O sofrimento emocional no diabetes, conhecido na literatura como diabetes distress, corresponde à carga afetiva que decorre de conviver com a doença e de conduzir o autocuidado diário. Adultos com diabetes tipo 1 ou diabetes tipo 2 pensam na condição, em média, a cada 12 minutos. Diante da variação na forma como os profissionais avaliam e conduzem o problema, a European Association for the Study of Diabetes (EASD) publicou na Diabetologia sua primeira diretriz baseada em evidências, dedicada à avaliação e ao manejo desse sofrimento em adultos.
Foram abordadas essas duas questões principais: (1) abordagens e momento ideais para identificar e conduzir o sofrimento relacionado ao diabetes; (2) a eficácia de intervenções psicológicas, psicoeducativas, educacionais e de apoio mediadas por tecnologia na redução desse sofrimento.

Carga emocional do diabetes é distinta da depressão maior
A diretriz descreve o distress como resposta esperada às exigências contínuas no manejo e tratamento do diabetes, e não como transtorno mental diagnosticável. Pelo modelo de regulação emocional, o quadro surge quando as demandas emocionais da doença superam a capacidade de regulá-las; ruminação e evitação amplificam o afeto negativo, preocupações, medos, culpa, frustração e tristeza resultantes do gerenciamento da doença, seu tratamento, complicações e inclusive a reação de terceiros, e costumam ser piores na ausência de apoio profissional e social.
Em registro norueguês com 10.186 adultos com diabetes tipo 1, 22% apresentavam distress elevado, e metanálise com adultos com diabetes tipo 2 estimou prevalência de 36%, esta podendo ser maior ainda. Sem abordagem, associa-se a pior autocuidado, maior risco de depressão, pior qualidade de vida e mortalidade precoce.
O documento seguiu a metodologia GRADE e o padrão de relato RIGHT, com painel multidisciplinar que incluiu especialistas e duas pessoas com diabetes. As declarações de boa prática sobre avaliação derivaram de revisões realistas, e as recomendações de manejo, de revisão sistemática com metanálises de ensaios clínicos randomizados (ECR). Considerou-se clinicamente relevante a diferença média padronizada (SMD) igual ou superior a 0,3. Não há versão anterior para comparação; até então, existiam apenas documentos de posicionamento sem recomendações GRADE. O escopo exclui crianças, adolescentes, diabetes gestacional e transtornos mentais como depressão e ansiedade.
Os fatores de risco identificados são: sexo feminino, idade mais jovem, menor duração do diabetes, complicações agudas (como cetoacidose diabética e hipoglicemia grave) e doença cardiovascular.
Saiba mais: Prevalência e fatores de risco de depressão em pacientes com diabetes mellitus
Investigar e pesquisar o diabetes distress em toda consulta de rotina
Oito declarações de boa prática, aplicáveis aos dois tipos de diabetes, orientam a avaliação. Recomenda-se:
- Abordar o lado emocional do diabetes em todas as consultas, com perguntas abertas sobre a carga de conviver com a doença.
- Utilizar instrumento válido e confiável, como as escalas PAID (Problem Areas in Diabetes) ou DDS (Diabetes Distress Scale).
- Reavaliar ao menos anualmente, em eventos de vida relevantes, como gestação, e em mudanças terapêuticas importantes.
- Discutir o resultado com o paciente, qualquer que seja, registrá-lo e comunicá-lo à equipe.
- Construir um plano conjunto quando o distress estiver elevado.
- Garantir que generalistas e especialistas saibam oferecer suporte psicológico e acionar o especialista quando necessário.
A aparente ausência de sofrimento pode refletir relutância em buscar ajuda e deve ser questionada.
Monitorização contínua de glicose tem certeza moderada no diabetes tipo 1
Todas as recomendações de manejo são condicionais. Em adultos com diabetes tipo 1, sugere-se:
- Intervenções psicológicas associadas ao cuidado usual (certeza baixa; 16 ECR; SMD −0,21).
- Monitorização contínua de glicose (CGM) em vez de glicemia capilar (certeza moderada; seis ECR; SMD −0,26).
- Sistemas automatizados de infusão de insulina (AID) em vez de não usá-los (certeza moderada; cinco ECR; SMD −0,15, com intervalo de confiança que cruza a nulidade, mas direção consistente a favor).
Não se sugere intervenção psicoeducacional adicional ao cuidado usual (certeza muito baixa), nem preferir abordagem psicológica, psicoeducacional ou educacional entre si. A recomendação sobre AID refere-se apenas ao desfecho emocional, sem considerar desfechos glicêmicos.
Saiba mais: Avanços no diagnóstico, acompanhamento e tratamento de diabetes tipo 1
Se o paciente tem diabetes tipo 2, psicoterapia e educação são opções
Para adultos com diabetes tipo 2, sugerem-se, além do cuidado usual, intervenções psicológicas (certeza muito baixa; 21 ECR; SMD −0,31), psicoeducacionais (certeza muito baixa; SMD −0,19, efeito limítrofe) e educacionais (certeza baixa; três ECR; SMD −0,34). Considera-se aceitável escolher entre abordagem psicológica ou educacional, e entre psicoeducacional ou educacional, conforme preferência do paciente e recursos locais.
O painel não sugere suporte entre pares isolado para reduzir o distress (certeza baixa; SMD −0,03), embora reconheça possíveis benefícios em outros desfechos. Também não se sugere CGM em vez de glicemia capilar apenas para esse fim (certeza muito baixa), em contraste com o observado no diabetes tipo 1.
Como aplicar a nova diretriz europeia no cuidado centrado na pessoa?
A certeza da evidência foi majoritariamente baixa, por imprecisão, heterogeneidade e uso frequente do distress como desfecho secundário. A exclusão de estudos não randomizados impediu recomendações GRADE sobre avaliação e sobre educação e suporte entre pares no diabetes tipo 1. Dos 248 estudos incluídos, apenas 30 foram conduzidos exclusivamente em países de baixa e média renda, o que limita a generalização. Os autores destacam que ausência de ECR não equivale a ineficácia.
Para o médico de ambulatório, na atenção primária ou especializada, a mensagem é incorporar o sofrimento emocional no diabetes à rotina, ao lado das metas glicêmicas. O médico passa a compreender os desafios enfrentados pelos pacientes com diabetes e seu manejo. A avaliação periódica, que deve ser realizada no mínimo anualmente, contribui para que as necessidades emocionais sejam identificadas e não negligenciadas. A própria diretriz reconhece que muitos serviços não dispõem de psicólogos com experiência em diabetes e que a CGM não está universalmente disponível; por isso, a EASD apoia a adaptação local do documento, aspecto relevante para a realidade brasileira. Perguntar ativamente, aplicar uma escala validada, registrar e pactuar um plano são condutas viáveis desde já.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Júlia Terra Knifis
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