Aplicativos que monitoram sinais vitais, programas que interpretam exames complementares, inteligência artificial que transcreve sua consulta, prescrições feitas por voz ou pelo smartwatch, dispositivos vestíveis inteligentes, ferramentas que permitem a troca e armazenamento de dados.
A tecnologia na saúde já deixou claro que está vindo para facilitar a prática médica, melhorar os desfechos em saúde, aperfeiçoar diagnósticos e oferecer mais segurança ao paciente. E vemos isso na prática todos os dias, com os novos recursos e dispositivos que estão se multiplicando com soluções para as mais diversas dores da área médica.
Mas se você é um médico aberto à inovação e que tem o hábito de estar entre os primeiros a experimentar e adotar novas tecnologias, também chamado de early adopter, já deve ter se questionado em algum momento sobre como saber quais dessas tecnologias realmente vieram para ficar e vão ser incorporadas ao nosso dia a dia e quais são apenas uma tendência passageira ou modismo?

Como avaliar se uma tecnologia médica é realmente inovadora?
Avaliar o quanto um dispositivo médico é inovador e pode ou não ser incorporado ao nosso fluxo de atendimento é difícil porque envolve fatores além de apenas solucionar um problema. Uma novidade tecnológica também deve ser analisada pelas interações existentes entre dispositivos e sistemas, ou interoperabilidade, pela qualidade e níveis das evidências disponíveis e pelo impacto real que essa tecnologia tem na vida do paciente.
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Segundo o Health technology assessment of medical devices, second edition (WHO, 2025), a avaliação de uma tecnologia em saúde precisa ter como base alguns princípios importantes, como ser imparcial, democrática e inclusiva, ter critérios definidos, utilizar dados e evidências, respeitar as diferenças entre dados, diálogo e decisão, garantir mecanismos de financiamento e de prestação de serviços para promover a qualidade da assistência e ser aberta e transparente em todas as etapas. E boa parte dessas informações, nem passam nem perto dos nossos pensamentos nos primeiros momentos em que testamos um novo aplicativo ou dispositivos durante aquele plantão cheio de contratempos.
Quais critérios indicam impacto real na prática médica?
Pensando ainda nessa avaliação de tecnologias disruptivas na saúde, Perleth, Di Bidino e Huang (2022) também apontam mais alguns preditores que deveriam ser observados. Segundo eles, uma nova tecnologia deve incluir a melhoria dos resultados para os pacientes, facilitar o acesso aos cuidados de saúde, contribuir para a redução de custos e para a acessibilidade financeira, transformar a organização dos cuidados de saúde, entre outros argumentos.
É claro que ao avaliarmos um recurso inovador, é importante ter em mente que o julgamento clínico jamais deve ser substituído por uma tecnológica, principalmente considerando que pode ser só uma tendência ou modismo. Mas uma tecnologia também não precisa, e não deve, ser descartada ou subestimada apenas por ser algo novo na prática médica. É preciso entender a fundo o que ela oferece de benefícios e riscos.
7 perguntas para avaliar uma nova tecnologia na prática médica
Pensando nisso, a seguir você confere algumas perguntas que podem ser feitas para direcionar sua avaliação diante de um dispositivo inovador:
- A nova tecnologia resolve um problema clínico relevante ou muda decisões, processos ou resultados?
Um dos primeiros pontos que nós, médicos, devemos considerar ao avaliar uma inovação é que, uma tecnologia, para ser considerada relevante, e não apenas modismo, deve ter o objetivo resolver um problema clínico importante que impacta em decisões, processos ou resultados na prática. Se uma tecnologia parece interessante, mas não melhora desfechos, segurança, eficiência ou acesso à saúde de forma que possa ser mensurada, provavelmente é, sim, apenas uma modinha.
- A tecnologia passou por validação técnica e clínica?
Qualquer inovação médica de impacto precisa passar por camadas de validação. Nisso, precisamos considerar a validação técnica para avaliar se ela funciona como promete em performance com populações reais e estudos de efetividade para avaliar a melhora desfechos clínicos, de processos ou de custos na prática. Para tecnologias diagnósticas e prognósticas ainda mais validações ainda são importantes como coortes externas e avaliação de utilidade clínica, por exemplo.
- Essa tecnologia demanda grandes mudanças de fluxo, tempo adicional ou retrabalho?
Uma tecnologia que exige grandes mudanças de fluxo, tempo adicional considerável ou trabalho redundante tem pouca chance de causar impacto amplo dentro da prática clínica. Por isso, avalie como ela se integra ao prontuário eletrônico, aos sistemas de prescrição, à rotina da equipe e à jornada do paciente.
- A usabilidade dessa tecnologia foi testada por profissionais ou pacientes reais?
Qual o tempo gasto para completar tarefas, taxa de erros, grau de satisfação ou quantas pessoas param de usar a nova tecnologia? Esse tipo de informação ajuda a ter uma ideia se a solução proposta irá sobreviver ao longo do tempo. Para isso, simule por um período curto como essa tecnologia se integra com o fluxo clínico, com métricas como tempo médio por paciente, taxa de alarmes falsos, adesão dos profissionais.
- Os recursos humanos e financeiros para a nova tecnologia são viáveis?
Tecnologias que são clinicamente boas também podem ser impraticáveis quando dependem de muitos recursos humanos ou financeiros. Tentar entender, mesmo que de forma superficial, qual é o modelo de negócio desse recurso, com informações como quem paga, por quanto tempo e quais são os custos ajuda a compreender se a tecnologia tem condições de se sustentar do ponto de vista de um novo negócio.
- A tecnologia atende os requisitos de proteção de dados do paciente e conformidade com regulação?
Em saúde, a governança de dados e conformidade regulatória não é detalhe, é pré-requisito, e deve estar em primeiro plano para qualquer nova tecnologia. Dispositivos ou aplicativos que precisam de grande quantidade de dados ou de inteligência artificial devem explicar detalhes de como foram treinados e quais vieses existem, por exemplo.
- Quem se beneficiará com essa tecnologia? Há risco de ampliar desigualdades clínicas?
Uma inovação em saúde só faz sentido quando melhora a vida das pessoas de forma ampla e justa. Por isso, vale sempre perguntar quem se beneficia, de fato, da nova tecnologia. Uma solução pode ser tecnicamente válida e eficiente do ponto de vista operacional, mas ainda assim gerar pouco impacto direcionado para um grupo restrito de pacientes ou aumentando as barreiras de acesso e desigualdades já existentes.
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Autoria

Juliana Karpinski
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