando de 1,89 a 19,6 ng/mL, sugerindo reserva ovariana preservada. A testosterona basal foi descrita em quatro pacientes, com média de 780,25 ng/dL, variando de 410 a 1.273 ng/dL, compatível com níveis terapêuticos. 

Protocolos utilizados e desfechos reprodutivos 

Entre os protocolos descritos, sete pacientes receberam antagonistas e três receberam letrozol. Oócitos foram preservados em quatro pacientes, embriões foram criopreservados em duas pacientes e duas pacientes utilizaram embriões provenientes de oócitos previamente criopreservados. 

A mediana do número de oócitos recuperados em sete pacientes foi de 20, e a mediana de oócitos criopreservados em seis participantes foi de 22,5. Três transferências embrionárias foram relatadas: duas com embriões congelados e uma a fresco. Todas resultaram em nascidos vivos. 

Interpretação dos achados 

O artigo apresenta uma literatura emergente, embora ainda de baixa qualidade, sobre a manutenção da testosterona durante ciclos de indução da ovulação, tema de grande importância para a população transgênero. 

Apesar do número limitado de participantes, os relatos de caso sugerem recuperação oocitária e criopreservação adequadas. Entretanto, é importante destacar que foram avaliados diferentes protocolos e que os pacientes apresentavam tempo de hormonização heterogêneo e amplo. 

Os dados disponíveis têm alto risco de viés, uma vez que podem ter sido publicados apenas casos bem-sucedidos, além de não haver comparador adequado. Devido ao tamanho amostral, também não foi possível realizar meta-análise. 

Mensagem prática 

Ainda não há evidência suficiente para afirmar, de forma definitiva, se a testosterona deve ser mantida ou suspensa antes da coleta de óvulos em homens trans. No entanto, é importante ressaltar que a suspensão empírica da testosterona também carece de evidências sólidas. 

Na prática, em pacientes com alta disforia associada à suspensão hormonal, a decisão compartilhada pode ser uma possibilidade no planejamento da preservação da fertilidade, considerando riscos, incertezas, sofrimento psicológico e objetivos reprodutivos individuais. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

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Referências bibliográficas

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