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Ginecologia e Obstetrícia23 fevereiro 2026

Como a cirurgia bariátrica atua na fisiopatologia da SOP?

Estudo avaliou o impacto da cirurgia bariátrica nos componentes da SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos)
Por Paulo Melo

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é a doença endócrina mais comum em mulheres em idade reprodutiva, caracterizada por uma clínica que envolve hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e morfologia policística ovariana. Pelo consenso de Rotterdam, o diagnóstico exige dois dos três critérios citados, após exclusão de causas secundárias como hiperplasia adrenal congênita, tumores secretores de androgênio, hiperprolactinemia e doenças tireoidianas, pelo fato de se tratar de um diagnóstico de exclusão. A combinação desses critérios origina quatro fenótipos principais:

  • Fenótipo A (clássico completo): hiperandrogenismo + anovulação + ovário policístico
  • Fenótipo B (clássico não policístico): hiperandrogenismo + anovulação
  • Fenótipo C (ovulatório): hiperandrogenismo + ovário policístico
  • Fenótipo D (não hiperandrogênico): anovulação + ovário policístico

A base do tratamento da SOP, comumente associada ao sobrepeso e à obesidade, continua sendo perda ponderal e modificação do estilo de vida. Metformina, anticoncepcionais combinados e antiandrogênicos entram como estratégias complementares e para controle de sintomas relacionados. A cirurgia bariátrica como uma potente intervenção metabólica, capaz de promover importante perda de peso, melhora da resistência insulínica e redução da inflamação sistêmica, é uma opção terapêutica viável, mas ainda há dúvidas quanto ao efetivo benefício da cirurgia bariátrica no tratamento a longo prazo.

Como a cirurgia bariátrica atua na fisiopatologia da SOP?

Cirurgia bariátrica e SOP

Uma recente revisão sistemática avaliou o impacto da cirurgia bariátrica sobre desfechos clínicos e hormonais em mulheres com SOP, incluindo irregularidade menstrual, testosterona total e livre, hirsutismo, SHBG, LH, FSH e parto prematuro. Estudos foram excluídos quando não apresentavam diagnóstico claro de SOP, não reportavam desfechos hormonais ou não separavam resultados específicos para essa população. A maioria foi conduzida na Europa e Ásia.

De maneira geral, houve predominância de estudos observacionais com a presença de apenas um ensaio clínico. Além disso, os estudos apresentaram heterogeneidade de critérios diagnósticos de SOP, diferentes técnicas cirúrgicas e ausência de randomização na maior parte dos estudos. Logo, precisamos estar atentos aos achados que não favorecem para uma evidência de alta qualidade.

Resultados e discussão

A população analisada envolveu mulheres jovens, com idade entre 20–30 anos, IMC médio acima de 30, e diagnóstico de SOP geralmente estabelecido há alguns anos. O tempo médio de seguimento dos estudos variou entre 6 e 24 meses. A técnica cirúrgica mais comum foi o bypass gástrico em Y-de-Roux, seguida pela gastrectomia vertical (sleeve).

Os principais achados com significância estatística incluíram: melhora da irregularidade menstrual, redução de marcadores clínicos de hiperandrogenismo e dos níveis de testosterona total e livre, tendência à normalização de LH/FSH em parte dos estudos, associado ao consequente aumento de SHBG. Resultados sobre parto prematuro e desfechos gestacionais foram limitados por poucos estudos avaliando esses dados.

A perda ponderal parece ser o mecanismo central para a reversão do hiperandrogenismo e melhora da função ovulatória. Porém, a cirurgia não trata a SOP diretamente, ela age na redução do seu principal mecanismo fisiopatológico, que é a obesidade e a resistência insulínica. Para pacientes com obesidade e SOP refratária ao tratamento clínico, a cirurgia pode modificar curso reprodutivo e metabólico. No entanto, não há base clara para indicar cirurgia com foco primário na SOP isolada.

Conclusão

A metanálise sugere que a cirurgia bariátrica está associada a uma melhora significativa de parâmetros hormonais e clínicos da SOP, especialmente irregularidade menstrual e hiperandrogenismo. Contudo, as limitações metodológicas impedem conclusões definitivas de causalidade. Em mulheres com obesidade e elegíveis para cirurgia bariátrica, a presença de SOP pode ser vista como benefício adicional potencial da intervenção, mas nunca como indicação isolada.

No Brasil, a Resolução CFM nº 2.429/2025 atualizou os critérios para cirurgia bariátrica e metabólica, mantendo a SOP como condição associada à obesidade e potencialmente modificável com perda ponderal. Isso reforça que, quando corretamente indicada, com avaliação ética e multidisciplinar adequada, a cirurgia é segura e pode melhorar significativamente qualidade de vida e saúde reprodutiva dessas mulheres.

Autoria

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Paulo Melo

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Residência Médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Piauí e Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Belo Horizonte. Possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. É mestrando e professor da área de endocrinologia na Afya Educação Médica.

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