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Carreira23 janeiro 2026

Saiba aplicar protocolos de comunicação de más notícias na prática médica

Aprenda como comunicar más notícias com empatia e estrutura, evitando falhas e fortalecendo a confiança entre médico, paciente e família
Por Ester Ribeiro

Comunicar más notícias – informações que alteram de forma drástica e negativa a perspectiva de futuro do paciente – é uma das tarefas mais desafiadoras para médicos em formação. Essas notícias podem gerar medo, tristeza, indignação e até trauma duradouro se transmitidas de forma inadequada. Por isso, é essencial adotar uma abordagem estruturada e compassiva. Falhas na comunicação — como o uso excessivo de linguagem técnica, omissão ou falta de clareza — podem gerar má compreensão e quebrar a confiança entre paciente, família e equipe de saúde. Em contrapartida, ambientes que priorizam empatia, compreensão e apoio promovem conforto emocional e melhor entendimento do diagnóstico.

Pacientes e familiares esperam receber informações difíceis com sensibilidade e qualidade, sem falsas promessas. Os médicos devem planejar cuidadosamente o momento da conversa, escolhendo um ambiente privado, sem interrupções. É recomendável sentar-se junto ao paciente, garantir a presença de alguém de confiança, revisar os dados clínicos e ajustar a linguagem à compreensão do interlocutor. Conhecer o paciente e sua rede de apoio — crenças, contexto social e preferências — fortalece a confiança mútua. Nessa preparação inicial, o médico realiza uma “anamnese emocional”: revisa o caso, define quem participará da conversa (médicos, familiares, psicólogos) e se prepara mentalmente para conduzir a situação com calma e segurança.

médico segurando a mão de paciente seguindo os atributos da atenção primária, como orientação comunitária e foco na família

Protocolo SPIKES e outros protocolos reconhecidos

O protocolo SPIKES é o mais conhecido modelo estruturado para comunicação de más notícias. Ele organiza o processo em seis etapas:

  • S – Setting up (Preparação): escolher local reservado, sem interrupções, sentar-se próximo ao paciente e iniciar a conversa com calma. A presença de alguém de confiança pode transmitir segurança.
  • P – Perception (Percepção): antes de dar a notícia, entender o que o paciente já sabe sobre seu quadro e avaliar sua percepção.
  • I – Invitation (Convite): saber quanto o paciente deseja saber. Perguntar se quer todos os detalhes ou prefere que as informações fiquem com a família.
  • K – Knowledge (Conhecimento): comunicar a notícia em partes, com linguagem simples e frases curtas. Iniciar suavemente (“Infelizmente não tenho boas notícias”) e checar a compreensão a cada passo. Evitar termos técnicos e frases absolutas como “não há mais nada a fazer”.
  • E – Emotions (Empatia): após a notícia, aguardar a reação emocional. Diante de choro ou silêncio, o médico deve oferecer apoio e acolher a emoção (“Sei que essa notícia é muito difícil”).
  • S – Strategy and Summary (Plano e Síntese): verificar se o paciente está pronto para discutir os próximos passos e resumir o que foi compreendido. Esclarecer possibilidades de tratamento, encaminhamentos e cuidados futuros, deixando claro que o médico está disponível para novas conversas.

O SPIKES não é um roteiro rígido, mas uma base adaptável a cada situação e paciente. Em pediatria, por exemplo, recomenda-se envolver plenamente os pais e ajustar a linguagem à idade da criança. Outros protocolos, como o P-A-C-I-E-N-T-E (versão brasileira), o CLASS e o ABCDE, também visam organizar a conversa para que o médico ofereça informações de modo claro e empático, acolhendo reações imprevisíveis.

Estratégias práticas e manejo de emoções

Algumas estratégias são universais. Permitir o silêncio e o choro: o médico deve permanecer presente, sem interromper a emoção. A escuta ativa e a validação das reações (“Vejo que esta notícia o abalou muito”) transmitem acolhimento. Gestos simples, como um toque respeitoso, podem reforçar empatia. Evite jargões e frases evasivas — expressões genéricas minam a confiança. Seja honesto sobre a gravidade, mas sem eliminar a esperança.

Reações intensas, como raiva, negação ou culpa, exigem tato. Se o familiar ficar agressivo, o médico deve manter a calma, reafirmar sua disponibilidade e não reagir com impaciência. Diante da negação, respeite o tempo do paciente, mas continue oferecendo informações claras quando ele estiver preparado. Em todos os casos, o médico é o ponto de equilíbrio da conversa — mantendo postura serena e acolhedora.

Sempre que possível, envolva psicólogos, enfermeiros ou outros membros da equipe. Em UTIs, por exemplo, costuma-se atuar em dupla (médico e psicólogo) para apoiar familiares em choque. Após a conversa, registre no prontuário o que foi dito e planejado e ofereça a possibilidade de novos encontros para esclarecer dúvidas. Evite que o paciente receba informações graves por meios indiretos, como pela família ou pela internet.

Contextos específicos

Oncologia: envolve diagnósticos graves, recidivas tumorais e decisões sobre cuidados paliativos. Nessas situações, a relação médico-paciente tende a ser mais duradoura, o que favorece a confiança. O SPIKES é amplamente utilizado. O médico deve explicar o diagnóstico com clareza, evitando minimizar a gravidade, e discutir possibilidades futuras com empatia, respondendo dúvidas e mantendo o vínculo humano.

UTI: nesses ambientes, a gravidade dos casos e a ansiedade familiar exigem preparo emocional e comunicação estruturada. É recomendável avisar com antecedência sobre o teor da conversa e envolver familiares-chave desde cedo. A conversa deve ocorrer em local privativo, com o médico sentado e utilizando termos simples. Mesmo quando o paciente está inconsciente, a comunicação com os familiares deve ser mantida, de preferência com o apoio de outros profissionais da equipe.

Pronto-socorro: o ambiente caótico e o tempo limitado tornam a comunicação ainda mais desafiadora. Protocolos como o SPIKES precisam ser adaptados — a notícia pode ser transmitida em etapas, conforme a evolução do caso. É essencial garantir o máximo de privacidade possível e preparar o interlocutor antes de transmitir o conteúdo (“Sinto muito, mas preciso conversar sobre a situação do seu familiar”). Após a estabilização do paciente, o médico deve retomar a conversa para detalhar o quadro e esclarecer dúvidas.

O papel do médico como referência

Em qualquer cenário, o médico deve se manter como a figura racional e compassiva da conversa. Isso significa transmitir domínio das informações, não fugir de perguntas difíceis e não mascarar a realidade. A postura calma e empática comunica cuidado e responsabilidade. Iniciar, conduzir e encerrar a conversa com serenidade transmite segurança.

Conclusão

Comunicar más notícias exige clareza, escuta empática e preparo emocional. Quando bem conduzida, essa conversa, embora dolorosa, fortalece o vínculo de confiança e humaniza o atendimento. A aplicação de protocolos como o SPIKES, a adaptação ao contexto e o treinamento contínuo são ferramentas indispensáveis para médicos em formação e profissionais que desejam aprimorar a prática comunicativa.

Exemplo clínico (simulado):

Um paciente oncológico é internado para avaliação de febre e queda de hemoglobina. O médico reserva um ambiente tranquilo e chama a esposa do paciente. Pergunta o que ela já sabe (Perception) e se deseja ouvir detalhes (Invitation). Depois, comunica que a biópsia revelou metástase hepática (Knowledge). Ao ver a mulher chorar, permanece em silêncio por alguns instantes e diz com calma: “Sei que isso deve estar sendo devastador para vocês” (Emotions). Por fim, resume o plano de cuidados e discute possibilidades de suporte (Strategy). O caso exemplifica como a combinação de estrutura e empatia transforma uma conversa difícil em um ato de cuidado genuíno.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

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