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Ginecologia e Obstetrícia4 julho 2026

Hantavírus na gravidez: desfechos materno-fetais e manejo clínico

Revisão discute hantavírus na gravidez, riscos materno-fetais, diagnóstico diferencial e manejo em ambiente intensivo.

O hantavírus representa uma ameaça zoonótica significativa, manifestando-se principalmente sob duas formas clínicas graves: a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR) e a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH). A transmissão ocorre tipicamente pela inalação de aerossóis de excretas de roedores infectados, frequentemente associada a ambientes rurais ou atividades de risco ocupacional. 

Saiba mais: Hantavírus: guia prático de diagnóstico, transmissão e tratamento 

No cenário obstétrico, a infecção impõe desafios diagnósticos importantes, uma vez que as adaptações fisiológicas da gravidez podem confundir o quadro clínico inicial. A gravidade da doença na gestante é um fator determinante, pois o prognóstico fetal está intrinsecamente ligado à estabilidade hemodinâmica e respiratória materna. 

O estudo realizado nos Estados Unidos e publicado em 2026 na revista Obstetrics & Gynecology teve por objetivo sintetizar o conhecimento atual sobre a epidemiologia, os desfechos materno-fetais e as diretrizes de manejo para obstetras frente à infecção por hantavírus durante a gestação. 

Como a revisão avaliou os casos descritos na literatura 

A metodologia do estudo consistiu em uma revisão abrangente e qualitativa de dados provenientes de coortes retrospectivas, séries de casos e relatos individuais globais. Os pesquisadores avaliaram casos envolvendo diferentes cepas, como os vírus Hantaan (HTNV), Puumala (PUUV) e Sin Nombre (SNV), abrangendo diversas regiões geográficas para mapear o comportamento da doença no ciclo gravídico. 

A análise focou na identificação de critérios de gravidade, complicações como insuficiência renal aguda e choque, além de desfechos obstétricos como aborto e parto prematuro. Os autores buscaram diferenciar se os danos fetais decorriam de infecção direta, por transmissão vertical, ou se eram consequências secundárias da falência múltipla de órgãos materna. 

Gravidade materna e possíveis repercussões fetais 

Os resultados demonstraram que a FHSR foi descrita como significativamente mais severa em gestantes do que em não gestantes: 75% versus 35% de casos graves. Um dado relevante foi a incidência de edema pulmonar, que atingiu 75% das grávidas, em comparação a 9,5% no grupo controle. Mortes maternas foram registradas principalmente em infecções pelo vírus SNV, nas quais a falência respiratória é rápida. 

Quanto ao feto, a perda gestacional e a prematuridade foram associadas à gravidade da doença materna, especialmente em quadros de hipoxemia e hipotensão. Embora a maioria dos estudos não tenha encontrado evidências de transmissão vertical, um caso isolado na Coreia registrou positividade para IgM e IgG no sangue neonatal, sugerindo que a barreira placentária pode não ser intransponível em casos específicos. 

Por que o diagnóstico diferencial com HELLP é relevante? 

Uma discussão central do artigo é a mímica clínica entre o hantavírus e condições específicas da gestação, como a Síndrome HELLP e a Esteatose Hepática Aguda da Gravidez (EHAG). Ambas compartilham achados de trombocitopenia e disfunção hepatorrenal, o que pode levar a erros de conduta. 

Saiba mais: Cálcio na gravidez: atualização da recomendação da prevenção da pré-eclâmpsia

A Síndrome HELLP frequentemente exige a interrupção da gravidez para resolução do quadro, enquanto, na hantavirose, o parto prematuro iatrogênico pode agravar a instabilidade hemodinâmica da mãe. Nesse contexto, o foco deve ser o suporte intensivo para estabilização materna. O erro diagnóstico pode levar a cesarianas de emergência desnecessárias em pacientes com distúrbios graves de coagulação e comprometimento respiratório, elevando a morbimortalidade materna. 

A principal limitação das evidências reside na raridade dos casos, o que impede a realização de ensaios clínicos controlados. 

Conduta descrita para a prática obstétrica 

Na prática clínica, o obstetra deve manter o hantavírus no radar diagnóstico em pacientes com febre e trombocitopenia com histórico de exposição a áreas rurais. 

Saiba mais: Síndrome HELLP – Como diagnosticar? 

A visão prática é que o manejo deve ser intensivo e em ambiente de terapia intensiva, priorizando o suporte volêmico cauteloso e a oxigenação. O foco deve ser a estabilização materna para salvar o feto, e a interrupção da gravidez não deve ser a conduta padrão, mas sim o último recurso em face da deterioração materna refratária, visando evitar a morbidade de partos prematuros iatrogênicos. 

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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