Pela primeira vez na história, as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no país. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, as médicas representam 50,9% dos profissionais em atividade, avanço de quase dez pontos percentuais em relação a 2010. A projeção para 2035 indica que essa proporção chegará a 56%. Nas faculdades de medicina, 61,8% dos matriculados em 2023 eram mulheres.
Os números representam uma conquista importante, mas vêm acompanhados de dados internacionais que demandam atenção para a desigualdade de gênero na medicina e seus efeitos sobre a permanência na carreira.

Médicas deixam a prática clínica com maior frequência
Um estudo publicado em 2026 no Journal of General Internal Medicine acompanhou mais de 700 mil médicos norte-americanos durante dez anos. A análise demonstrou que as médicas têm probabilidade 43% maior de abandonar a prática clínica do que os médicos, em todas as idades e especialidades.
Entre as profissionais que deixaram a medicina assistencial, a saída ocorreu, em média, 15 anos antes do que entre os homens. A mediana de idade de abandono foi de 49 anos entre as mulheres e de 64 anos entre os homens (Rotenstein et al., 2026).
Com isso, o sistema de saúde perde profissionais que frequentemente se encontram no auge da experiência clínica.
O fenômeno ocorre em um momento em que a projeção de escassez de médicos nos Estados Unidos para 2036 aponta déficit de 36.500 profissionais (AAMC, 2024). Caso as condições estruturais que aceleram esse abandono não sejam modificadas, a feminização da medicina pode coexistir com uma escassez crescente de profissionais em atividade.
O que os dados internacionais indicam para o Brasil?
O Brasil ainda não dispõe de um estudo equivalente. A Demografia Médica no Brasil 2025 é o levantamento demográfico mais abrangente disponível no país, mas não mensura taxas longitudinais de abandono por sexo nem identifica a idade mediana de saída da prática assistencial.
Apesar dessa lacuna, dados estruturais brasileiros tornam os achados norte-americanos relevantes para a discussão nacional.
Disparidade de renda permanece na carreira médica
Entre os dados nacionais, a desigualdade salarial é uma das dimensões mais documentadas.
Pesquisa conduzida pelo Afya Research Center com mais de 2.600 médicos em atividade mostrou que as médicas ganham, em média, 22,6% menos que os médicos. A diferença corresponde a aproximadamente R$ 5.000 mensais.
O valor recebido por hora trabalhada é R$ 47 menor para as mulheres, o equivalente a uma diferença de 11,4% no rendimento por hora (Afya Research Center, 2025).
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Distribuição desigual entre as especialidades
Das 55 especialidades regulamentadas no Brasil, as médicas são maioria em apenas 20 (Scheffer, 2025). Na Urologia, 96,5% dos especialistas são homens. Na Ortopedia e Traumatologia, essa proporção chega a 92%.
Entre as barreiras identificadas estão:
- ambiente historicamente hostil às médicas;
- ausência de mentoras;
- discriminação durante a formação;
- dificuldades para conciliar carreira e maternidade.
A concentração feminina em especialidades com menor remuneração média, como Pediatria e Medicina de Família e Comunidade, também contribui para a manutenção da disparidade salarial.
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O que precisa mudar para ampliar a permanência das médicas?
Os dados brasileiros ainda não medem exatamente o que o estudo de Rotenstein et al. quantificou nos Estados Unidos: as taxas de abandono definitivo da prática clínica por sexo, ao longo do tempo e de acordo com especialidade e localização geográfica.
Caso as tendências observadas nos Estados Unidos se reproduzam no Brasil, a feminização da medicina poderá coexistir com uma escassez crescente de profissionais na assistência. Esse cenário se torna mais provável se as condições estruturais que aceleram o abandono feminino da prática clínica não forem enfrentadas.
Retenção deve integrar o planejamento da força de trabalho
A projeção de que o Brasil terá mais de 1,15 milhão de médicos até 2035 pressupõe a permanência desses profissionais na força de trabalho.
Os dados norte-americanos indicam, porém, que essa permanência não deve ser presumida sem políticas direcionadas à retenção.
A sustentabilidade da força de trabalho médica brasileira depende de caminhos que garantam à maioria feminina já presente nos consultórios e hospitais condições para permanecer em atividade ao longo de toda a carreira.
Autoria

Juliana Karpinski
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