Quando o estudante de medicina chega nos últimos períodos da faculdade, dominar algumas informações e práticas passa a ser uma obrigação para chegar aos primeiros plantões pós-formados sem passar por apuros.
Além das situações clínicas mais comuns nos primeiros atendimentos, outro tópico extremamente importante para a prática imediata em hospital, pronto-socorro e enfermaria é saber quais são os exames laboratoriais que não podem deixar de serem solicitados para uma decisão clínica e como interpretá-los.
Embora a anamnese completa e o exame físico sejam a base de um bom atendimento, segundo Molinaro (2012), cerca de 60% a 70% das decisões médicas são baseadas em resultados laboratoriais. Isso torna o domínio desses exames indispensável, especialmente em contextos que exigem decisões rápidas. Vale salvar este conteúdo para revisar antes de provas ou plantões.

Exames laboratoriais essenciais
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Hemograma completo
Esse é provavelmente o exame que mais acompanha o interno pelas enfermarias, ensina a pensar como clínico e que vai, com certeza, estar presente nos atendimentos no início de carreira, desde o primeiro plantão.
Indicações comuns: Febre sem foco, piora clínica inexplicada, suspeita de infecção grave, sinais de sangramento, anemia sintomática, avaliação pré-operatória em pacientes instáveis e abordagem inicial no pronto-socorro.
Dica prática: Não se limite a avaliar os valores isolados, compreenda a clínica do paciente como um todo, isso pode mudar condutas. Saiba mais aqui.
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Função renal (uréia e creatinina)
Você pode pedi-lo quando há alteração hemodinâmica, desidratação, uso de medicações nefrotóxicas, suspeita de lesão renal ou necessidade de ajuste de fármacos.
Dica prática: É um exame que precisa ser analisado dentro do contexto do paciente, com base em tendência, e não somente pelos valores isolados da creatinina ou da uréia. Para interpretá-lo, compare com valores prévios, avalie débito urinário, hidratação, uso de contraste e histórico do paciente.
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Função hepática (TGO, TGP, FA, GGT, bilirrubinas)
É um conjunto de exames para ser solicitado quando há icterícia, dor em hipocôndrio direito, alteração do nível de consciência em alcoolistas, uso de drogas hepatotóxicas, história de hepatite, sepse, choque ou suspeita de obstrução biliar.
Também pode ser útil como parte da avaliação inicial em pacientes com sintomas inespecíficos, como fadiga ou dor abdominal persistente.
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Eletrólitos (sódio e potássio)
Um exame que pode ser solicitado quando o paciente estiver usando diuréticos, apresentar vômitos, diarreia, alteração do nível de consciência, arritmias ou risco clínico de distúrbios hidroeletrolíticos.
Dicas práticas:
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Potássio elevado exige conduta imediata e deve ser interpretado junto ao ECG.
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O sódio reflete mais o estado hídrico do que o consumo de sal. Atenção às correções rápidas.
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Gasometria arterial ou venosa
Exame importante no Pronto Socorro e na UTI, em situações em que o paciente tem dispneia, alteração ventilatória, instabilidade hemodinâmica, suspeita de acidose metabólica, rebaixamento de consciência, sepse grave ou piora clínica inexplicada.
Normalmente mal compreendido pelos estudantes, a gasometria é um exame que mostra mais do que acidose ou alcalose e precisa ser bem interpretado de forma clínica.
Dica prática: Entenda qual sistema está causando o distúrbio e qual está compensando. Use a gasometria venosa para acompanhamento de pH e bicarbonato; reserve a arterial para avaliação da oxigenação.
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Glicemia e hemoglobina glicada
Normalmente quando ainda somos estudantes costumamos considerar a glicemia um exame comum, mas quando ele é solicitado pode ajudar em situações como alteração do nível de consciência, quadros infecciosos, suspeita de cetoacidose diabética e em paciente que esteja recebendo glicose, insulina ou corticoide.
A hemoglobina glicada mostra se o descontrole é recente ou crônico e entra em cenários ambulatoriais, internações prolongadas ou investigação de descontrole glicêmico, mas deve ser interpretada com cuidado porque situações como anemia e transfusões, por exemplo, podem alterar os valores.
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EAS – Urina tipo 1
Um dos exames mais subestimado por estudantes por ser um exame simples, também é um dos que podem transmitir mais informações. Deve ser solicitado quando há febre sem foco, sintomas urinários, alteração renal, suspeita de ITU, proteinúria, hematúria ou avaliação de edema.
Dica prática: Avalie todos os elementos em conjunto com a clínica. Nitrito positivo isolado ou leucocitúria sem sintomas nem sempre confirmam infecção.
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Troponina
Está na lista dos principais exames, mas precisa ser usada com responsabilidade. Ela deve ser solicitada apenas quando há suspeita real de síndrome coronariana, como dor torácica típica, equivalentes anginosos, dispneia súbita ou alteração no ECG.
Dica prática: Troponina não é sinônimo de infarto. A troponina também pode subir em sepse, TEP, insuficiência cardíaca, taquiarritmias e até em lesão renal, por isso é mais importante que você observe com atenção a curva durante a interpretação do que valores isolados.
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Lactato
Lactato deve ser solicitado em casos de suspeita de sepse, choque de qualquer causa, crises convulsivas, intoxicações, esforço extremo, hipoxemia e pós-operatório complicado. Ele é um marcador da perfusão tecidual e deve ser observado pela tendência. Quando ele cai após medidas iniciais, você sabe que o paciente está respondendo. Quando não cai, o corpo está dizendo que ainda falta algo.
Há diversos outros exames que o interno deve conhecer e compreender ao final dos estágios obrigatórios e antes do início da prática como médico.
Autoria

Juliana Karpinski
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