No Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, uma pergunta ainda cercada de preconceitos volta ao debate: é possível exercer a medicina sendo uma pessoa autista?
A resposta, cada vez mais sustentada por evidências científicas e trajetórias reais, é sim – desde que a sociedade, as instituições e o próprio ambiente de trabalho estejam dispostos a rever expectativas normativas e a construir espaços mais acessíveis.

Dados recentes reforçam a urgência desse debate
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 1 em cada 100 pessoas no mundo esteja dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). No Brasil, estudos do Ministério da Saúde e da Fiocruz apontam crescimento expressivo nos diagnósticos, especialmente em adultos, impulsionado por maior reconhecimento clínico e ampliação dos critérios diagnósticos.
Ainda assim, a subnotificação permanece elevada, sobretudo entre pessoas que conseguiram se adaptar parcialmente às exigências sociais, mas à custa de sofrimento psíquico intenso.
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A trajetória de Thomas Haunold e o diagnóstico na vida adulta
É nesse contexto que se insere a trajetória do psiquiatra Thomas Haunold, austríaco radicado em São Paulo há dez anos. Formado em Medicina na Europa e especializado em Psiquiatria no Brasil, ele recebeu o diagnóstico de autismo apenas na vida adulta. “O diagnóstico foi tardio, mas, olhando para trás, sempre foi óbvio”, afirma.
Durante a infância, foi considerado um aluno exemplar até os 12 anos, quando o cenário mudou: dificuldades de adaptação, bullying, episódios de burnout precoce e ideação suicida passaram a fazer parte da sua história.
A escolha da medicina e o hiperfoco em ciência
A medicina entrou em sua vida quase como um gesto de provocação, e de resposta. “Escolhi a área para desafiar um professor de biologia da escola, a pessoa mais inteligente que eu conhecia, mas que nunca havia cursado Medicina, e me lançou o desafio”, conta.
Já dentro da graduação, dividiu-se entre duas possibilidades simbólicas: trabalhar com o coração ou com o cérebro. Optou pelo cérebro, fascinado pela mente humana e pelo funcionamento psíquico, um interesse que ele reconhece hoje como expressão de seu hiperfoco em ciência, característica comum a muitas pessoas autistas.
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O caminho até o autodiagnóstico e a avaliação formal
Foi também pela ciência que Haunold chegou ao autismo. Especialista em síndrome de Ehlers-Danlos e hipermobilidade articular, condições raras que apresentam maior associação com o espectro autista, ele começou a identificar padrões recorrentes em seus pacientes, e, aos poucos, em si mesmo. Esse percurso o levou ao autodiagnóstico e, posteriormente, à avaliação formal.
Atuação clínica, pesquisa e ativismo no autismo adulto
Hoje, além da prática clínica, Thomas atua como pesquisador, escritor e ativista. Está finalizando um livro sobre autismo na vida adulta, que será publicado e traduzido por uma das maiores editoras de psicologia do mundo, a Hogrefe, e participa da fundação do Instituto Brasileiro de Autismo Adulto, iniciativa voltada à conscientização, avaliação diagnóstica e atendimento social de pessoas sem acesso a serviços especializados.
O projeto também prevê avaliações neuropsicológicas online, ampliando o alcance para regiões com escassez de profissionais.
Autodeclaração, privacidade e responsabilidade social
Apesar disso, ele pondera que tornar público o diagnóstico não é uma obrigação ética. “A autodeclaração é uma escolha pessoal”, afirma, citando tratados internacionais da ONU que garantem o direito à privacidade sobre condições neurodivergentes.
Ainda assim, defende que pessoas em posições mais privilegiadas, inclusive autistas com menor grau de suporte, têm responsabilidade social de interceder por quem não consegue se expressar ou acessar direitos.
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Acessibilidade, trabalho e prática médica no espectro autista
Haunold critica abertamente o modelo educacional e profissional que exige que o indivíduo autista se adapte integralmente a padrões rígidos de comunicação, produtividade e sociabilidade. Para ele, o problema não está no autismo, mas na falta de acessibilidade. “O mundo deveria ser adaptável a todos”, resume.
Em sua prática clínica, utiliza instrumentos como o RAADS-IV-R, além de defender tecnologias assistivas, gadgets de comunicação alternativa e ajustes razoáveis no ambiente de trabalho.
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Qualidades que o autismo pode agregar à prática médica
Contrariando visões capacitistas, o psiquiatra argumenta que o autismo pode trazer qualidades adicionais à prática médica, como pontualidade, confiabilidade, rigor ético, respeito ao sigilo, previsibilidade, empatia estruturada e grande capacidade de concentração. “Autismo não é deficiência. É uma forma diferente de se relacionar com o mundo”, afirma.
Saúde mental, estigma e invisibilidade entre adultos autistas
Estudos recentes reforçam a necessidade de olhar para a neurodiversidade com mais nuance. Pesquisas internacionais mostram taxas elevadas de burnout, depressão e ansiedade entre adultos autistas sem diagnóstico ou suporte adequado, muitos dos quais acabam sendo rotulados socialmente como “preguiçosos, lamentáveis ou esquisitos”, sigla que Haunold ironiza como “PLE”, expressão do estigma cotidiano imposto pela sociedade.
Caminhos práticos para médicos e profissionais dentro do espectro
Para médicos e outros profissionais dentro do espectro, ele recomenda caminhos práticos: autoconhecimento profundo, leitura realista do ambiente, compreensão dos próprios limites e potencialidades, busca por proteção jurídica quando necessário, pesquisa ativa sobre nichos profissionais compatíveis e acompanhamento psicológico especializado.
Tornar o mundo do trabalho mais acessível é uma exigência ética
A pergunta que abre esta reportagem talvez precise ser reformulada. Não se trata apenas de saber se é possível ser médico sendo autista, mas de reconhecer quantos profissionais já exercem a medicina dentro do espectro, muitas vezes invisíveis, exaustos e não reconhecidos.
Tornar o mundo do trabalho mais acessível não é concessão. É uma exigência ética.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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