O Estreptococo do Grupo B (GBS) tem sido, desde a década de 1960, uma causa preponderante de morbidade e mortalidade neonatal. A introdução da profilaxia antibiótica intraparto (PAI) reduziu drasticamente os casos de sepse neonatal precoce, tornando-se o padrão ouro no cuidado obstétrico. No entanto, as dosagens utilizadas hoje baseiam-se mais em protocolos históricos do que em evidências farmacocinéticas robustas.
Recentemente, surgiu uma preocupação sobre os efeitos colaterais do uso excessivo de antibióticos. Evidências sugerem que a exposição neonatal precoce pode alterar a microbiota intestinal e aumentar o risco de condições como asma e enterocolite necrosante. Portanto, determinar a dose mínima eficaz é crucial para equilibrar a proteção contra o GBS e a saúde a longo prazo do neonato.
O estudo publicado em 2026 na revista Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology, teve por objetivo resumir as evidências das doses recomendadas de benzilpenicilina, comparando as concentrações no soro fetal e líquido amniótico com a concentração inibitória mínima (CIM) para o GBS ao nascimento.

Estratégia de Busca
Esta revisão sistemática foi conduzida seguindo as diretrizes PRISMA e registrada no PROSPERO. Os pesquisadores realizaram buscas em novembro de 2024 nas bases de dados PubMed, CINAHL, Cochrane Library e Embase, sem restrições de ano de publicação ou tipo de estudo. O foco recaiu sobre estudos que mensuraram concentrações de benzilpenicilina no sangue do cordão umbilical ou no líquido amniótico após administração intravenosa em gestantes.
A seleção dos artigos envolveu a triagem independente de títulos e resumos por dois autores, com a extração de dados detalhados sobre o regime de dosagem, o método de análise laboratorial e os intervalos entre a última dose e o parto. O estudo buscou avaliar se os níveis atingidos eram superiores à CIM de 0,125 mcg/mL estabelecida pelo EUCAST (Comitê Europeu de Testes de Suscetibilidade Antimicrobiana).
Resultados
Foram incluídos sete estudos, totalizando 346 participantes, que revelaram uma ampla variação nas concentrações relatadas no soro do cordão e líquido amniótico. A maioria dos protocolos utilizou uma dose de ataque de 3 g (5 milhões de unidades) seguida por 1,5 g a cada 4 horas. As concentrações fetais foram, em sua maioria, significativamente superiores à CIM de 0,125 mcg/mL, chegando a ser várias ordens de magnitude maiores em alguns casos.
É importante notar que o estudo não reportou Odds Ratio (OR) para desfechos clínicos, como sepse, pois seu foco foi estritamente farmacocinético (concentrações de droga) e não clínico. Um achado crítico foi que a maioria dos estudos mediu apenas a concentração total do antibiótico e não a fração livre (não ligada à proteína), que é a única biologicamente ativa contra o GBS. Considerando que a ligação proteica da benzilpenicilina é de 60%, os níveis ativos podem ser apenas 40% do total reportado na maioria das pesquisas.
Análise Crítica
A discussão destaca a carência de dados de alta qualidade para sustentar as recomendações atuais do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) e da RCOG (Real Colégio de Obstetras e Ginecologistas do Reino Unido). Observou-se que países como a Nova Zelândia utilizam doses muito menores (1,2 g de ataque e 600 mg de manutenção) e apresentam taxas de doença neonatal por GBS similares às de países que adotam doses mais elevadas, como a Austrália e os EUA. Isso sugere que os regimes atuais podem ser desnecessariamente altos.
Além disso, violações de protocolo foram frequentes nos estudos analisados, com muitos partos ocorrendo antes das 4 horas recomendadas ou com falhas na administração da dose subsequente. A eficácia da profilaxia parece depender não apenas da concentração atingida, mas também da manutenção desses níveis por um tempo suficiente antes do nascimento.
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Mensagem Prática
Este estudo nos alerta que pode estar havendo sobretratamento antibiótico no parto e o rigor no tempo de administração (idealmente > 4 horas antes do nascimento) é tão vital quanto a dose em si. O desafio futuro reside em validar regimes de doses menores que garantam a segurança neonatal enquanto preservam a integridade do microbioma do recém-nascido. Estudos farmacocinéticos mais rigorosos, focando na fração livre da droga, são imperativos para refinar essas diretrizes.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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