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Carreira10 setembro 2026

Priorização de leitos de UTI: quem deve receber o último ventilador?

Priorização de leitos de UTI coloca médicos diante de critérios clínicos, escassez de recursos e sofrimento moral em decisões críticas.

Em uma emergência superlotada, uma gestante em estado grave e uma criança com insuficiência respiratória disputam o mesmo recurso crítico.

Era pouco depois das 19h quando a emergência já havia ultrapassado sua capacidade operacional. Macas ocupavam os corredores, familiares pressionavam a recepção e o som contínuo dos monitores compunha o cenário familiar — e exaustivo — de um plantão em colapso.

A equipe médica havia recebido a informação de que o hospital regional de referência estava sem vagas em UTI. Restavam apenas dois ventiladores mecânicos disponíveis em toda a unidade.

A chegada simultânea de dois pacientes críticos

Na sala vermelha, Ana Paula, 32 anos, grávida de 33 semanas, chegava transferida de uma UPA com diagnóstico de sepse pulmonar grave. Hipoxêmica, taquipneica e febril, já apresentava sinais de fadiga respiratória importante.

O obstetra que a acompanhava alertava para sofrimento fetal iminente. A possibilidade de uma cesariana de urgência existia, mas dependia de estabilização materna mínima — algo improvável sem suporte ventilatório avançado.

Quase simultaneamente, deu entrada Miguel, 5 anos, previamente hígido, trazido pela mãe após rápida piora de uma pneumonia bacteriana. Apresentava saturação de 78%, mesmo sob máscara não reinalante, e alternava períodos de agitação e sonolência.

A radiografia mostrava acometimento pulmonar extenso, e o pediatra plantonista descrevia clara iminência de insuficiência respiratória aguda.

Havia apenas um leito de terapia intensiva disponível e um único ventilador funcional naquele setor. O segundo equipamento apresentava falhas intermitentes, e não havia equipe suficiente para manter ventilação manual prolongada com segurança.

A coordenação regional informava não haver previsão de transferência nas horas seguintes.

O dilema na priorização de leitos de UTI

A discussão começou silenciosa e técnica, como frequentemente ocorre diante de dilemas éticos reais.

Qual paciente deveria receber prioridade?

A gestante, por potencialmente representar duas vidas? A criança, com maior probabilidade estatística de recuperação plena? Ou haveria outro critério moralmente defensável?

O residente mais jovem argumentou que Miguel apresentava melhor prognóstico imediato. A intensivista ponderou que Ana Paula poderia deteriorar rapidamente sem ventilação, comprometendo também o feto.

Um dos profissionais sugeriu adotar o critério de “quem chegou primeiro”, enquanto outro defendia a priorização de quem apresentasse maior possibilidade de benefício terapêutico.

Em poucos minutos, a discussão deixou de ser apenas médica e passou a revelar o peso humano da escassez.

Critérios objetivos versus decisões emocionais

A medicina costuma ser ensinada sob o ideal de oferecer o melhor cuidado possível a todos. Entretanto, em cenários de limitação extrema de recursos, o profissional deixa de escolher apenas tratamentos e passa a estabelecer prioridades.

Esse deslocamento produz sofrimento moral significativo, sobretudo quando não existe uma solução plenamente justa.

O Código de Ética Médica determina que o médico deve empregar todos os meios cientificamente reconhecidos e disponíveis em favor do paciente. Também reconhece, entretanto, que as decisões devem considerar a disponibilidade de recursos e critérios técnicos objetivos.

O problema surge quando a estrutura não comporta a demanda e transfere ao profissional uma responsabilidade que deveria ser compartilhada institucionalmente.

Leia mais: Reflita sobre dilemas éticos enfrentados por médicos experientes

Por que decisões intuitivas podem ser perigosas?

Nessas situações, decisões individuais e intuitivas tendem a ser perigosas. Critérios subjetivos, como idade, aparência, vínculo emocional ou pressão familiar, podem interferir no julgamento.

Por isso, protocolos transparentes de priorização tornam-se fundamentais. O foco deve recair sobre critérios clínicos objetivos, como:

  • prognóstico;
  • reversibilidade do quadro;
  • benefício esperado da intervenção;
  • gravidade clínica.

Leia mais: Protocolos de ventilação mecânica e desfechos em UTIP

A decisão da equipe médica

Após discussão conjunta entre intensivista, obstetra, pediatra e coordenação hospitalar, definiu-se pela priorização imediata da ventilação mecânica para Miguel.

A equipe entendeu que a criança apresentava maior probabilidade de recuperação rápida com suporte intensivo.

Paralelamente, Ana Paula recebeu ventilação não invasiva máxima, antibioticoterapia de amplo espectro e monitorização contínua, enquanto se buscava uma transferência emergencial.

A decisão não trouxe alívio.

A obstetra chorou discretamente após telefonar para a central de regulação. O residente evitava olhar para o marido de Ana Paula no corredor. A equipe de enfermagem dividia-se entre o desconforto ético e a necessidade de continuar funcionando diante dos outros pacientes que seguiam chegando.

Duas horas depois, uma vaga foi liberada em outro hospital. Ana Paula conseguiu ser transferida em estado crítico e, posteriormente, foi submetida a uma cesariana de emergência.

Miguel respondeu bem às primeiras 24 horas de ventilação e apresentou melhora progressiva.

Ainda assim, ninguém saiu ileso daquele plantão.

Leia mais: Saiba como o Código de Ética Médica orienta a relação com pacientes e familiares

O sofrimento moral da equipe diante da escassez

Casos como esse expõem uma dimensão pouco discutida da prática médica: o sofrimento moral do profissional diante da impossibilidade de oferecer tudo a todos.

A angústia não decorre apenas do risco de morte, mas da percepção de injustiça estrutural. Médicos não deveriam decidir sozinhos quem terá acesso ao cuidado crítico. Quando a escassez se torna rotina, há uma falha sistêmica anterior ao ato médico.

Ao residente, permanece uma das lições mais difíceis da formação: ética médica não é escolher entre o bem e o mal, mas frequentemente entre alternativas imperfeitas.

Nesses momentos, humanidade não significa apenas salvar vidas. Significa também sustentar decisões difíceis com transparência, responsabilidade coletiva e respeito à dignidade de todos os envolvidos.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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