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Clínica Médica16 abril 2026

ACP 2026: Desprescrição em idosos na prática da geriatria

ACP 2026 discute desprescrição em idosos, polifarmácia e segurança medicamentosa na prática da geriatria.

A gestão medicamentosa no paciente idoso voltou ao centro das discussões no ACP Internal Medicine Meeting 2026, em uma sessão interativa e baseada em casos que abordou, de forma prática, os principais desafios da desprescrição. O foco não esteve apenas em reconhecer medicamentos potencialmente inapropriados, mas principalmente em mostrar como rever prescrições de forma estruturada, segura e alinhada aos objetivos de cuidado do paciente.

Esse debate é particularmente relevante na geriatria porque a polifarmácia se tornou parte da rotina assistencial. À medida que os pacientes envelhecem e acumulam comorbidades, aumenta também a chance de receberem múltiplos medicamentos, muitas vezes prescritos por diferentes profissionais e em contextos clínicos distintos. O resultado é um cenário em que interações medicamentosas, eventos adversos, quedas, declínio funcional e internações passam a fazer parte do risco cotidiano, e nem sempre esse risco é revisitado com a frequência necessária.

Mais do que um problema numérico, a polifarmácia representa um desafio de raciocínio clínico. Isso porque a prescrição, que em um primeiro momento foi feita para prevenir ou tratar doenças, pode com o tempo deixar de oferecer benefício proporcional ao risco, sobretudo em pacientes com fragilidade, comprometimento cognitivo, limitação funcional ou mudança nas metas terapêuticas.

Recentemente, foi publicado no JAMA, um estudo prospectivo aberto, de grupo único, em usuários de levotiroxina com 60 anos ou mais, para determinar a proporção de participantes que poderiam descontinuar o hormônio, mantendo testes de função tireoidiana aceitáveis

Aumento de antidepressivo ou troca em depressão resistente em idosos?

O que a sessão do ACP 2026 destacou sobre a prática clínica

A apresentação reforçou que a desprescrição não deve ser entendida como retirada aleatória ou simplificação apressada da receita, mas sim como um processo clínico sistemático, individualizado e centrado no paciente. Em vez de começar pela pergunta “qual remédio pode ser suspenso?”, a lógica proposta foi outra: compreender o contexto global do idoso, revisar a indicação atual de cada medicamento, estimar riscos acumulados e só então definir o que deve ser mantido, reduzido, substituído ou interrompido.

Essa mudança de perspectiva é particularmente importante porque muitos erros na prática não decorrem do desconhecimento de listas de medicamentos inadequados, e sim da tendência de revisar a prescrição de forma fragmentada. Em pacientes idosos, uma mesma queixa pode ser amplificada por múltiplos fatores ao mesmo tempo, e o remédio mantido por inércia pode se transformar em causa de tontura, sonolência, hipotensão, constipação, confusão mental ou perda de autonomia.

Ao longo da sessão, também ficou claro que a desprescrição exige negociação clínica. Muitas vezes, o medicamento foi incorporado à rotina do paciente há anos, sem reavaliação formal de necessidade, e sua retirada pode gerar insegurança tanto para o idoso quanto para familiares e até para a equipe assistente. Por isso, a comunicação cuidadosa e a definição de um plano progressivo são partes tão importantes quanto a decisão farmacológica em si.

Quais medicamentos merecem mais atenção na geriatria

Entre os grupos farmacológicos destacados, apareceram vários já conhecidos da prática geriátrica, mas que continuam frequentemente prescritos. Benzodiazepínicos, anti-histamínicos de primeira geração, uso prolongado de inibidores da bomba de prótons e anti-inflamatórios não esteroidais crônicos foram citados como exemplos de medicamentos potencialmente inapropriados em muitos pacientes idosos

A relevância desses fármacos não está apenas na frequência de uso, mas no fato de estarem associados a desfechos clinicamente importantes. Benzodiazepínicos, por exemplo, podem contribuir para sedação residual, piora do equilíbrio, quedas e prejuízo cognitivo. Anti-histamínicos com efeito anticolinérgico podem agravar confusão mental, retenção urinária e constipação. Já os inibidores da bomba de prótons, quando mantidos por tempo prolongado sem revisão da indicação, levantam discussões sobre uso desnecessário, enquanto AINEs crônicos exigem atenção especial pelo risco gastrointestinal, renal e cardiovascular.

A sessão também chamou atenção para um ponto decisivo: reconhecer um medicamento potencialmente inadequado não significa suspendê-lo automaticamente. Na geriatria, quase nenhuma decisão é completamente padronizada. O medicamento deve ser analisado à luz do quadro funcional, da expectativa de benefício, do risco de dano e do contexto clínico de cada paciente.

Critérios de Beers ajudam, mas não substituem o raciocínio clínico

Um dos pilares da discussão foi o uso dos critérios de Beers como ferramenta de apoio. A mensagem da sessão foi bastante clara: esses critérios são úteis como triagem, mas não devem ser tratados como regra absoluta ou como substituto do julgamento clínico.

Na prática, isso significa que a lista ajuda a identificar classes de maior risco e a acender alertas durante a revisão terapêutica. No entanto, a decisão final continua dependendo da avaliação individual. Um medicamento listado como inadequado pode, em situações específicas, continuar sendo a melhor opção disponível, enquanto outro aparentemente seguro pode ter impacto negativo importante em determinado paciente frágil.

Esse ponto aproxima a geriatria da clínica médica real. Em vez de aplicar protocolos de forma rígida, o médico precisa integrar evidência, contexto e objetivos de cuidado. Em muitos casos, o maior valor da revisão medicamentosa não está apenas em retirar remédios, mas em redefinir prioridades terapêuticas.

Como incorporar a desprescrição à rotina assistencial

Do ponto de vista prático, a sessão trouxe uma ideia central: a revisão medicamentosa deve começar pelo paciente, e não pela lista de fármacos. Isso quer dizer que sintomas como sonolência, tontura, quedas, perda funcional, queixas cognitivas ou fadiga precisam ser reinterpretados à luz da prescrição vigente, porque muitas vezes o que parece progressão de doença pode refletir efeito adverso, interação ou excesso terapêutico.

Além disso, foi enfatizado que a substituição automática entre medicamentos pode ser um erro tão relevante quanto a manutenção acrítica da prescrição. Retirar um fármaco e imediatamente trocá-lo por outro sem reavaliar a real necessidade do tratamento pode perpetuar o mesmo problema sob nova forma. Em situações como insônia e dor crônica, por exemplo, a sessão destacou a importância de considerar intervenções não farmacológicas, especialmente quando o risco cumulativo da medicação passa a superar o benefício esperado

Esse raciocínio é particularmente valioso na prática ambulatorial e hospitalar, onde a pressão por respostas rápidas muitas vezes favorece a prescrição adicional em vez da revisão do que já está sendo usado.

O impacto clínico da desprescrição bem conduzida

Embora a sessão tenha caráter educacional e não tenha apresentado dados quantitativos robustos de ensaio clínico, a mensagem clínica foi consistente: desprescrever, quando bem indicado, pode reduzir eventos adversos, melhorar segurança e tornar o plano terapêutico mais coerente com a realidade do paciente idoso

Na geriatria, esse impacto é especialmente relevante porque os danos relacionados a medicamentos raramente aparecem de forma isolada. Um único fármaco inadequado pode contribuir para um ciclo de tontura, queda, imobilidade, internação e perda de independência. Assim, a revisão criteriosa da prescrição deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser parte central da prevenção de iatrogenias.

Também merece destaque o fato de que a desprescrição pode fortalecer a relação médico-paciente. Quando conduzida com explicação clara, monitoramento e pactuação de metas, ela costuma ser percebida não como retirada de cuidado, mas como refinamento da terapêutica.

Para quem esse conteúdo se aplica

As discussões apresentadas têm aplicação direta para médicos que atuam com pacientes idosos em ambulatórios, enfermarias, pronto atendimento e atenção primária. O conteúdo é particularmente útil para clínicos, geriatras e profissionais que acompanham pacientes com polifarmácia, fragilidade, risco de quedas ou uso prolongado de classes farmacológicas sabidamente associadas a eventos adversos.

Também é um tema relevante para equipes multiprofissionais, já que a revisão medicamentosa em geriatria ganha qualidade quando envolve acompanhamento funcional, orientação ao paciente e vigilância mais próxima após mudanças terapêuticas.

Limitações e próximos passos

Como destacado no próprio material, trata-se de uma sessão educacional baseada em casos, e não de um ensaio clínico com desfechos duros. Isso limita a força de algumas conclusões e exige cautela na extrapolação direta para todos os cenários assistenciais

Ainda assim, o conteúdo reforça uma direção importante para a prática: desenvolver protocolos mais estruturados de revisão medicamentosa, ampliar o uso crítico de ferramentas como os critérios de Beers e investir em estratégias que aumentem a adesão do paciente ao processo de retirada ou simplificação terapêutica.

Em um cenário de envelhecimento populacional e crescente complexidade clínica, a geriatria tende a se beneficiar cada vez mais de abordagens que valorizem não apenas o que prescrever, mas também o que vale a pena suspender.

Autoria

Foto de Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.

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