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Ginecologia e Obstetrícia29 julho 2026

Cirurgia robótica no câncer de endométrio: o que mostram os ensaios?

Revisão de ensaios randomizados compara cirurgia robótica, laparoscopia e laparotomia no câncer de endométrio e analisa desfechos.

O tratamento cirúrgico permanece a principal estratégia terapêutica para a maioria das pacientes com câncer de endométrio, especialmente nos estágios iniciais. Nas últimas décadas, a cirurgia minimamente invasiva consolidou-se como padrão de tratamento, e a incorporação das plataformas robóticas ampliou as possibilidades técnicas, oferecendo visão tridimensional, maior amplitude de movimentos e melhor ergonomia para o cirurgião. Apesar do crescimento dessa tecnologia, ainda existe debate sobre seu real benefício clínico em relação à laparoscopia convencional. 

Grande parte das evidências disponíveis até o momento provém de estudos observacionais, sujeitos a vieses que dificultam conclusões definitivas. Buscando esclarecer essa questão, uma revisão sistemática publicada no Journal of Robotic Surgery reuniu exclusivamente ensaios clínicos randomizados para comparar a cirurgia robótica com a laparoscopia convencional e a laparotomia no tratamento do câncer de endométrio. 

Saiba mais: Cirurgia minimamente invasiva versus aberta no câncer de endométrio de alto risco 

cirurgia robótica

Como a revisão sistemática foi conduzida 

Os autores realizaram uma revisão sistemática seguindo as recomendações do PRISMA e pesquisaram as principais bases de dados até dezembro de 2025. Foram incluídos apenas ensaios clínicos randomizados que compararam cirurgia robótica com laparoscopia convencional ou laparotomia em mulheres com câncer de endométrio. Ao final, oito estudos preencheram os critérios de inclusão, totalizando 647 pacientes. 

Embora os estudos apresentassem boa qualidade metodológica, houve grande heterogeneidade na forma de relatar os desfechos cirúrgicos. Por esse motivo, apenas um desfecho apresentou dados suficientemente homogêneos para permitir uma metanálise: a conversão para laparotomia. 

Menor conversão para laparotomia foi o principal achado 

O principal achado da revisão foi a redução significativa da necessidade de conversão para cirurgia aberta entre as pacientes submetidas à cirurgia robótica. Nos três ensaios clínicos que compararam diretamente cirurgia robótica e laparoscopia convencional, a conversão para laparotomia ocorreu em apenas 0,7% das pacientes operadas por via robótica, contra 8,4% daquelas submetidas à laparoscopia convencional. A metanálise demonstrou redução significativa desse desfecho (OR 0,17; p = 0,03). 

Esse resultado possui importância clínica, pois a conversão para laparotomia costuma estar associada a maior morbidade, recuperação mais lenta e aumento do tempo de internação hospitalar. 

Desfechos perioperatórios permaneceram heterogêneos 

Ao contrário da percepção frequentemente associada à cirurgia robótica, a revisão não demonstrou vantagens consistentes em relação à laparoscopia convencional para a maioria dos desfechos perioperatórios. Os estudos apresentaram resultados divergentes quanto ao tempo cirúrgico, com alguns favorecendo a cirurgia robótica e outros indicando procedimentos mais prolongados. Da mesma forma, não foram observadas diferenças consistentes em relação à perda sanguínea intraoperatória, duração da internação ou incidência de complicações. Segundo os autores, essas inconsistências refletem principalmente a heterogeneidade entre os ensaios clínicos disponíveis, impossibilitando a realização de metanálises para esses desfechos. 

Saiba mais: Taxa de sobrevida de pacientes com carcinoma de endométrio submetidas a cirurgia 

Comparação com a laparotomia favoreceu a abordagem robótica 

Quando comparada à cirurgia aberta, a plataforma robótica apresentou resultados mais favoráveis. Os estudos randomizados mostraram menor tempo de internação hospitalar e tendência à redução das complicações pós-operatórias nas pacientes submetidas à cirurgia robótica. Entretanto, o número limitado de estudos impede conclusões definitivas sobre a magnitude desses benefícios. 

Outro aspecto discutido pelos autores foi o impacto econômico da tecnologia. Embora a cirurgia robótica apresente custos diretos mais elevados, decorrentes dos equipamentos e instrumentais, alguns estudos sugerem que esses gastos podem ser parcialmente compensados por menor tempo de recuperação e retorno mais precoce às atividades habituais. Ainda assim, faltam análises robustas de custo-efetividade para confirmar essa hipótese. 

Quais lacunas ainda permanecem nas evidências? 

Apesar de representar o mais alto nível de evidência disponível sobre o tema, esta revisão também evidencia as limitações da literatura. Apenas oito ensaios clínicos randomizados preencheram os critérios de inclusão, com número relativamente pequeno de pacientes e grande heterogeneidade na avaliação dos desfechos. Como consequência, apenas a conversão para laparotomia pôde ser submetida à metanálise. Além disso, permanecem escassos os dados randomizados sobre sobrevida, recorrência tumoral, qualidade de vida e custo-efetividade. Os autores defendem que futuros estudos utilizem desfechos padronizados e incorporem avaliações econômicas e de qualidade de vida para permitir comparações mais robustas entre as diferentes abordagens cirúrgicas. 

Mensagem prática para a escolha da via cirúrgica 

Esta revisão sistemática indica que a cirurgia robótica pode ser considerada uma alternativa cirúrgica para o tratamento do câncer de endométrio, com a redução da necessidade de conversão para laparotomia como principal benefício demonstrado nos ensaios clínicos randomizados. Para os demais desfechos, como tempo operatório, perda sanguínea, complicações e tempo de internação em comparação com a laparoscopia convencional, as evidências permanecem heterogêneas e insuficientes para afirmar superioridade da plataforma robótica. Assim, a escolha da via cirúrgica deve continuar sendo individualizada, considerando as características da paciente, a experiência da equipe, a disponibilidade tecnológica e os recursos da instituição, enquanto novos estudos buscam esclarecer o impacto da cirurgia robótica sobre desfechos oncológicos de longo prazo, qualidade de vida e custo-efetividade. 

Saiba mais: Diretrizes 2025 para manejo do carcinoma de endométrio 

Autoria

Foto de Ronaldo Oliveira

Ronaldo Oliveira

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Vale do Rio Verde, com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Montes Claros. Professor da Universidade de Ribeirão Preto. Medicina Fetal pela FMRP - USP. Mestre e Doutor pela FMRP - USP.

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