A UTI já havia amanhecido em ritmo acelerado quando a equipe recebeu o resultado definitivo do segundo exame clínico para confirmação da morte encefálica.
Mariana, 37 anos, professora universitária, havia sofrido um aneurisma cerebral roto três dias antes. Fora admitida em estado gravíssimo, submetida a neurocirurgia de emergência e evoluíra rapidamente com ausência irreversível das funções encefálicas.
Todos os protocolos previstos pelo Conselho Federal de Medicina haviam sido rigorosamente cumpridos: avaliações clínicas por médicos distintos, teste de apneia e exame complementar compatível com ausência de perfusão cerebral.
Do ponto de vista médico e legal, Mariana estava morta.
Ainda assim, o monitor cardíaco seguia emitindo sons ritmados, o tórax continuava a se mover com o auxílio da ventilação mecânica e o corpo mantinha temperatura e perfusão graças ao suporte intensivo. Para a família, especialmente para o marido, Eduardo, aquilo tornava a morte impossível de compreender.
Eduardo chegava cedo à UTI todos os dias. Sentava-se ao lado da esposa, segurava sua mão e conversava como se ela pudesse ouvi-lo.
Na manhã em que a equipe decidiu discutir oficialmente a suspensão do suporte artificial, ele já demonstrava sinais evidentes de exaustão emocional. Havia passado a noite pesquisando relatos na internet sobre “pessoas que acordaram do coma” e se agarrava a qualquer narrativa que não diferenciasse o coma da morte encefálica.

A comunicação do diagnóstico de morte encefálica
A reunião ocorreu em uma sala reservada. Participavam a intensivista responsável, uma residente do segundo ano, a psicóloga hospitalar e Eduardo.
A médica iniciou explicando novamente o diagnóstico, descrevendo os critérios técnicos utilizados e reforçando que morte encefálica não se confundia com estado vegetativo ou coma profundo. Falava pausadamente, evitando jargões.
Eduardo interrompeu:
— Se ela está morta, por que o coração continua batendo?
A pergunta, frequente em situações semelhantes, produziu um breve silêncio. A residente ensaiou responder com detalhes fisiológicos sobre suporte hemodinâmico e ventilação mecânica, mas a intensivista optou por outro caminho:
— Porque os aparelhos conseguem manter alguns órgãos funcionando por um tempo. Mas Mariana não tem mais atividade cerebral. Ela não sente, não percebe e não pode retornar.
Eduardo chorou em silêncio. Em seguida, veio a frase que mudaria o tom da conversa:
— Então vocês querem desligar minha esposa.
A partir daquele momento, a discussão deixou de ser apenas técnica. Tornou-se humana, ética e emocional.
Leia também: Aprenda a comunicar más notícias de forma sensível e respeitosa
Entre a morte encefálica e o tempo emocional do luto
A equipe percebeu que Eduardo interpretava a suspensão do suporte como uma ação ativa para provocar a morte, e não como o reconhecimento de um óbito já estabelecido.
Para ele, aceitar o desligamento equivalia a abandonar Mariana. Havia também culpa: durante a semana anterior ao aneurisma, o casal discutira intensamente sobre a possibilidade de mudança de cidade por motivos profissionais. Eduardo repetia que “não podia desistir dela daquele jeito”.
Nos dias seguintes, a resistência persistiu. O marido exigiu transferência hospitalar, pediu nova avaliação neurológica e chegou a acusar a equipe de precipitação.
Parte dos residentes passou a demonstrar desconforto crescente. Alguns defendiam manter os aparelhos indefinidamente para evitar o conflito familiar. Outros acreditavam que a insistência configurava obstinação terapêutica sem benefício clínico.
A discussão multiprofissional sobre os limites do cuidado
Em reunião multiprofissional, discutiu-se não apenas a legalidade do caso, mas principalmente a forma de condução.
A psicóloga destacou que o luto de Eduardo ainda estava na fase de negação e que a comunicação fragmentada entre os profissionais aumentava sua desconfiança. Cada médico utilizava explicações diferentes, por vezes excessivamente técnicas.
Foi definido, então, um plano unificado:
- apenas dois profissionais fariam as principais atualizações clínicas;
- as conversas ocorreriam em ambiente reservado e sem pressa;
- Eduardo seria estimulado a verbalizar dúvidas e medos, e não apenas a ouvir informações.
Leia também: Saiba aplicar protocolos de comunicação de más notícias na prática médica
A decisão sobre a suspensão do suporte
Na conversa decisiva, a intensivista abordou o tema de maneira diferente:
— Nós não estamos escolhendo se Mariana vai viver ou morrer. Essa definição, infelizmente, já aconteceu. O que precisamos decidir agora é como respeitar esse momento com dignidade.
A frase produziu impacto imediato. Eduardo permaneceu em silêncio por vários minutos antes de perguntar se poderia ficar ao lado da esposa durante a retirada gradual dos suportes. A equipe concordou.
Horas depois, acompanhado da psicóloga e de um representante religioso solicitado pela família, Eduardo segurava a mão de Mariana enquanto os dispositivos eram suspensos de forma protocolar e respeitosa.
Morte encefálica, ética médica e comunicação
Para os residentes que acompanharam o caso, a principal lição não esteve nos critérios diagnósticos da morte encefálica, amplamente descritos em protocolos, mas na compreensão de que a verdade médica, quando comunicada sem acolhimento, pode ampliar o sofrimento.
A dificuldade da família raramente nasce apenas da falta de informação. Frequentemente, surge da incompatibilidade entre o tempo biológico da medicina e o tempo emocional do luto.
A morte encefálica representa um dos cenários mais delicados da prática médica porque confronta aquilo que a família vê com aquilo que a ciência determina. O corpo aquecido, o tórax em movimento e o monitor cardíaco criam a ilusão de continuidade da vida.
Nesses momentos, a competência técnica sem habilidade comunicacional torna-se insuficiente.
Leia também: CBMI 2025 aborda diagnóstico e desafios da morte encefálica
O papel do médico diante da recusa familiar
O Código de Ética Médica estabelece que o médico deve evitar procedimentos inúteis e obstinados em pacientes sem possibilidade de reversão, garantindo cuidados paliativos e dignidade. Porém, cumprir a norma ética não significa ignorar o sofrimento da família.
Humanizar não é prolongar indefinidamente intervenções sem benefício. É conduzir decisões difíceis com clareza, empatia e respeito.
Explicar repetidamente, acolher reações emocionais e permitir tempo para a elaboração do luto também fazem parte do cuidado.
Ao final daquele plantão, a residente comentou que havia entendido, talvez pela primeira vez, que comunicar uma morte não é apenas transmitir um dado clínico. É entrar, ainda que brevemente, no momento mais doloroso da vida de alguém.
Leia também: Protocolo SPIKES orienta a comunicação de más notícias
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.