Seis domínios, do estadiamento à saúde mental, orientam o rastreamento da fragilidade em idosos com câncer e a individualização do cuidado.
A fragilidade em idosos com câncer é um problema crescente na oncologia e na geriatria. Uma revisão sistemática publicada no BMC Geriatrics cita projeções de cerca de 14 milhões de novos casos de câncer em pessoas com 65 anos ou mais no mundo em 2035, quase 60% de todos os diagnósticos oncológicos. Nesse cenário, reconhecer os fatores associados à fragilidade pode contribuir para antecipar o rastreamento e individualizar condutas no paciente oncológico idoso.

Síndrome de fragilidade e câncer formam um ciclo de pior prognóstico
A interação entre câncer e fragilidade ocorre nos dois sentidos. O tumor consome reservas energéticas, enquanto cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo e imunoterapia impõem estresse fisiológico que pode reduzir a capacidade compensatória do organismo envelhecido. No sentido inverso, a fragilidade associa-se a menor tolerância ao tratamento antineoplásico, maior risco de eventos adversos e pior prognóstico em longo prazo.
Segundo os autores, revisões anteriores não separavam as evidências de coexistência, provenientes de estudos transversais, das evidências longitudinais. Essa lacuna motivou o trabalho.
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Como a revisão sistemática organizou estudos transversais e de coorte?
Os pesquisadores buscaram estudos no PubMed, Embase e Web of Science, desde o início das bases até 20 de julho de 2025. O protocolo foi registrado, segundo os autores, e a revisão seguiu as recomendações PRISMA 2020.
Foram elegíveis estudos com participantes de 60 anos ou mais e neoplasia maligna confirmada por histopatologia, sólida ou hematológica. Não houve restrição quanto ao estádio nem à fase de tratamento, e sobreviventes também foram incluídos, em ambientes ambulatorial, hospitalar ou comunitário. Pacientes com duas ou mais neoplasias primárias distintas foram excluídos.
A revisão incluiu estudos transversais, que identificam fatores coexistentes, e coortes longitudinais, que permitem avaliar associações e mudanças da fragilidade ao longo do tempo. Os autores relataram o uso de instrumentos de fragilidade e vulnerabilidade, como fenótipo de Fried, Tilburg Frailty Indicator, Groningen Frailty Indicator, Clinical Frailty Scale, FRAIL, Edmonton Frail Scale, índice de fragilidade e VES-13. O risco de viés foi avaliado com as ferramentas do Joanna Briggs Institute (JBI).
As associações entre os fatores avaliados e a fragilidade foram expressas como razões de chances (OR), prioritariamente ajustadas, coeficientes de regressão β e coeficientes de correlação r. Essas métricas não são diretamente intercambiáveis. Além disso, os estudos utilizaram diferentes instrumentos, com pontos de corte distintos, e avaliaram populações muito diversas. Por isso, não houve metanálise, sendo realizada apenas uma síntese narrativa estratificada.
Fatores associados à fragilidade abrangem seis domínios clínicos
Segundo os autores, a revisão incluiu 30 estudos, com um total de 10.399 participantes com câncer. Desses, 26 eram transversais e quatro eram coortes. Na avaliação dos autores, 18 estudos transversais apresentaram alta qualidade metodológica e oito, qualidade moderada. Todas as coortes foram classificadas como de alta qualidade, com pontuação de 9 em 11.
Seis estudos realizaram apenas análise de correlação bivariada, enquanto 24 aplicaram regressão multivariada. A idade avançada foi o fator mais frequentemente associado à fragilidade nas análises ajustadas. Os fatores foram agrupados em seis domínios: relacionados à doença, fisiológicos, psicológicos, de estilo de vida, sociodemográficos e relacionados ao tratamento.
Estado nutricional, depressão e estádio tumoral se associam à fragilidade
As coortes investigaram fatores clínicos e sociodemográficos. As estimativas a seguir são provenientes de estudos individuais, conforme apresentadas na revisão. Em 173 sobreviventes de câncer na Coreia do Sul, três fatores se associaram à fragilidade:
- idade de 70 anos ou mais (OR 2,72; IC 95% 1,46–5,05);
- ausência de participação social (OR 3,90; IC 95% 1,82–8,39);
- baixa escolaridade (OR 3,10; IC 95% 1,62–5,93).
Em 381 sobreviventes de câncer gástrico, associaram-se à fragilidade:
- estado depressivo (OR 2,311; IC 95% 1,132–4,797);
- estado nutricional (OR 1,773; IC 95% 1,128–2,787);
- número de comorbidades (OR 1,723; IC 95% 1,070–2,774).
Nessa mesma coorte, o suporte social apresentou associação inversa (OR 0,842; IC 95% 0,727–0,974). Em 88 idosos operados por câncer colorretal, o escore de atividades de vida diária também se associou inversamente à fragilidade (OR 0,31; IC 95% 0,13–0,77).
Entre os estudos transversais, o estádio tumoral avançado mostrou associação com fragilidade cognitiva em idosos com câncer de pulmão em quimioterapia. A OR foi de 7,088 (IC 95% 1,508–33,305) para o estádio III e de 7,836 (IC 95% 1,668–36,813) para o estádio IV.
Também em idosos com câncer de pulmão, o índice de comorbidade de Charlson associou-se à fragilidade (OR 4,870; IC 95% 1,898–12,494). Em 265 idosos internados com tumores gastrointestinais, o pior estado nutricional também se associou à fragilidade.
Os estudos relataram ainda outros fatores:
- Sociodemográficos: sexo feminino, desemprego e baixa renda.
- Relacionados ao tratamento: polifarmácia, quimioterapia, terapia endócrina, complicações pós-operatórias e deambulação tardia após cirurgia.
- Nutricionais: anemia, hipoalbuminemia e IMC alterado.
- Físicos: redução da força de preensão e da circunferência da panturrilha.
- Psicológicos e sociais: ansiedade, solidão e baixo letramento em saúde.
Biomarcadores como relação neutrófilo-linfócito, D-dímero, hemoglobina, leucócitos e sódio sérico também apareceram em estudos selecionados.
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A avaliação da fragilidade deve considerar múltiplos domínios
A revisão sugere que a fragilidade em idosos com câncer não decorre apenas do tumor ou do envelhecimento. Os estudos identificaram associações com fatores clínicos, psicológicos, sociais e terapêuticos.
Na prática, oncologistas e geriatras podem incluir no atendimento a avaliação do estado nutricional, da funcionalidade, da saúde mental, das comorbidades, das medicações em uso e da rede de apoio. Dessa forma, podem identificar precocemente pacientes de maior risco, antes e durante o tratamento antineoplásico.
Os autores reconhecem limitações importantes. Os dados são observacionais e não permitem conclusões sobre causa e efeito. Também não houve síntese quantitativa, e os diferentes tipos de tumor foram analisados em conjunto, sem separação por sítio. Além disso, a maioria dos estudos foi realizada na China, e houve poucas coortes longitudinais. A publicação também apresenta inconsistências nas tabelas de qualidade metodológica e de estimativas de associação, o que exige cautela adicional na interpretação.
No contexto brasileiro, indicadores simples destacados pelos autores, como força de preensão e circunferência da panturrilha, podem integrar a avaliação na rotina ambulatorial e hospitalar, sem substituir instrumentos validados ou a avaliação geriátrica multidimensional. Nenhum dos estudos incluídos avaliou populações brasileiras. Por isso, a aplicação desses achados exige cautela e reforça a necessidade de coortes nacionais que validem modelos de predição de fragilidade em idosos com câncer.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Bruno Anello Mottini Horlle
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência e Clinica Médica.
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