Nódulo de tireoide é uma patologia muito comum, mais frequente no sexo feminino, sendo prevalente em idades avançadas e de caráter benigno na maioria dos casos. Com o avanço dos métodos de imagem, a taxa de detecção de nódulos tireoidianos chega a 68% na prática clínica, enquanto a proporção de malignidade permanece entre 5% e 15%. Esse descompasso deslocou o manejo da simples identificação para a estratificação de risco, com o objetivo de otimizar decisões cirúrgicas e antecipar o diagnóstico do câncer de tireoide.
A ultrassonografia com contraste (CEUS) utiliza microbolhas injetadas por via intravenosa para mostrar, de forma dinâmica, o padrão de perfusão microvascular do nódulo, permitindo análises qualitativas e quantitativas. Ainda assim, padrões de realce podem se sobrepor entre lesões benignas e malignas, e o método costuma funcionar mais como complemento ao ultrassom convencional do que como substituto. Como os estudos com estratégias combinadas apresentam resultados inconsistentes e faltam comparações diretas entre elas, um grupo chinês conduziu uma metanálise em rede publicada na Frontiers in Endocrinology para comparar e ranquear essas abordagens.
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A metanálise em rede comparou estratégias combinadas com confirmação histopatológica
Trata-se de revisão sistemática com metanálise em rede bayesiana de acurácia diagnóstica, registrada no PROSPERO e conduzida segundo a diretriz PRISMA. A busca abrangeu PubMed, Web of Science, Embase e Cochrane até 15 de outubro de 2025, sem restrição de idioma ou região.
Foram incluídos estudos com pacientes sob suspeita de nódulo maligno, sem limite de idade, que avaliaram a CEUS isolada ou combinada com TI-RADS, elastografia ultrassonográfica, inteligência artificial (IA) ou ultrassom convencional, tendo a anatomia patológica como padrão-ouro. Modelos de aprendizado de máquina, revisões e estudos sem dados extraíveis foram excluídos. A qualidade foi avaliada pelo QUADAS-2.
Os desfechos principais foram sensibilidade, especificidade e área sob a curva ROC (AUC) agrupadas. Também foram estimados razão de chances diagnóstica (DOR), índice de superioridade e ranqueamento por SUCRA. Na análise de subgrupos, separaram-se populações de alto risco (TI-RADS 4–5, Bethesda V–VI, sinais suspeitos ou cirurgia programada) e populações sem estratificação de risco.
Ao todo, 26 estudos foram analisados, somando 5.022 nódulos de 4.484 pacientes, com 2.652 lesões malignas. Dos estudos, 24 eram da China, 19 eram coortes retrospectivas, e 17 foram classificados como de alta qualidade.
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Acurácia diagnóstica das estratégias combinadas supera a do contraste isolado
A CEUS isolada apresentou sensibilidade agrupada de 0,83 (IC95% 0,79–0,86), especificidade de 0,81 (IC95% 0,77–0,85) e AUC de 0,91 (IC95% 0,89–0,93). Todas as combinações tiveram desempenho superior ao do método isolado na avaliação dos nódulos tireoidianos.
A associação com elastografia obteve o maior índice de superioridade (3,47; IC95% 0,20–7), com sensibilidade de 0,92 (IC95% 0,88–0,95), especificidade de 0,83 (IC95% 0,75–0,89) e AUC de 0,97 (IC95% 0,96–0,99). A sensibilidade relativa em comparação com a CEUS isolada foi de 1,11 (IC95% 1,06–1,17). Nos estudos incluídos, essa combinação seguiu regra paralela, na qual o nódulo é considerado maligno quando qualquer um dos métodos sugere malignidade.
A combinação com TI-RADS alcançou sensibilidade de 0,92 (IC95% 0,89–0,94), sem ganho de especificidade (0,80). A associação com IA mostrou sensibilidade de 0,93 (IC95% 0,87–0,96). Já a integração com o ultrassom convencional teve a maior especificidade (0,90; IC95% 0,83–0,95), especificidade relativa de 1,11 (IC95% 1,02–1,18) e a maior DOR (78,89; IC95% 28,36–172,83), contra 21,73 (IC95% 15,19–30,37) da CEUS isolada. A heterogeneidade foi moderada (I² de 61% para sensibilidade e 60,3% para especificidade), sem inconsistência significativa entre evidências diretas e indiretas.
Inteligência artificial ganha relevância em nódulo de alto risco
Em 18 estudos com população de alto risco, a associação entre CEUS e IA apresentou a maior sensibilidade (0,95; IC95% 0,91–0,98; SUCRA 90%), com especificidade de 0,81 (IC95% 0,68–0,91), índice de superioridade de 3,81 (IC95% 0,33–9) e DOR de 109,05 (IC95% 33,80–272,61). A sensibilidade relativa foi de 1,15 (IC95% 1,09–1,21). O ultrassom convencional associado manteve a maior especificidade (0,90; IC95% 0,80–0,96).
Nos oito estudos sem estratificação de risco, a integração com o ultrassom convencional liderou, com sensibilidade de 0,89 (IC95% 0,74–0,97), especificidade de 0,88 (IC95% 0,69–0,97) e índice de superioridade de 5,29 (IC95% 0,33–9). Nesse subgrupo, porém, a heterogeneidade da sensibilidade foi elevada (I² 80,6%), e os intervalos de confiança foram amplos.
Os autores reconhecem limitações relevantes, como heterogeneidade metodológica nos critérios de CEUS, nos limiares de elastografia e de IA e nas regras de combinação, além do pequeno número de estudos em alguns subgrupos e da forte concentração de dados na China.
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Individualize o diagnóstico por imagem segundo o perfil do paciente
Os achados indicam que a CEUS mantém valor próprio, mas que associá-la a informações estruturais, de rigidez tecidual ou de análise morfológica automatizada amplia a acurácia na diferenciação de nódulos tireoidianos. A combinação com elastografia teve o melhor desempenho global; a IA pode agregar sensibilidade em nódulos com múltiplas características suspeitas; e o ultrassom convencional associado ao contraste parece útil para melhorar a especificidade em populações não estratificadas.
Na prática, a escolha da estratégia pode considerar a classificação TI-RADS e o objetivo da decisão clínica, priorizando sensibilidade sem perder de vista a especificidade, para reduzir procedimentos invasivos desnecessários. No contexto brasileiro, a aplicabilidade depende da disponibilidade de equipamento de contraste e de operadores experientes, e a predominância de estudos asiáticos exige validação em populações não asiáticas. Os resultados dos subgrupos devem ser vistos como tendências, e não como recomendações definitivas e, portanto, mais estudos de grande escala e a longo prazo são necessários para definir melhores padrões terapêuticos.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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