Neste artigo da série Afecções Dermatológicas na Infância, vamos falar sobre a celulite infecciosa. As infecções cutâneas na população pediátrica são comuns e podem variar de superficiais, como impetigo, a infecções mais profundas do tecido subcutâneo, como celulite, erisipela e abscessos.
Estabelecer a real incidência dos patógenos causadores é um desafio, pois muitas vezes a celulite e a erisipela não são cultiváveis. Os agentes etiológicos mais comuns são os estreptococos beta-hemolíticos (grupos A, B, C, G e F) e Staphylococcus aureus.
Veja também: Afecções dermatológicas na infância: Impetigo
Os fatores de risco para celulite incluem lesões cutâneas com quebra da barreira cutânea, queimaduras, incisões cirúrgicas, picadas de insetos e outras condições que comprometem a integridade da pele. Fatores como úlceras de membro inferior, dermatofitose e a colonização anal por estreptococos são fatores que predispõem infecções cutâneas por estreptococos ou estafilococos.
Sinais e sintomas
A celulite apresenta-se clinicamente com edema, dor, calor e eritema, afetando a derme profunda e o tecido subcutâneo. Pode manifestar-se como uma placa eritematosa dolorosa, com bordas mal definidas. A área afetada tem aumento de temperatura local, possui edema e eritema mal delimitados, em contraste com a erisipela, que tem uma lesão mais elevada e bem demarcada. Diferenciar entre celulite e erisipela pode ser desafiador, pois ambas as condições podem ter apresentações clínicas semelhantes. Sintomas sistêmicos, como febre e linfadenopatia, também podem estar presentes.
Diagnóstico
O diagnóstico de celulite é principalmente clínico. A forma grave pode ser identificada por eritema de evolução rápida, edema significativo, sintomas sistêmicos ou falha na terapia oral após 24 horas de antibióticos. Além disso, a celulite pode ser classificada como complicada ou não complicada. A celulite complicada inclui casos associados a abscessos, linfadenite, malformações dos tecidos moles, lesões penetrantes, corpos estranhos, fraturas, linfedema, comorbidades clínicas e imunossupressão. A hemocultura normalmente tem baixo rendimento diagnóstico, já que a infecção é geralmente localizada e a bacteremia é incomum.
Conduta diagnóstica
Exames de imagem, como ultrassonografia (USG), ressonância magnética (RM) e tomografia computadorizada (TC), são úteis para identificar extensão do quadro e detectar complicações como formação de abscessos. Radiografias podem ser usadas para descartar outras causas de inchaço dos tecidos moles, como fraturas subjacentes. Na USG, o edema do tecido subcutâneo pode apresentar um padrão característico de “paralelepípedo”. A TC é mais sensível para detecção de gás nos tecidos moles e corpos estranhos, enquanto a RM é indicada para identificar periostite ou osteomielite.
Tratamento
O tratamento antimicrobiano empírico deve ser iniciado rapidamente e ajustado conforme a identificação dos patógenos. A celulite leve pode ser tratada empiricamente com beta-lactâmicos, com ou sem associação de sulfametoxazol-trimetoprim (SMX-TMP). Em áreas com alta incidência de MRSA, pode-se considerar a adição de um agente ativo contra MRSA, como vancomicina, clindamicina ou linezolida.
A maioria dos pacientes com celulite leve tem melhora com 24 a 48 horas após o início da terapia antimicrobiana. A persistência dos sintomas após esse período pode indicar a presença de patógenos resistentes, quadros complicados ou um diagnóstico alternativo, exigindo revisão dos dados microbiológicos e possível ajuste no tratamento.
Para casos de celulite grave, com progressão rápida ou sepse clínica, são indicados antibióticos parenterais, como oxacilina ou ampicilina-sulbactam em locais com baixa taxa de infecção por MRSA. Se houver suspeita de MRSA, um agente ativo contra MRSA deve ser utilizado. A combinação de oxacilina com ceftriaxona pode melhorar rapidamente a condição clínica das crianças, mas os dados disponíveis são limitados.
O uso de ceftriaxona intravenosa administrada em casa é descrito na literatura e parece ser uma opção segura para crianças com celulite moderada à grave, sem sintomas sistêmicos, em áreas com baixa taxa de infecção por MRSA, reduzindo o tempo de internação. Neonatos com celulite infecciosa geralmente requerem hospitalização e terapia parenteral imediata com cobertura para estreptococos beta-hemolíticos do grupo B e MRSA, com duração do tratamento de até 14 dias em casos graves ou com resposta lenta à terapia.
Saiba mais: Dupilumabe incorporado no rol da ANS para dermatite atópica grave em bebês
Mensagem prática
As complicações possíveis da celulite infecciosa incluem abscesso local, fasciíte necrosante e sepse. Endocardite, glomerulonefrite, osteomielite, choque tóxico e elefantíase verrucosa também são descritas. A celulite altera os vasos linfáticos e causa linfedema subsequente, que predispõe quadros recorrentes. No caso da celulite orbitária, se não for tratada, pode levar a complicações significativas, incluindo perda de visão, meningite e abscessos intracranianos.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.