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Endocrinologia5 outubro 2026

Metanálise compara a eficácia e segurança da tirzepatida e da dulaglutida

Tirzepatida versus dulaglutida é avaliada quanto a controle glicêmico, perda de peso, tolerabilidade e segurança em adultos com diabetes tipo 2.

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) representa um importante problema de saúde pública global e está frequentemente associado à obesidade e à doença cardiovascular. Seu manejo atual busca não apenas o controle glicêmico sustentado, mas também a redução do peso corporal e do risco cardiovascular.

A dulaglutida, agonista semanal do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), apresenta eficácia glicêmica e evidências de benefício cardiovascular. A tirzepatida, agonista duplo dos receptores do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do GLP-1, produz reduções dose-dependentes da hemoglobina glicada (HbA1c) e do peso, mas não havia comparação direta entre ambas as moléculas nesses aspectos. Além disso, a evidência de redução do risco cardiovascular com tirzepatida advém apenas da não inferioridade em relação à dulaglutida. Desse modo, permanecem lacunas na literatura sobre a comparação entre os dois tratamentos.

Como nenhum ensaio clínico comparou simultaneamente todas as doses clinicamente relevantes desses medicamentos, um grupo de autores egípcios e norte-americanos realizou uma metanálise em rede para comparar diferentes doses de tirzepatida e dulaglutida quanto à eficácia e à segurança em adultos com DM2, com ou sem doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida. Os achados foram publicados no periódico Endocrinology, Diabetes & Metabolism em 2026.

Metanálise em rede compara diferentes doses dos tratamentos

A revisão sistemática e metanálise em rede seguiu as recomendações PRISMA e do Cochrane Handbook, com protocolo registrado no PROSPERO. Foram pesquisadas as bases PubMed, Cochrane, Scopus e Web of Science até 31 de dezembro de 2025, sem restrição de idioma, seguindo a estratégia PICO: população (P), adultos com DM2; intervenção (I), tirzepatida de 1 a 15 mg por semana; comparador (C), dulaglutida de 0,75 a 4,5 mg por semana.

Os desfechos (outcomes – O) de eficácia foram mudanças no peso corporal nas semanas 12 e 16 e na HbA1c nas semanas 12 e 24. Os desfechos de segurança incluíram eventos adversos gerais e graves, náusea, vômitos, diarreia, hipoglicemia grave, pancreatite, descontinuação por eventos adversos, mortalidade por todas as causas e eventos cardiovasculares adversos maiores.

A classificação dos tratamentos foi estimada pela superfície sob a curva de classificação cumulativa (SUCRA). A SUCRA é expressa como um número decimal de 0 a 1 e é usualmente utilizada na comparação de tratamentos em metanálises em rede. O número é interpretado como a probabilidade de determinado tratamento ocupar uma posição mais favorável entre os estudados. Desse modo, quanto mais próximo de 1 for o valor, maior será sua classificação relativa.

Tirzepatida em doses mais altas lidera redução de peso

Foram incluídos quatro ensaios clínicos randomizados, totalizando 14.348 participantes: 7.413 receberam tirzepatida e 6.935, dulaglutida. Entretanto, um único estudo reuniu 13.165 participantes. Três ensaios apresentaram baixo risco de viés; um estudo aberto gerou algumas preocupações relacionadas ao conhecimento da alocação pelos participantes e pesquisadores.

Na semana 12, a tirzepatida 15 mg obteve a melhor classificação para redução do peso (SUCRA 0,93), seguida da dose de 10 mg (SUCRA 0,83). Na semana 16, a tirzepatida 15 mg proporcionou maior redução ponderal que a dose de 5 mg (−2,68 kg). A dulaglutida 0,75 mg e a tirzepatida 1 mg produziram reduções menores do peso (−3,10 kg e −4,39 kg, respectivamente). A heterogeneidade foi elevada nos resultados de peso das semanas 12 e 16.

 

Saiba mais: Tirzepatida no tratamento do diabetes e da obesidade 

 

Redução da HbA1c favorece doses maiores de tirzepatida

Na semana 12, dulaglutida 0,75 mg e 1,5 mg apresentaram menor redução da HbA1c que tirzepatida 5 mg, com diferenças de 0,49 e 0,76 ponto percentual, respectivamente. Na semana 24, tirzepatida 15 mg (−0,40) e 10 mg (−0,23) reduziram mais a HbA1c que tirzepatida 5 mg.

Dulaglutida 1,5 mg, dulaglutida 0,75 mg e tirzepatida 1 mg apresentaram reduções menores. A tirzepatida 15 mg ocupou a primeira posição na classificação da HbA1c na semana 24 (SUCRA 0,99).

Tolerabilidade gastrointestinal varia conforme fármaco e dose

Quanto à segurança, tirzepatida 1 mg apresentou menor risco de qualquer evento adverso, com redução de 36%, e de náusea, com risco 80%, em comparação à tirzepatida 5 mg. A dulaglutida 0,75 mg associou-se a menor risco de diarreia, com redução de 52%, e de vômitos, com redução de 81%.

Tirzepatida 15 mg apresentou risco 79% maior de náusea que a dose de 5 mg. Não foram identificadas diferenças significativas em mortalidade, eventos cardiovasculares maiores, hipoglicemia grave, eventos adversos graves, pancreatite ou descontinuação por eventos adversos. Esses resultados, contudo, foram baseados em poucos eventos e intervalos de confiança amplos.

 

Saiba mais: Efeitos da tirzepatida no diabetes tipo 2: relação com resultado cardiometabólico

 

Escolha entre tirzepatida e dulaglutida exige individualização

Doses mais altas de tirzepatida, particularmente 15 e 10 mg, associaram-se a maiores reduções da HbA1c e do peso corporal inicial, enquanto doses menores de tirzepatida e dulaglutida pareceram apresentar melhor tolerabilidade gastrointestinal.

Os resultados precoces de eficácia devem ser interpretados com cautela, pois muitos participantes ainda estavam em fase de escalonamento e não haviam atingido a dose de manutenção. Os achados podem favorecer uma titulação individualizada, equilibrando benefício metabólico, tolerabilidade e prioridades do paciente.

Não foram observadas diferenças claras nos eventos cardiovasculares ou na mortalidade. Ainda que sua realização seja improvável após o lançamento dos medicamentos no mercado, estudos de comparação direta entre diferentes análogos de GLP-1 são necessários para avaliar esses desfechos de maneira adequada.

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.

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