A prevalência de diabetes tipo 2 cresce em proporções epidêmicas no mundo, principalmente pelo aumento da obesidade e do sedentarismo. Grande parte da morbidade e da mortalidade associadas à doença está relacionada a complicações micro e macrovasculares.
No curto prazo, níveis elevados de glicemia podem provocar sintomas como poliúria, polidipsia, perda de peso e desidratação. Com o passar do tempo, o diabetes pode se associar a complicações crônicas, como retinopatia, dor neuropática, alterações de sensibilidade, lesões nos pés, amputações, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e doença renal crônica.
Reduzir a glicemia pode diminuir substancialmente essas complicações. A questão central é: qual deve ser a intensidade desse controle e em quais pacientes?
Nesse contexto, a American College of Physicians (ACP) publicou, em 2018, uma diretriz propondo controle glicêmico mais moderado e individualizado no tratamento do diabetes tipo 2.

Diabetes tipo 2 e controle glicêmico individualizado
Tratamento guiado pelos níveis de hemoglobina glicada
A eficácia do tratamento do diabetes tipo 2 é avaliada principalmente pelos níveis de hemoglobina glicada, ou HbA1c, que refletem a média da glicemia nos últimos três meses.
As principais diretrizes recomendam iniciar e intensificar o tratamento medicamentoso até metas específicas de HbA1c, em geral entre 6,5% e 7%.
No entanto, o alvo ideal pode variar conforme o perfil do paciente, especialmente quando se considera a relação entre benefícios, riscos, custos e qualidade de vida.
Evidências sobre tratamento intensivo versus menos intensivo
A revisão analisada pela ACP considerou cinco grandes estudos randomizados que compararam estratégias intensivas e menos intensivas de tratamento do diabetes tipo 2.
Os estudos compararam níveis de HbA1c entre:
- 6,3% e 7,4% em estratégias intensivas;
- 7,3% e 8,4% em estratégias menos intensivas.
A conclusão foi que níveis de HbA1c abaixo de 7% não ofereceram redução consistente de eventos microvasculares clinicamente importantes, como perda visual, doença renal terminal ou neuropatia dolorosa.
Também não houve redução de eventos macrovasculares ou mortalidade nos pacientes com HbA1c menor que 7%.
Novos medicamentos e risco cardiovascular
Os novos medicamentos para tratamento do diabetes tipo 2, especialmente aqueles associados à redução do risco cardiovascular, reforçam que o manejo da doença vai além da busca por uma meta única de HbA1c.
Esse contexto fortalece a importância de uma abordagem individualizada, que considere risco cardiovascular, comorbidades, perfil do paciente, segurança terapêutica e qualidade de vida.
Diretriz ACP 2018 para diabetes tipo 2: principais recomendações
Metas individualizadas de hemoglobina glicada
A ACP recomenda que as metas de controle glicêmico no diabetes tipo 2 sejam personalizadas.
Essa definição deve considerar uma discussão entre médico e paciente sobre:
- benefícios e danos dos medicamentos;
- preferências do paciente;
- custos do tratamento;
- estado geral de saúde;
- expectativa de vida.
Hemoglobina glicada entre 7% e 8%
A ACP orientou que, na maioria dos pacientes com diabetes tipo 2, os clínicos busquem uma meta de HbA1c entre 7% e 8%.
Essa recomendação reflete uma proposta de controle glicêmico moderado, com foco em equilibrar benefícios clínicos e potenciais danos do tratamento intensivo.
Desintensificação do tratamento em HBA1c abaixo de 6,5%
A diretriz também recomendou considerar um tratamento medicamentoso menos intensivo em pacientes com diabetes tipo 2 que atingem níveis de HbA1c inferiores a 6,5%.
Esse ponto reforça a importância de reavaliar periodicamente a necessidade, a segurança e os objetivos do tratamento farmacológico.
Pacientes com expectativa de vida reduzida
Em pacientes com diabetes tipo 2 e expectativa de vida inferior a 10 anos, a ACP recomenda priorizar a minimização dos sintomas relacionados à hiperglicemia, em vez de perseguir uma meta específica de HbA1c.
Esse grupo inclui pacientes com:
- idade avançada, especialmente 80 anos ou mais;
- residência em casas de repouso;
- câncer;
- demência;
- doença renal em estágio final;
- doença pulmonar obstrutiva crônica grave;
- insuficiência cardíaca congestiva.
Nessa população, os danos de um tratamento intensivo podem superar os benefícios.
Atualização: diretriz 2025 da SBD sobre manejo do diabetes
Este artigo discute a recomendação da ACP de 2018 sobre metas de hemoglobina glicada no diabetes tipo 2. Desde então, novas diretrizes e atualizações ampliaram o debate sobre o manejo da doença, especialmente em relação à individualização do tratamento, ao risco cardiovascular e ao perfil clínico do paciente.
Para uma visão mais recente no contexto brasileiro, leia também no Portal Afya o conteúdo sobre a diretriz 2025 da SBD sobre manejo do diabetes, que reúne as principais mudanças nas recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Considerações finais
A recomendação da ACP sobre HbA1c entre 7% e 8% deve ser interpretada como uma proposta específica de controle glicêmico moderado e individualizado, publicada em 2018.
Para complementar a leitura com uma atualização brasileira mais recente, o Portal Afya também publicou um resumo da diretriz 2025 da SBD sobre manejo do diabetes, com mudanças nas recomendações de tratamento e acompanhamento de pacientes com diabetes.
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*Este conteúdo foi atualizado em: 14/05/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Autoria

Priscilla Martins
Mestranda em Endocrinologia e Metabologia pela UFRJ ⦁ Título de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM e AMB ⦁ Especialista em Endocrinologia pelo IEDE ⦁ Graduação em Medicina pela UFRJ
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