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Carreira27 agosto 2026

Segurança do paciente: quando a hierarquia silencia um alerta clínico

Residente suspeita de diagnóstico grave, mas é silenciada pela rotina de uma emergência lotada.

A sala vermelha estava cheia quando o senhor Antônio, 67 anos, chegou à emergência com dor torácica atípica, sudorese fria e leve confusão. Havia pacientes em macas nos corredores, familiares pressionando por notícias e uma equipe reduzida tentando manter algum fluxo.

O plantonista responsável, Dr. Renato, tinha mais de 30 anos de pronto-socorro. Era conhecido por decidir rápido, antecipar deteriorações e “sentir” quando um caso era grave. Ao seu lado estava Marina, residente do primeiro ano de clínica médica, ainda insegura na voz, mas cuidadosa na observação.

Antônio apresentava pressão limítrofe, frequência cardíaca elevada e dor epigástrica irradiada para o dorso. O eletrocardiograma não mostrava supradesnivelamento do segmento ST.

Dr. Renato concluiu que provavelmente se tratava de síndrome dispéptica associada a ansiedade e desidratação leve. Solicitou exames laboratoriais, hidratação venosa e analgesia.

Ao examinar o paciente, Marina percebeu assimetria discreta de pulsos, sopro diastólico suave e uma inquietação que não combinava com o diagnóstico inicial. Aproximou-se do preceptor e disse:

— Doutor, acho que precisamos considerar dissecção aguda de aorta. A dor para o dorso, a pressão limítrofe e essa diferença de pulso me preocupam.

Dr. Renato não levantou os olhos da prescrição. Respondeu que, em uma emergência lotada, era preciso saber diferenciar uma hipótese possível de uma hipótese provável. Disse que já tinha visto centenas de pacientes assim e que “nem toda dor irradiada é catástrofe vascular”.

Marina tentou argumentar, mas a conversa terminou com uma frase curta:

— Vamos seguir o plano.

A residente se calou. Não por concordar, mas por reconhecer o peso da hierarquia médica.

Duas horas depois, Antônio apresentou hipotensão súbita, rebaixamento do nível de consciência e dor torácica intensa. A tomografia solicitada em caráter de urgência mostrou dissecção de aorta tipo A.

O paciente foi transferido para cirurgia cardiovascular, mas chegou instável ao centro cirúrgico. Ao rever o caso, Dr. Renato percebeu que a hipótese levantada por Marina era a que deveria ter reorganizado a condução desde o início.

Segurança do paciente e hierarquia médica

Quando a autoridade clínica cria zonas cegas

O dilema ético desse caso não está apenas no erro diagnóstico. O erro, em medicina, pode ocorrer mesmo diante de profissionais atentos e bem qualificados.

A questão central é outra: quando a experiência, que deveria proteger o paciente, passa a funcionar como barreira à escuta?

A senioridade é valiosa porque acumula repertório, reconhece padrões e evita atrasos em contextos de pressão. No entanto, quando se transforma em certeza impermeável, pode criar zonas cegas.

A emergência, justamente por ser um ambiente de alto risco, exige decisões rápidas. Isso, porém, não autoriza decisões solitárias, principalmente quando outro membro da equipe identifica sinais de alerta.

O contraditório como ferramenta de segurança do paciente

O Código de Ética Médica afirma que a medicina está a serviço da saúde do ser humano e da coletividade, sem discriminação. Além disso, organiza princípios, direitos e deveres profissionais voltados à boa prática médica.

Também impõe ao médico o dever de exercer a profissão com zelo, competência e prudência, utilizando o melhor do progresso científico em benefício do paciente.

Nesse contexto, ouvir uma hipótese divergente não é gentileza institucional. É parte da prudência. O contraditório qualificado funciona como instrumento de segurança do paciente.

A discussão com os residentes deve evitar duas simplificações.

A primeira é transformar o médico experiente em vilão. Dr. Renato estava sob sobrecarga, com múltiplos pacientes graves e responsabilidade assistencial real.

A segunda é romantizar a intuição da residente, como se todo alerta devesse necessariamente prevalecer.

O ponto ético está em construir uma cultura na qual qualquer membro da equipe possa formular uma preocupação objetiva, e o responsável técnico tenha o dever de respondê-la com método:

  • Qual dado sustenta essa hipótese?
  • O que ela mudaria na conduta?
  • Qual exame ou reavaliação poderia reduzir esse risco?

Como fortalecer a segurança do paciente diante da discordância

Criar uma pausa diante de alertas clínicos relevantes

Uma solução prática seria instituir, mesmo em plantões cheios, uma pausa breve diante de discordâncias relevantes.

Não se trata de realizar uma assembleia clínica, mas de promover uma escuta estruturada.

Caso Marina dissesse “tenho preocupação com um diagnóstico tempo-dependente”, Dr. Renato poderia interromper sua atividade por um minuto, revisar os pulsos, auscultar novamente, verificar a pressão nos dois braços e decidir se a tomografia estava indicada.

Ainda que mantivesse sua hipótese inicial, deveria registrar a reavaliação e justificar a decisão. Esse registro não seria apenas uma defesa burocrática, mas uma expressão do raciocínio clínico responsável.

Leia mais: ACP 2025: erros diagnósticos comuns — como identificar e lidar com eles

Reconhecer o erro sem buscar culpados

Depois do desfecho, a atitude ética esperada do preceptor não seria procurar culpados nem se humilhar diante da equipe.

Seria reconhecer, em uma reunião protegida, que uma hipótese pertinente foi insuficientemente considerada.

Com Marina, caberia uma conversa direta:

— Você percebeu algo importante. Eu deveria ter parado para ouvir melhor.

Com os demais residentes, o aprendizado seria claro: respeito à hierarquia não significa silêncio, assim como liderança clínica não significa infalibilidade.

Leia mais: Erros diagnósticos na terapia intensiva

Transformar experiência em liderança aberta

A série de casos do Portal Afya valoriza histórias de cuidado que mostram a medicina para além do diagnóstico, explorando nuances humanas, comunicação e relacionamento médico-paciente.

Este caso amplia essa perspectiva para o relacionamento dentro da equipe. O paciente também é cuidado — ou desprotegido — pela forma como os profissionais se escutam.

A experiência é uma das maiores ferramentas da medicina, mas precisa permanecer porosa à dúvida.

O bom preceptor não é aquele que nunca erra. É aquele que cria condições para que o erro seja percebido antes de alcançar o paciente.

 

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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Referências bibliográficas

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