Diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm aumentado significativamente nos últimos anos, não apenas em crianças, como em adolescentes e adultos. No Brasil, estimativas apontam que cerca de 2 milhões de pessoas se enquadrem no TEA, embora alguns especialistas sugiram que esse número possa ser ainda maior, chegando a 6 milhões.
Para estudiosos da área, os números refletem uma maior conscientização sobre os aspectos do transtorno e o aprimoramento nos critérios de identificação. A questão é que, hoje, mais do que nunca, tem-se feito necessária a implementação de condutas médicas que se adaptem ao perfil desses pacientes, dado o aumento expressivo na demanda por serviços especializados.
Em São Paulo, por exemplo, a procura por tratamentos para indivíduos com TEA aumentou 384% nos últimos cinco anos, de acordo com um recente levantamento. Fica claro que pessoas no espectro autista requerem tantos cuidados médicos nas diversas especialidades quanto as neurotípicas. Mas por onde começar?
Conversamos com a pediatra Dra. Dolores Souza, a ortopedista Dra. Zaira Reinaldo e o otorrinolaringologista Dr. Felippe Félix para saber qual a melhor forma de conduzir o atendimento clínico a pessoas neurodivergentes.
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Como tornar o consultório mais acolhedor?
Se o médico já sabe que atenderá um paciente autista, é fundamental organizar o horário da consulta de forma que ele não precise esperar muito. Agendar um tempo maior para o atendimento evita atrasos e permite uma abordagem mais cuidadosa. Além disso, o espaço físico deve ser confortável e livre de excessos.
É importante reduzir estímulos visuais e sonoros que possam gerar desconforto. Isso inclui diminuir a intensidade da iluminação, evitar luzes fluorescentes muito fortes e utilizar tons mais suaves na decoração. Controlar o nível de ruído, minimizando sons altos, como televisão e música na recepção, também pode ajudar na estabilização do paciente.
“Disponibilizar brinquedos sensoriais, almofadas ou até mesmo fones abafadores de ruído pode ajudá-los a se sentirem mais confortáveis enquanto aguardam a consulta”, orienta a pediatra.
É importante observar o nível de suporte do paciente com autismo, pois há variações na forma como ele se comunica. Alguns, como os não verbais, dependem da interpretação de gestos ou da mediação de familiares. Saber como estabelecer essa ponte é essencial para criar um ambiente seguro e acolhedor.
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Exame físico e sensibilidade sensorial
Todo procedimento deve ser explicado previamente para evitar surpresas que possam desestabilizar o paciente. É recomendável demonstrar os instrumentos antes de utilizá-los e permitir que o toquem para se familiarizar. Pequenos cuidados, como avisar antes de acender uma luz forte ou realizar um exame invasivo, fazem toda a diferença.
Dr. Felipe destaca que “exames como a otoscopia e a nasofibroscopia, por exemplo, são especialmente desafiadores para pacientes autistas. A previsibilidade é a melhor estratégia para torná-los mais viáveis, para todos os públicos, na verdade”.
Por fim, o uso de ferramentas de distração, como brinquedos e tablets, pode ser um grande aliado. Se o exame for rápido, permitir que o paciente, especialmente se for uma criança, assista a um vídeo curto pode facilitar o procedimento, reduzindo a ansiedade e tornando a consulta mais tranquila.
Sem mistérios
Independentemente da idade do paciente, a presença de um acompanhante de confiança durante o exame pode oferecer segurança adicional. Se houver necessidade de adaptações, o ideal é que os pais, responsáveis ou cuidadores informem previamente sobre o diagnóstico para que o atendimento possa ser planejado de forma mais adequada.
A Dra. Zaira Reinaldo, ortopedista, enfatiza a importância da antecipação: “Os pais podem mostrar fotos e vídeos do médico e do consultório antes da consulta, explicando o que vai acontecer. ‘Amanhã vamos na Dra. Zaira, e ela vai examinar o seu pé’, ok?”. Para a profissional, isso ajuda o paciente a se preparar para a experiência e a diminuir a resistência ao atendimento, que no caso da ortopedia geralmente implica em muito toque físico.
Já dentro do consultório, vale reforçar um roteiro estruturado de ações: “Primeiro, vamos conversar. Depois, você vai se deitar na maca e eu vou tocar no seu braço. Em seguida, vamos olhar sua perna e, por fim, você vai caminhar no corredor para eu avaliar sua marcha, tudo bem?”, define a médica, como exemplo de abordagem.
No decorrer da consulta, permitir que se explore o ambiente pode ser positivo. No entanto, um alerta: nos casos de TEA de suporte nível 3, em que há maior risco de comportamento agressivo ou autolesivo, a atenção por parte de médico e cuidadores deve ser redobrada.
Capacitação adequada dos profissionais
Com um aumento 280% no número de diagnóstico de autismo entre 2017 e 2021, é natural pensar que muitos dos profissionais hoje em atuação no Brasil não tenham recebido instruções claras, ao longo da formação acadêmica, sobre como lidar com pacientes neurodivergentes em consultórios médicos.
Por isso mesmo, é unânime entre os especialistas das mais diversas áreas que não apenas médicos, mas todos os profissionais de saúde, precisam – de forma progressiva – se preparar para atender pacientes autistas de maneira respeitosa e eficiente.
“Na pediatria, de uma forma geral, já temos uma abordagem mais humanizada, pois lidamos com crianças que, ao contrário dos adultos, muitas vezes não compreendem a necessidade de estar em uma consulta”, ressalta Dra. Dolores.
Ela salienta ainda que, a fim de preencher essa lacuna acadêmica, médicos e estudantes de medicina devem buscar cursos e materiais sobre autismo, bem como compreender as diferentes formas de comunicação desses pacientes.
Como frisa Dr. Felippe, oferecer uma abordagem adequada não exige grandes mudanças estruturais, mas sim empatia, conhecimento e adaptação por parte do médico e sua equipe.
“O paciente autista pode ter dificuldades em expressar dor ou desconforto da maneira convencional, então cabe ao profissional encontrar estratégias para entender suas necessidades. Para isso, é preciso estudar o transtorno e suas variáveis, e sobretudo estar atento ao indivíduo em si e nas informações passadas pelos familiares e cuidadores”, lembra.
Dicas preciosas
Recapitulando:
- Antecipação e previsibilidade – Explicar ao paciente o que será feito durante a consulta ajuda a reduzir a ansiedade e evitar surpresas. Narrar as etapas de forma clara e sequencial proporciona segurança;
- Ambiente adaptado – Reduzir estímulos sensoriais como luzes fortes e sons altos, além de minimizar o tempo de espera, contribui para o conforto do paciente. Permitir que ele explore o ambiente também pode ajudar na adaptação;
- Acompanhamento e comunicação – A presença de um familiar ou responsável de confiança facilita a comunicação, especialmente para pacientes não verbais, e garante um atendimento mais acolhedor;
- Uso de recursos lúdicos – Brinquedos e dispositivos eletrônicos podem servir como aliados para distrair a criança e tornar a consulta menos estressante;
- Respeito ao tempo do paciente – Consultas sem pressa, com tempo suficiente para adaptação, promovem um atendimento mais humanizado e eficaz.
Conselho para novos médicos
Por fim, o conselho que vale tanto para médicos ainda em formação ou que acabaram de entrar para o mercado de trabalho quanto para aqueles que já atuam há mais tempo, é a busca constante por conhecimento sobre o tema.
Ter paciência e dedicar um tempo adequado para a consulta são também aspectos fundamentais para estabelecer uma boa comunicação e garantir um atendimento de qualidade.
“Cada paciente é único, e entender suas necessidades individuais pode transformar uma consulta desafiadora em uma experiência positiva para todos”, finaliza Dra. Dolores.
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