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Carreira21 março 2026

Saiba como combater o racismo estrutural nas instituições de saúde

Reconheça o impacto do racismo estrutural na trajetória de médicos negros e seus reflexos nas instituições de saúde
Por Redação Afya

No 21 de março, Dia Internacional contra a Discriminação Racial, o debate sobre racismo estrutural na saúde costuma se concentrar, com razão, nos impactos sobre os pacientes. Mas há uma face menos visível e igualmente urgente desse problema: a forma como o racismo atravessa a trajetória de médicos e profissionais de saúde negros dentro das instituições, desde a formação até os espaços de poder e decisão.

Reconhecer essa realidade é fundamental não apenas para garantir direitos profissionais, mas também para qualificar o cuidado oferecido à população.

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Uma herança histórica que molda as instituições

Para a ginecologista Dra. Mariana Ferreira, o racismo estrutural não é um fenômeno pontual nem recente: ele está enraizado na própria formação da sociedade brasileira.
“A sociedade em que vivemos foi construída a partir da exploração e da escravização de pessoas negras, sustentada por estereótipos racistas que justificavam esse sistema por mais de três séculos. Mesmo após o fim formal da escravidão, há menos de 150 anos, esse imaginário permaneceu ativo”, afirma.

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Segundo ela, esse legado atravessa também as instituições de saúde. Ideias preconceituosas, muitas vezes inconscientes, acabam orientando relações profissionais, decisões clínicas e práticas de gestão. “O racismo não desaparece quando entramos em um hospital ou universidade. Ele apenas assume formas mais sutis”, explica.

A médica destaca ainda que reduzir a desigualdade racial à questão de classe social é um erro comum. “Mesmo quando pessoas negras apresentam o mesmo status socioeconômico que pessoas brancas, inclusive na rede privada, os desfechos em saúde seguem piores. Isso mostra que estamos lidando com um problema estrutural, não apenas econômico”, ressalta.

A presença negra na medicina ainda é exceção

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Apesar de pretos e pardos representarem cerca de 56% da população brasileira, essa maioria não se reflete nos quadros médicos. Dados analisados a partir da Demografia Médica e de levantamentos do Conselho Federal de Medicina indicam que médicos autodeclarados pretos ainda são minoria expressiva na profissão, ainda mais em especialidades de maior prestígio e em cargos de liderança.

Para Dra. Mariana, essa sub-representação é resultado direto de barreiras acumuladas ao longo do percurso educacional. “O acesso à faculdade de medicina ainda é extremamente elitizado e majoritariamente branco. Ampliar a presença de pessoas negras na medicina não é apenas uma pauta identitária, mas uma necessidade estrutural para o sistema de saúde”, afirma.

Racismo que não grita, mas pesa

No cotidiano institucional, o racismo raramente se manifesta de forma explícita. Ele aparece nas microagressões, nos silêncios e nas desconfianças reiteradas. Médicos negros relatam ser frequentemente confundidos com outros membros da equipe, ter sua competência questionada e enfrentar resistência de pacientes, mesmo quando devidamente identificados.

“Ainda é comum que pessoas duvidem da capacidade técnica do médico negro, perguntando ‘onde está o médico’, mesmo quando ele está claramente à frente do atendimento”, observa Dra. Mariana. Segundo ela, essa necessidade constante de provar competência tem impacto direto na saúde mental desses profissionais.

Somada à rotina já estressante da prática médica, a vivência contínua do racismo cria um ambiente hostil, marcado por isolamento institucional e ausência de pares. “É um desgaste silencioso, mas profundo, que compromete permanência, ascensão profissional e bem-estar”, completa.

O corpo da mulher negra e a desigualdade no cuidado

Como ginecologista, Dra. Mariana destaca que o racismo estrutural se expressa de forma ainda mais evidente no cuidado à saúde da mulher negra. Diversos estudos nacionais e internacionais apontam piores indicadores assistenciais nesse grupo.

“Há menor cobertura de mamografia entre mulheres pretas e pardas no SUS, menor acesso à analgesia de parto, maior peregrinação entre maternidades e taxas mais elevadas de mortalidade no período gravídico-puerperal”, enumera. Mesmo na rede privada, mulheres negras recebem menos orientações sobre amamentação e são menos encaminhadas para técnicas cirúrgicas minimamente invasivas.

Essas desigualdades, segundo a médica, não se explicam apenas por fatores biológicos. “Embora algumas condições, como a pré-eclâmpsia, sejam mais prevalentes em mulheres negras, isso exige mais vigilância e cuidado, não negligência”, alerta.

Formação médica e responsabilidade institucional

Para Dra. Mariana, uma das raízes do problema está na formação médica. A ausência de raça como determinante de saúde nos currículos contribui para a reprodução de desigualdades no exercício profissional.

“É preciso nomear o problema como racismo na medicina para poder enfrentá-lo. Discutir raça, gênero e determinantes sociais de forma transversal amplia a capacidade clínica, reduz vieses e melhora o cuidado”, afirma.

Ela defende a criação de disciplinas específicas sobre saúde da população negra, o uso sistemático da identificação racial nos prontuários e pesquisas, além da ampliação do acesso de pessoas negras às faculdades de medicina.

Do diagnóstico à ação

No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, a mensagem central, segundo Dra. Mariana, é clara: compromisso antirracista não se faz com campanhas pontuais, mas com mudanças estruturais.

“Uma medicina antirracista passa necessariamente pela ampliação do número de médicos negros, pela valorização desses profissionais e pelo reconhecimento de que o racismo atravessa tanto o cuidado quanto quem cuida”, afirma.

Sendo assim, combater o racismo estrutural nas instituições de saúde é uma exigência ética e assistencial. Ignorá-lo significa perpetuar desigualdades, adoecer profissionais e comprometer a qualidade do cuidado.

Uma medicina verdadeiramente comprometida com a vida precisa, antes de tudo, reconhecer quem ela historicamente deixou de fora. E, principalmente, agir para transformar essa realidade.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.

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