Prescrever não é somente informar ao paciente sobre uma medicação. Cada prescrição envolve escutar com atenção, examinar, formular hipóteses, definir objetivos terapêuticos, fazer a escolha adequada, estabelecer dose, via, frequência e duração, orientar o paciente e acompanhar possíveis eventos adversos. Talvez seja um dos atos que mais definem a prática médica.
Quando ainda somos estudantes, discutimos condutas e sugerimos prescrições, mas a responsabilidade final ainda é do preceptor. Isso muda após a formatura. Quando chega o dia de assinar as primeiras prescrições, o recém-formado descobre a insegurança associada à responsabilidade envolvida, além do peso jurídico, ético e clínico.
Ross e Maxell (2012) reforçam o quanto, ao longo dos estudos, espera-se que os estudantes aprendam o mecanismo de ação, as indicações de uso, as contraindicações e os efeitos adversos dos medicamentos. Principalmente, espera-se que internos compreendam que o paciente à sua frente pode ser um idoso frágil, uma gestante ou um paciente renal crônico. É nesse ponto que cada prescrição precisa ser pensada de forma individualizada, com atenção aos detalhes.
Mais do que decorar nomes de medicamentos, o interno precisa dominar padrões de raciocínio terapêutico. Em vez de pensar apenas em qual remédio usar para cada doença, a estratégia é treinar o foco no objetivo. Controlar a dor? Reduzir a pressão? Tratar uma infecção? Esse ajuste muda o direcionamento do raciocínio na hora da prescrição.
Isso não significa ter todas as doses na cabeça, exceto algumas medicações de emergência. O importante, nesse contexto, é saber onde consultar rapidamente informações sobre as prescrições e compreender os princípios do raciocínio terapêutico. O Whitebook é um exemplo de suporte relevante na palma da mão para o médico que está fazendo suas primeiras prescrições.
Saiba mais: Conheça aplicativos de decisão clínica e sua importância no início da carreira
Como aprender a prescrever com segurança
No artigo “Twelve tips for facilitating medical students prescribing learning on clinical placement”, Linton e Murdoch-Eaton (2020) discutem estratégias que podem ajudar o estudante de medicina a se sentir mais seguro ao prescrever. A seguir, você confere algumas dessas orientações:
- Comece a praticar prescrição desde os primeiros anos do curso. Escreva. Reescreva. Pergunte. Corrija. Observe como preceptores diferentes pensam. Compare condutas. Pergunte o porquê.
- Estude com atenção redobrada os medicamentos de alto risco, como insulina, anticoagulantes, opioides e sedativos. Eles concentram grande parte dos eventos adversos evitáveis.
- Aprenda com farmacêuticos, residentes e outros membros da equipe. Peça feedback específico sobre suas prescrições e use esse retorno para entender o que poderia ter sido feito melhor.
- Envolva-se em toda a consulta durante o internato. Acompanhe qual foi o diagnóstico, por que determinada medicação e forma de administração foram escolhidas e como é feito o seguimento.
Completo essa lista com alguns conselhos práticos pessoais que me ajudaram nos primeiros atendimentos após a formatura. Monte e mantenha sempre disponível nos plantões a sua lista pessoal dos medicamentos que você mais usa, com dose habitual, dose máxima e principais contraindicações. Também tenha a relação de quais medicamentos estão disponíveis no SUS e revise essa lista frequentemente conforme os protocolos.
Outro conselho é criar o hábito de explicar ao paciente, sempre que possível, o que está prescrevendo. Se você não consegue explicar de forma simples por que está fazendo aquela prescrição, talvez ainda não tenha a clareza necessária. Procure também ler a prescrição inteira antes de finalizar, como se fosse a pessoa que vai administrar. Isso ajuda a evitar erros.
Principais classes de medicamentos para os primeiros plantões
Para facilitar os estudos, a seguir você confere uma lista com as principais classes de medicamentos que deve aprender enquanto ainda é interno para ficar mais seguro nos primeiros atendimentos como médico. Não basta saber que eles existem: é necessário entender quando indicar, quando evitar e quais sinais exigem reavaliação.
Analgésicos e antitérmicos
Paracetamol e dipirona são medicamentos que parecem simples na hora de prescrever, mas não basta orientar o uso de paracetamol de 6 em 6 horas e encerrar a conduta. É preciso estar atento a alergias, dose máxima diária e combinações inadvertidas.
Saiba mais: Manejo de dor e febre em pacientes ambulatoriais
Antibióticos de uso comum
Amoxicilina e cefalexina, por exemplo, serão frequentes nas suas prescrições. Compreenda informações como espectro de ação, dose e duração adequada, além da necessidade de ajuste para função renal. Também é importante saber quando o uso de antibióticos é desnecessário e reconhecer sinais de falha terapêutica.
Saiba mais: Antibióticos: chegou a hora de repensarmos como prescrevê-los
Anti-hipertensivos
O primeiro passo é diferenciar urgência e emergência hipertensiva. Nem toda pressão alta em plantão precisa de redução imediata. Conhecer as diretrizes e saber quando não intervir também é importante.
Pesquisar quais são os principais medicamentos disponíveis e quais as formas de atuação de cada um deles, como losartana e captopril, ajuda a ter melhor controle na hora de prescrever.
Saiba mais: Escolhendo os melhores anti-hipertensivos para cada paciente
Anti-inflamatórios
“Ah, é só mais um anti-inflamatório.” Essa ideia de que se trata de uma prescrição inocente de ibuprofeno nos atendimentos pode ser equivocada. Tenha cuidado com a prescrição para idosos, pacientes renais ou com risco gastrointestinal. Se necessário, e possível, considere outras opções.
Antieméticos
Ondansetrona e metoclopramida, por exemplo, também são medicamentos de uso muito comum no dia a dia dos atendimentos, mas exigem cuidados específicos. Conheça os efeitos extrapiramidais, o risco de prolongamento de QT, as interações medicamentosas e outros pontos de atenção.
Saiba mais: Estratégias para o manejo de náuseas e vômitos
Antidiabéticos e insulina
Aqui está grande parte das inseguranças do recém-formado na hora da prescrição. Aprenda a fazer correção de hiperglicemia, reconhecer hipoglicemia, ajustar esquemas simples e identificar quando associar uma nova classe de medicamentos ou iniciar insulina.
Saiba mais: Veja o que o interno precisa dominar para atender pacientes com diabetes
Broncodilatadores
Eles aparecem frequentemente nos atendimentos. Por isso, estude dose inalatória, uso de espaçadores, intervalo entre doses e manejo de crise asmática leve a moderada. Saber orientar o paciente a fazer o uso correto, nesses casos, é tão importante quanto a prescrição.
Psicotrópicos
Mesmo que você não seja psiquiatra, vai atender pacientes com queixas de insônia, ansiedade aguda ou síndrome de abstinência. Conheça princípios básicos para tomar as condutas iniciais e evite prescrição desnecessária de benzodiazepínicos.
Soluções intravenosas
Fluidos, como soro fisiológico e ringer lactato, também são medicamentos e são frequentes no pronto atendimento. Aprenda a calcular volume e tempo de infusão e, principalmente, a reconhecer quando suspendê-los.
Autoria

Juliana Karpinski
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.